# Sono e Menopausa: Fogachos, Insônia e o que o Personal Trainer Precisa Entender

> Por que aproximadamente 60% das mulheres pós-menopausa têm insônia, como os sintomas vasomotores destroem o sono profundo, e o que a ciência diz sobre exercício, CBT-I e as novas abordagens não-hormonais.



Canonical: https://www.treinoai.com.br/academy/blog/sono-e-menopausa
Autor: Rafa Lund
Publicado em: 2026-06-19
Atualizado em: 2026-07-21

> **Resumo para profissionais**
> - Aproximadamente 60% das mulheres pós-menopausa apresentam insônia, com predominância de dificuldade de manutenção do sono (acordar várias vezes durante a noite).
> - Cerca de 70% têm sintomas vasomotores, causados pela hiperativação dos neurônios KNDy no hipotálamo após a queda do estrogênio. Cada onda de calor noturna fragmenta o sono e suprime estágios profundos.
> - Mulheres com sintomas persistentes de insônia na meia-idade têm 71% mais risco cardiovascular subsequente, conforme o estudo SWAN publicado em 2024 na Circulation.
> - A apneia obstrutiva do sono dobra de prevalência após a menopausa, com apresentação clínica frequentemente atípica em mulheres (mais fadiga e fragmentação, menos ronco escandaloso).
> - Treino de força três vezes por semana melhorou simultaneamente fogachos e qualidade do sono em RCT recente, posicionando o exercício como intervenção legítima nessa população. CBT-I segue como tratamento de primeira linha para insônia.

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## Introdução: o ciclo vicioso que ninguém quebra

A cliente de 52 anos chega para a avaliação relatando fadiga crônica. Acorda cansada todo dia, mesmo "dormindo" oito horas. Treina, mas não consegue progredir. Tenta emagrecer, mas a balança não anda. Quando o personal trainer pergunta sobre sono, a resposta vem com naturalidade: "Ah, eu acordo várias vezes à noite por causa do calor, mas é normal pra minha idade".

Não é normal. É frequente, mas não normal. E é tratável.

Esse cenário é a expressão clínica de um ciclo vicioso pouco compreendido na prática profissional. A queda de estrogênio na menopausa desencadeia ondas de calor que fragmentam o sono. O sono fragmentado piora humor, cognição e tolerância ao exercício. A piora da capacidade física reduz a aderência ao treino. A redução do treino piora composição corporal e saúde metabólica. Esse ciclo, quando não interrompido, impõe um custo de saúde que vai muito além do desconforto noturno.

Esse artigo aprofunda dois temas centrais para o personal trainer que atende mulheres em peri e pós-menopausa: os sintomas vasomotores (fogachos e sudorese noturna) e a insônia. Vamos cobrir a fisiopatologia, a magnitude do problema, as consequências de saúde, e principalmente as intervenções com evidência científica. O objetivo é dar ao profissional ferramentas concretas para reconhecer, ajustar a prescrição e, quando necessário, encaminhar.

Para uma visão mais ampla sobre o impacto do sono em saúde e treino, vale conhecer o artigo geral [Sono, Saúde e Treino: o que a ciência diz sobre quantidade, qualidade e performance](https://www.treinoai.com.br/academy/blog/sono-saude-e-treino-o-que-a-ciencia-diz-sobre-quantidade-qualidade-e-performance). Aqui o foco é a fase específica da vida feminina onde o sono se torna o maior gargalo.

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## Fisiopatologia: por que o estrogênio mexe com o sono

Para entender por que o sono desmorona na menopausa, é preciso entender o que o estrogênio fazia até ali. Esse hormônio não regula apenas o ciclo menstrual. Ele atua como modulador central de múltiplos sistemas que afetam diretamente o sono, incluindo o eixo do estresse, a termorregulação, a regulação do humor, e a arquitetura do próprio sono.

Pense no estrogênio como o maestro de uma orquestra. Quando o maestro está presente, os instrumentos tocam de forma sincronizada. Quando o maestro sai do palco, os músicos continuam tocando, mas cada um no seu tempo. O resultado audível é uma desorganização que se manifesta em fogachos, despertares, alterações de humor e queda na qualidade do sono profundo.

Conforme a revisão clínica de [Baker et al. (2018)](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30098758/), publicada nos *Sleep Medicine Clinics*, a transição menopáusica está associada a aumento de sintomas de insônia, especialmente dificuldade de manutenção do sono. A queda hormonal afeta a arquitetura interna do sono, reduzindo o tempo em estágios profundos (N3 e N4) e aumentando a fragmentação. Isso significa que mesmo quando a mulher reporta dormir oito horas, o sono que ela teve foi de qualidade muito inferior ao de uma mulher pré-menopáusica dormindo o mesmo tempo.

[Proserpio et al. (2020)](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32880197/), no *Climacteric*, descrevem o modelo dos 3 P para entender como a insônia se instala e perpetua nessa fase: fatores predisponentes (como histórico prévio de insônia e o próprio envelhecimento), fatores precipitantes (mudanças hormonais, sintomas vasomotores, distúrbios de humor) e fatores perpetuantes (modificações circadianas, comportamentos compensatórios, ansiedade sobre o sono). Esse modelo é útil porque ajuda a localizar onde intervir, em vez de tratar a insônia como uma entidade única.

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## Os fogachos: o que acontece no cérebro à noite

Aproximadamente 70% das mulheres na pós-menopausa apresentam sintomas vasomotores, segundo a síntese de [Hachul et al. (2023)](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38501515/) nos *Sleep Medicine Clinics*. A revisão de [Stuenkel (2018)](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29863584/) na *Clinical Obstetrics and Gynecology* já documentava que esses sintomas são a manifestação mais comum da transição e da pós-menopausa, contribuindo para distúrbios de sono e humor que comprometem o desempenho doméstico e profissional.

A ciência dos últimos anos esclareceu o mecanismo neurobiológico por trás dos fogachos, e essa compreensão muda a forma como tratamos o problema. A revisão recente de [Meczekalski et al. (2025)](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40094924/), publicada no *Journal of Clinical Medicine*, sintetiza o que se sabe hoje.

Existe um grupo de neurônios no hipotálamo chamado KNDy, sigla que se refere aos três neuropeptídeos que esses neurônios produzem: kisspeptina, neurokinina B e dinorfina. Esses neurônios funcionam como o "termostato" interno do corpo. Quando o estrogênio está em níveis adequados, ele atua como freio sobre os neurônios KNDy. Quando o estrogênio cai na menopausa, o freio é retirado e os neurônios KNDy entram em hiperatividade.

A consequência é que o termostato hipotalâmico fica instável. Pequenas variações de temperatura corporal, que antes eram corrigidas silenciosamente, agora disparam respostas exageradas: vasodilatação periférica, sudorese, aumento da frequência cardíaca. Isso é o fogacho.

À noite, esse mecanismo se torna particularmente disruptivo. Cada fogacho noturno produz um despertar (mesmo que a mulher não se lembre dele), suprime os estágios profundos do sono, e reduz a quantidade total de sono REM. O resultado é que a mulher pode estar 8 horas na cama, ter 7 horas de sono total, mas ter na verdade apenas 4-5 horas de sono efetivamente restaurador.

A descoberta da fisiopatologia KNDy abriu caminho para uma nova classe de medicamentos não-hormonais. O fezolinetant, aprovado pelo FDA em 2023, é um antagonista do receptor de neurokinina B (NK3R), que bloqueia diretamente o sinal hiperativo dos KNDy. Conforme detalhado por [Cucinella et al. (2024)](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39391998/) no *Expert Opinion on Drug Metabolism & Toxicology*, o medicamento mostrou eficácia em reduzir frequência e severidade dos fogachos, com impacto positivo na qualidade do sono e na qualidade de vida.

Esse contexto interessa ao personal trainer não porque ele vá prescrever o medicamento, mas porque ajuda a entender que o fogacho não é "frescura" nem "psicológico". É um fenômeno neuroendócrino com mecanismo definido, com tratamentos disponíveis, e com impacto mensurável sobre a capacidade da aluna de treinar e se recuperar.

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## A insônia da menopausa: prevalência e tipos

[Hachul et al. (2023)](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38501515/) cravam o número que precisa ser internalizado: **insônia ocorre em quase 60% das mulheres pós-menopausa**. Para contextualizar, a prevalência de insônia na população geral adulta gira em torno de 10-20%, e no período reprodutivo das mulheres fica em aproximadamente 30%. A menopausa praticamente dobra a prevalência.

Mais importante que o número total é o tipo de insônia que predomina. Existem três padrões principais:

| Tipo de insônia | Manifestação | Frequência na menopausa |
|-----------------|--------------|-------------------------|
| Inicial | Dificuldade para pegar no sono | Comum, mas não predominante |
| De manutenção | Acordar várias vezes durante a noite | **Mais comum nessa fase** |
| Terminal | Acordar muito antes do horário, sem conseguir voltar a dormir | Comum, especialmente quando associada a depressão |

A predominância da insônia de manutenção tem implicação clínica direta: é exatamente esse padrão que os fogachos noturnos produzem. E é também o padrão que mais se associa a sintomas diurnos como fadiga, irritabilidade e dificuldade de concentração.

O estudo longitudinal de [Kravitz et al. (2020)](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31934947/), na revista *Menopause*, acompanhou mulheres do estudo SWAN por 15 anos. Os autores identificaram quatro trajetórias distintas de problemas de manutenção do sono ao longo do tempo. Cerca de 20% das mulheres apresentaram aumento progressivo desses problemas durante a transição menopáusica. Esse padrão tendeu a se manter estável após a menopausa, ou seja, a insônia que se instala não regride espontaneamente apenas pela passagem do tempo.

Esse é um ponto importante para a expectativa da aluna e para o aconselhamento do profissional. A mensagem comum de "isso vai passar" não corresponde à realidade dos dados. Sem intervenção, o problema tende a persistir.

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## Mais que desconforto: insônia como fator de risco cardiovascular

Aqui entra o achado mais impactante da literatura recente sobre o tema, e o que mais reposiciona a urgência clínica de tratar a insônia menopáusica. O estudo de [Thurston et al. (2024)](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38284249/), publicado na *Circulation*, é parte do acompanhamento de longo prazo do estudo SWAN, com quase 3.000 mulheres seguidas por até 22 anos.

![nihms-1958799-f0002](https://www.treinoai.com.br/api/files/3e9cf5f7-884b-4a4e-a954-286f0ff2067b/delivery)
> Mulheres com sintomas persistentemente altos de insônia ao longo da meia-idade tiveram risco cardiovascular significativamente elevado em comparação com mulheres com poucos sintomas.*

Os pesquisadores identificaram quatro trajetórias de sintomas de insônia ao longo da meia-idade:
- Baixos sintomas persistentes (39% das mulheres)
- Sintomas moderados que diminuíram ao longo do tempo (19%)
- Sintomas baixos que aumentaram ao longo do tempo (20%)
- **Sintomas altos persistentes (23%)**

O dado central: mulheres com sintomas persistentemente altos de insômnia tiveram **71% mais risco de eventos cardiovasculares subsequentes** (infarto, AVC, insuficiência cardíaca, revascularização) em comparação com mulheres com baixos sintomas. Esse aumento se manteve mesmo após ajuste para sintomas vasomotores, ronco e sintomas depressivos, indicando que a insônia em si é um fator de risco independente.

E mais: mulheres que combinavam insônia persistente com sono curto crônico (cerca de 5 horas) tiveram risco 75% maior, em comparação com aquelas que tinham boa qualidade e duração moderada.

A interpretação prática é direta: tratar a insônia na menopausa não é apenas melhorar conforto noturno e disposição diurna. É uma intervenção de saúde cardiovascular com magnitude comparável a controlar pressão arterial ou colesterol. O personal trainer que reconhece esse padrão e orienta a aluna a buscar tratamento adequado está, de fato, fazendo prevenção primária de eventos cardiovasculares.

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## Apneia obstrutiva do sono: o diagnóstico que ninguém faz

Se a insônia é a queixa que a maioria das mulheres reconhece, a apneia obstrutiva do sono (AOS) é o diagnóstico que muitas têm sem saber. A revisão de [Schwarz e Schiza (2024)](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39189037/), publicada na *Current Opinion in Pulmonary Medicine*, sintetiza o que a ciência atual estabelece sobre diferenças sexuais em distúrbios respiratórios do sono.

Antes da menopausa, a AOS é cerca de duas a três vezes mais comum em homens do que em mulheres. Isso muda drasticamente após a menopausa: **a prevalência feminina dobra, igualando-se à dos homens**. Os mecanismos propostos incluem perda do efeito protetor da progesterona sobre a musculatura da via aérea superior, redistribuição de gordura para região cervical, e mudanças na estrutura craniofacial.

O problema clínico é que a AOS em mulheres pós-menopausa frequentemente não se apresenta com o perfil clássico que médicos aprendem na faculdade (homem obeso de meia-idade, ronco escandaloso, apneias presenciadas pelo cônjuge). Em mulheres, os sintomas tendem a ser mais sutis: fragmentação do sono, fadiga crônica, sono não reparador, dificuldade de concentração, sintomas que se confundem com insônia ou com sintomas menopáusicos comuns.

Schwarz e Schiza descrevem que mulheres têm menor colapsibilidade da via aérea superior e menor limiar de despertar. O índice apneia-hipopneia (AHI) durante o sono REM é tipicamente maior em mulheres, mas o AHI total costuma ser menor. Mulheres frequentemente apresentam sintomas em valores de AHI que seriam considerados leves nos critérios estabelecidos para homens.

[Heinzer et al. (2018)](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29957486/), no estudo populacional HypnoLaus na *Sleep Medicine*, documentou que apneia posicional é particularmente comum em mulheres pós-menopausa, com mecanismos distintos influenciando a apresentação clínica.

A implicação para o personal trainer: alunas pós-menopausa que se queixam de fadiga desproporcional ao volume de treino, sonolência diurna, ou sensação de "não recuperar nunca", merecem ser orientadas a discutir o tema com seu médico ginecologista ou clínico geral, com pedido específico para investigação de distúrbios respiratórios do sono. Um polissonograma pode mudar completamente o curso clínico dessa aluna.

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## Tratamentos: o que funciona e o que não funciona

A boa notícia é que existem múltiplas opções terapêuticas com evidência sólida. A má notícia é que nem todas são amplamente conhecidas ou prescritas no Brasil. [Caretto et al. (2019)](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31561815/) na revista *Maturitas* propõem uma abordagem integrada para o manejo de distúrbios do sono em mulheres menopáusicas, organizando os tratamentos por causa subjacente. Vale conhecer cada categoria.

### Terapia hormonal: eficaz quando há sintomas vasomotores

A terapia hormonal melhora distúrbios subjetivos do sono, particularmente quando os sintomas vasomotores estão presentes. Esse padrão é consistente em múltiplas revisões, incluindo Baker et al. (2018) e Stuenkel (2018). O mecanismo é direto: ao restaurar parcialmente o ambiente hormonal, a terapia reduz a frequência e a severidade dos fogachos, eliminando a principal causa dos despertares noturnos.

A decisão sobre terapia hormonal envolve avaliação individualizada de risco-benefício e é responsabilidade do médico ginecologista. O papel do personal trainer é reconhecer quando os sintomas estão impactando significativamente o sono e a qualidade de vida da aluna, e estimular a conversa com o profissional médico, sem prescrever ou desaconselhar opções terapêuticas.

### CBT-I: o tratamento de primeira linha para insônia

A terapia cognitivo-comportamental para insônia, conhecida pela sigla CBT-I, é hoje o tratamento de primeira linha mundialmente reconhecido para insônia crônica. Não é uma terapia genérica de "conversa": é um protocolo estruturado, geralmente em quatro a seis sessões, que combina restrição de sono, controle de estímulos, reestruturação cognitiva sobre crenças disfuncionais relacionadas ao sono, e técnicas de relaxamento.

A revisão de [Carmona et al. (2022)](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35942653/) na *Behavioral Sleep Medicine* confirmou a eficácia da CBT-I em mulheres peri e pós-menopausa, com melhorias paralelas em humor, desfechos funcionais e crenças disfuncionais sobre o sono. [Hunter (2020)](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32627593/) no *Climacteric* documenta que abordagens cognitivo-comportamentais são também eficazes para reduzir o impacto dos sintomas vasomotores e melhorar qualidade de vida.

Um achado particularmente relevante para a realidade brasileira é o RCT de [Abdelaziz et al. (2021)](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34931313/), publicado em *Perspectives in Psychiatric Care*, que demonstrou eficácia da **CBT-I baseada em internet** em mulheres menopáusicas. As participantes do grupo intervenção apresentaram reduções significativas na pontuação de qualidade do sono e severidade da insônia, com aumento do tempo total de sono e da eficiência do sono. O formato online torna a terapia acessível mesmo onde não há psicólogos especializados disponíveis localmente.

Apesar dessa robusta base de evidência, a CBT-I segue subutilizada na prática clínica brasileira. Médicos prescrevem hipnóticos com frequência, e raramente encaminham para CBT-I. O personal trainer informado pode ser o primeiro profissional a sugerir essa via à aluna, abrindo uma janela terapêutica que talvez não fosse aberta de outra forma.

### Antagonistas NK3R: a nova fronteira não-hormonal

Para mulheres com contraindicação ou recusa à terapia hormonal, o cenário até recentemente era limitado. Antidepressivos como paroxetina e venlafaxina ofereciam alguma redução nos fogachos, mas com perfil de efeitos colaterais que limitava a aceitação.

A aprovação do **fezolinetant** pelo FDA em 2023, e mais recentemente o **elinzanetant** (antagonista duplo NK1/NK3) com resultados promissores nos estudos OASIS, mudou o panorama. Conforme [Meczekalski et al. (2025)](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40094924/), esses medicamentos atuam diretamente sobre o mecanismo dos KNDy, restaurando o equilíbrio que o estrogênio mantinha. O elinzanetant especificamente parece ter benefício adicional sobre o sono, possivelmente por sua ação dupla sobre receptores NK1 e NK3.

Essas medicações ainda estão em fase de incorporação no Brasil e devem ser discutidas com o ginecologista. Mas o personal trainer que conhece sua existência consegue dar à aluna um caminho concreto de pergunta para a próxima consulta médica.

### Higiene do sono: básico que ajuda mas não basta

Estratégias clássicas de higiene do sono têm impacto modesto isoladamente, mas potencializam outras intervenções. As recomendações com melhor evidência incluem:

Manter horários consistentes de dormir e acordar, inclusive nos fins de semana. Esse é um dos pilares da CBT-I e tem efeito mensurável sobre o ritmo circadiano.

Manter o quarto fresco. Para mulheres com fogachos, isso é particularmente relevante. Temperatura ambiente entre 18 e 20 graus Celsius é ideal.

Limitar cafeína a partir do início da tarde. Conforme cobrimos no artigo geral de sono, café deve ser interrompido pelo menos 9 horas antes de dormir, e pré-treino com cafeína 13 horas antes.

Exposição matinal à luz natural, que ajuda a regular a melatonina e o ritmo circadiano.

Evitar refeições muito pesadas próximas ao horário de dormir, especialmente em quem já tem ondas de calor noturnas.

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## Exercício como intervenção: o RCT que muda o jogo

Aqui está o achado que mais empodera o personal trainer no manejo dessa população. O ensaio clínico randomizado de [Berin et al. (2021)](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34240669/), publicado no *Climacteric*, testou diretamente o efeito do treino de força sobre sintomas vasomotores e qualidade do sono em mulheres pós-menopausa.

O protocolo foi simples e replicável: 65 mulheres pós-menopáusicas com mais de 45 anos e sintomas vasomotores diários foram randomizadas para 15 semanas de treino de força três vezes por semana ou um grupo controle sem intervenção. A avaliação usou o Women's Health Questionnaire (WHQ) e o SF-36 antes e depois.

Os resultados:

| Domínio | Treino de força | Controle |
|---------|-----------------|----------|
| Sintomas vasomotores | Melhora significativa (p=0,002) | Sem mudança |
| Problemas de sono | Melhora significativa (p=0,003) | Sem mudança |
| Sintomas menstruais residuais | Melhora significativa (p=0,01) | Sem mudança |

O treino resistido melhorou simultaneamente os fogachos e o sono. Esse é um achado clinicamente potente porque mostra que a mesma intervenção que o personal trainer já oferece para benefícios musculoesqueléticos, metabólicos e cognitivos também ataca diretamente os dois sintomas que mais comprometem a qualidade de vida nessa fase.

Os mecanismos propostos para o efeito do treino sobre sintomas vasomotores incluem melhoria na termorregulação, redução na hiperatividade simpática, aumento de beta-endorfinas e efeitos sobre os mesmos sistemas neuroendócrinos envolvidos nos KNDy. Para o sono, somam-se a melhor regulação circadiana induzida pelo exercício regular, a redução do estresse percebido, e a melhoria na composição corporal que reduz fatores de risco para apneia obstrutiva.

A magnitude do efeito não é trivial. Em uma população onde aproximadamente 70% têm sintomas vasomotores e 60% têm insônia, oferecer um protocolo de treino de força três vezes por semana é uma intervenção de saúde com impacto clínico mensurável.

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## Implicações para a prescrição

Sintetizando essa literatura em conduta prática, algumas heurísticas emergem para o personal trainer que atende essa população.

Pergunte sobre sono e fogachos em toda avaliação inicial e em check-ins regulares. Use perguntas diretas: "Você acorda durante a noite por causa de calor ou suor?" e "Quantas vezes na semana você acorda sentindo que não descansou?" são mais úteis do que perguntas vagas como "você dorme bem?".

Reconheça os sinais de alerta para apneia obstrutiva: fadiga desproporcional ao treino, sonolência diurna, sensação de "não recuperar nunca", ronco reportado pelo cônjuge, e cefaleia matinal. Quando presentes, oriente a aluna a discutir com seu médico a possibilidade de polissonograma.

Ofereça treino de força com regularidade adequada. Os dados de Berin et al. (2021) usaram três sessões semanais por 15 semanas. Esse é o protocolo mínimo para esperar efeito sobre sintomas vasomotores e sono. Reduzir a frequência abaixo disso provavelmente compromete o benefício.

Ajuste o treino conforme o sono da noite anterior. Em dias após noites de fogachos intensos ou sono fragmentado, reduza intensidade alvo em pelo menos um ponto de RPE. Mantenha o volume técnico, mas reduza carga e priorize qualidade de execução. Não force progressão em dia de recuperação comprometida.

Eduque sobre os tratamentos disponíveis. Muitas alunas não sabem que existe terapia cognitivo-comportamental para insônia, ou que há novos medicamentos não-hormonais para fogachos. Não cabe ao personal trainer prescrever, mas cabe orientar onde buscar ajuda informada.

Trabalhe a expectativa realista. A insônia da menopausa raramente regride espontaneamente. Sem intervenção, ela tende a persistir por anos. Esse conhecimento muda a urgência com que a aluna procura tratamento.

Para uma visão mais ampla sobre a prescrição de treino para essa fase da vida, vale conhecer também o artigo [Treino de Força na Menopausa: o guia científico completo para mulheres que querem envelhecer com força e saúde](https://www.treinoai.com.br/academy/blog/treino-de-forca-na-menopausa-o-guia-cientifico-completo-para-mulheres-que-querem-envelhecer-com-forca-e-saude), que cobre os fundamentos da prescrição musculoesquelética nessa população.

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## Por que prescrever para essa fase exige formação específica

A complexidade do quadro vasomotor e do sono na menopausa não é parte do currículo da maioria dos cursos de Educação Física. Manejar adequadamente essa população exige conhecimento que vai além da prescrição genérica de força e cardio: envolve compreender o terreno hormonal, reconhecer sinais de alerta, ajustar a prescrição ao estado de recuperação real, e construir uma comunicação efetiva com o médico ginecologista quando necessário.

O [Método Lund](https://lp.lundacademy.com.br/ml) foi desenhado exatamente para preencher esse gap. É a formação mais completa para personal trainers que querem se diferenciar pelo conhecimento aplicado a populações específicas, com aprofundamento clínico em temas como menopausa, ciclo menstrual, periodização para mulheres de 30 a 60 anos e prescrição baseada em evidência. O profissional formado pelo Método Lund consegue oferecer à aluna em transição menopáusica não apenas treino, mas um cuidado integrado que reconhece a complexidade da fase.

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## Perguntas frequentes

**Por que tantas mulheres na menopausa têm insônia?**

A queda do estrogênio na menopausa afeta múltiplos sistemas que regulam o sono: termorregulação (gerando fogachos), arquitetura do sono (reduzindo estágios profundos), regulação do humor (aumentando ansiedade e depressão) e estrutura da via aérea superior (aumentando risco de apneia). A combinação desses fatores faz a prevalência de insônia subir de aproximadamente 30% no período reprodutivo para perto de 60% após a menopausa.

**O que são os fogachos exatamente?**

Os fogachos são episódios súbitos de sensação de calor intenso, geralmente acompanhados de sudorese, vermelhidão facial e aceleração do coração. Eles são causados pela hiperativação dos neurônios KNDy no hipotálamo, que ficam sem o "freio" que o estrogênio normalmente exercia. À noite, cada fogacho produz um despertar e suprime estágios profundos do sono, mesmo quando a mulher não se lembra de ter acordado.

**A insônia da menopausa passa sozinha?**

Geralmente não. O estudo longitudinal SWAN, que acompanhou mulheres por mais de 15 anos, mostrou que aproximadamente 20% delas desenvolvem aumento progressivo de problemas de manutenção do sono durante a transição menopáusica, e esse padrão tende a persistir após a menopausa. Sem intervenção, a insônia se estabelece como condição crônica.

**Treino de força ajuda com fogachos?**

Sim. Um ensaio clínico randomizado publicado em 2021 mostrou que treino de força três vezes por semana durante 15 semanas melhorou significativamente tanto os sintomas vasomotores quanto a qualidade do sono em mulheres pós-menopausa com fogachos diários. O exercício resistido atua sobre múltiplos mecanismos: termorregulação, hiperatividade simpática e regulação circadiana.

**Qual é o melhor tratamento para a insônia menopáusica?**

A terapia cognitivo-comportamental para insônia (CBT-I) é considerada o tratamento de primeira linha. Quando os fogachos são a causa principal dos despertares, a terapia hormonal pode ser eficaz se não houver contraindicações. Para mulheres com contraindicação à terapia hormonal, antagonistas NK3R como o fezolinetant representam uma nova opção não-hormonal aprovada recentemente.

**Insônia na menopausa pode aumentar risco cardiovascular?**

Sim, e o impacto é maior do que muitos profissionais imaginam. Um estudo publicado em 2024 na revista Circulation, parte do estudo SWAN, mostrou que mulheres com sintomas persistentes de insônia ao longo da meia-idade tiveram 71% mais risco de eventos cardiovasculares subsequentes. A combinação de insônia persistente com sono curto crônico elevou o risco em 75%.

**Mulheres pós-menopausa têm mais apneia do sono?**

Sim. A prevalência de apneia obstrutiva do sono dobra após a menopausa, igualando-se à dos homens. Um diferencial importante é que, em mulheres, a apneia frequentemente se apresenta com sintomas atípicos, como fadiga crônica, fragmentação do sono e sensação de não descansar, sem o ronco escandaloso classicamente associado ao quadro nos homens. Por isso muitas mulheres têm o diagnóstico atrasado.

**Quando devo encaminhar uma aluna para investigação médica?**

Sinais que justificam encaminhamento incluem insônia crônica (mais de três meses), fadiga desproporcional ao volume de treino, sonolência diurna que interfere nas atividades, ronco frequente, cefaleia matinal recorrente, e sintomas vasomotores severos que comprometem o sono e a qualidade de vida. O encaminhamento deve ser feito ao médico ginecologista ou clínico geral, com sugestão de investigação para distúrbios do sono quando apropriado.

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## Referências

1. Hachul H, Hachul de Campos B, Lucena L, Tufik S. Sleep During Menopause. *Sleep Med Clin*. 2023;18(4):423-433. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38501515/)

2. Baker FC, Lampio L, Saaresranta T, Polo-Kantola P. Sleep and Sleep Disorders in the Menopausal Transition. *Sleep Med Clin*. 2018;13(3):443-456. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30098758/)

3. Proserpio P, Marra S, Campana C, et al. Insomnia and menopause: a narrative review on mechanisms and treatments. *Climacteric*. 2020;23(6):539-549. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32880197/)

4. Stuenkel CA. Vasomotor and Related Menopause Symptoms. *Clin Obstet Gynecol*. 2018;61(3):433-446. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29863584/)

5. Meczekalski B, Kostrzak A, Unogu C, et al. A New Hope for Woman with Vasomotor Symptoms: Neurokinin B Antagonists. *J Clin Med*. 2025;14(5):1438. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40094924/)

6. Cucinella L, Tedeschi S, Memoli S, et al. Pharmacokinetic evaluation of fezolinetant for the treatment of vasomotor symptoms caused by menopause. *Expert Opin Drug Metab Toxicol*. 2024;21(2):105-113. [PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39391998/)

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*Rafa Lund / Mestre em Ciências do Desporto | Fundador Grupo LUND*
