Se você trabalha com prescrição de exercícios, provavelmente já se pegou em algum debate acalorado sobre alongamento. "Precisa alongar antes do treino?" "E depois?" "Previne lesão?" "Atrapalha a força?" São perguntas que dividem profissionais há décadas — e que finalmente ganharam respostas definitivas.
Em 2025, um grupo de 20 dos maiores especialistas mundiais em alongamento se reuniu para produzir um consenso científico usando o método Delphi. O resultado, publicado no Journal of Sport and Health Science, é um documento de 44 recomendações práticas baseadas em décadas de pesquisa acumulada. E o que ele revela pode mudar completamente a forma como você pensa sobre alongamento.
A primeira coisa que preciso deixar clara — porque muita gente confunde — é que flexibilidade e alongamento não são a mesma coisa. Alongamento é um exercício, uma técnica que você aplica. Flexibilidade é uma valência física, uma capacidade do corpo. Essa distinção é fundamental porque, como veremos, existem diversas formas de melhorar a flexibilidade que não envolvem alongamento tradicional.

O Mito da Prevenção de Lesões
Vamos começar pelo elefante na sala: alongamento previne lesões?
A resposta curta é não. E não sou eu quem está dizendo — é o consenso de 100% dos especialistas consultados no estudo Delphi.
A evidência mais robusta vem da meta-análise de Lauersen e colaboradores (2014), que analisou 26.610 participantes em estudos sobre prevenção de lesões. Os resultados são reveladores: enquanto o treino de força reduziu lesões em impressionantes 68% (risco relativo de 0,315), o alongamento produziu uma redução estatisticamente insignificante de apenas 3,7% (risco relativo de 0,963).

Para colocar em perspectiva prática: se você quisesse prevenir uma única lesão usando alongamento, precisaria alongar 337 pessoas durante um programa completo. Com treino de força, bastaria treinar 4 pessoas. A diferença de eficácia é de quase 85 vezes.
Mas a história fica ainda mais interessante quando olhamos para o tipo de lesão. Existe uma nuance importante que muitos ignoram: o alongamento pode ter um efeito paradoxal dependendo do tecido que estamos considerando. Algumas evidências sugerem que, embora possa reduzir marginalmente lesões musculares em modalidades com alta demanda de flexibilidade (como ginástica ou dança), o alongamento prolongado pode aumentar a complacência dos tecidos de forma que eleva o risco de lesões ósseas e articulares.
Pense assim: um músculo mais "frouxo" pode absorver menos energia antes de transferi-la para articulações e ossos. É um trade-off que raramente é discutido, mas que a ciência tem documentado.
Alongamento Antes do Treino: A Dose Faz o Veneno
Se você cresceu nos anos 80 ou 90, provavelmente aprendeu que alongar antes de qualquer atividade física era obrigatório. Era a primeira coisa que fazíamos na educação física escolar, no aquecimento do futebol, em qualquer prática esportiva.
A ciência moderna demoliu essa crença.

A meta-análise de Kay e Blazevich (2012) estabeleceu uma relação dose-resposta clara: alongamentos estáticos com duração superior a 60 segundos por grupo muscular resultam em reduções significativas de força (-4,6%) e potência (-5,9%). Estudos posteriores, como o de Behm e colaboradores (2016) com 125 estudos analisados, confirmaram que o alongamento estático reduz a performance em média 3,7%, enquanto o alongamento dinâmico pode até melhorá-la ligeiramente (+1,3%).
Os mecanismos por trás dessa redução de performance envolvem tanto fatores neurais quanto mecânicos. No nível neural, o alongamento prolongado reduz a excitabilidade do motoneurônio e a rigidez reflexa, diminuindo a capacidade de gerar força rapidamente. No nível mecânico, aumenta a complacência da unidade músculo-tendão, o que compromete a transmissão de força.
O consenso Delphi foi direto: 100% dos especialistas concordam que alongamento estático com duração inferior a 60 segundos por grupo muscular não prejudica o desempenho de força ou potência. Se for necessário alongar antes do treino — por alguma razão específica que veremos adiante — mantenha abaixo desse limiar e, idealmente, siga com atividades dinâmicas específicas da modalidade.
Mas aqui está a pergunta mais importante: você realmente precisa alongar antes do treino?
Flexibilidade Sem Alongamento: O Que a Ciência Descobriu
Uma das descobertas mais libertadoras da pesquisa recente é que você não precisa de alongamento para melhorar a flexibilidade. O próprio treino de força, quando executado em amplitude completa de movimento, produz ganhos de flexibilidade equivalentes ao alongamento tradicional.
A meta-análise de Afonso e colaboradores (2021), publicada na Healthcare, comparou diretamente treino de força versus alongamento para ganhos de amplitude de movimento. O resultado? Não houve diferença estatisticamente significativa entre as duas abordagens.
Mais recentemente, a meta-análise de Behm e Alizadeh (2023) na Sports Medicine reforçou esses achados com dados de 55 estudos: o tamanho de efeito para ganhos de amplitude foi praticamente idêntico entre treino de força (ES = 0,77) e alongamento (ES = 0,82), com diferença estatisticamente não significativa (ES = 0,08, p = 0,79).
Isso significa que se você está prescrevendo agachamentos profundos, supinos com amplitude completa e levantamentos terra bem executados, seus clientes já estão trabalhando flexibilidade — sem precisar de uma sessão separada de alongamento.
O treino excêntrico merece destaque especial nesse contexto. Contrações excêntricas em amplitudes alongadas promovem a adição de sarcômeros em série nas fibras musculares, um mecanismo de adaptação estrutural que o alongamento passivo não consegue replicar com a mesma eficiência. Na prática, isso se traduz em ganhos de flexibilidade mais duradouros e funcionalmente integrados ao movimento.
O Mito da Recuperação Pós-Exercício
"Alonga depois do treino para não ficar dolorido." Quantas vezes você já ouviu ou disse isso?
A revisão Cochrane de Herbert e colaboradores (2011), considerada padrão-ouro em síntese de evidências, analisou 2.377 participantes e concluiu que o alongamento, seja antes ou depois do exercício, não previne a dor muscular de início tardio (DOMS). A redução observada foi de meros 0,52 a 1,04 pontos em uma escala de 100 — clinicamente irrelevante.
O consenso Delphi de 2025 foi categórico: 100% dos especialistas concordaram que o alongamento não acelera a recuperação muscular. A dor muscular tardia é resultado de microlesões e processos inflamatórios que o alongamento simplesmente não é capaz de reverter.
Se seu cliente quer reduzir DOMS, existem estratégias com melhor respaldo científico: sono adequado, nutrição apropriada, progressão gradual de volume e intensidade, e técnicas como imersão em água fria ou compressão pneumática — embora mesmo essas tenham efeitos modestos.
Alongamento Para Hipertrofia: Possível, Mas Ineficiente
Uma área que ganhou atenção nos últimos anos é o potencial do alongamento para induzir hipertrofia muscular. Alguns estudos mostraram que alongamentos intensos e prolongados podem, de fato, estimular crescimento muscular.
A meta-análise de Warneke e colaboradores (2024) na Sports Medicine Open compilou 42 estudos sobre o tema. Os resultados confirmam que o alongamento crônico pode induzir hipertrofia, com um tamanho de efeito de 0,20. O problema está no protocolo necessário: os estudos que mostraram resultados positivos utilizaram durações superiores a uma hora por dia de alongamento.
Compare isso com o treino de força tradicional: 20-30 minutos, três vezes por semana, produzem hipertrofia substancialmente maior. A relação custo-benefício do alongamento para hipertrofia é simplesmente inviável na prática — você precisaria alongar 3-4 horas por semana para obter ganhos que conseguiria com uma fração desse tempo treinando força.
O Único Benefício Exclusivo: Saúde Vascular
Se existe uma área onde o alongamento oferece benefícios que o treino de força não replica, é na saúde cardiovascular — especificamente na rigidez arterial.
A meta-análise de Kato e colaboradores (2020) mostrou que programas de alongamento reduzem significativamente a rigidez arterial em adultos de meia-idade e idosos (SMD = -1,00). Estudos como o de Bisconti e colaboradores (2020) demonstraram melhorias na função endotelial, fluxo sanguíneo e pressão arterial com protocolos de alongamento de 12 semanas.
O consenso Delphi reconheceu esse benefício: 80% dos especialistas concordaram que o alongamento pode melhorar a função vascular sistêmica. Esse é um achado relevante especialmente para populações que não conseguem realizar treino de força intenso ou aeróbico vigoroso — idosos frágeis, pessoas em recuperação de cirurgias, ou indivíduos com limitações severas de mobilidade.
Por Que os Mitos Persistem?
Se a ciência é tão clara, por que tantos profissionais ainda prescrevem alongamento como se fosse obrigatório?
Parte da resposta está no que os pesquisadores chamam de "defasagem conhecimento-prática". Existe um intervalo de 10 a 20 anos entre a publicação de evidências científicas e sua incorporação na prática clínica. Muitos profissionais foram formados antes dessas descobertas e não atualizaram suas práticas.
Outra parte está na experiência subjetiva. O alongamento gera sensações imediatas — relaxamento, "alívio" de tensão, sensação de "cuidar do corpo". Essas sensações são reais, mas são majoritariamente de natureza neural e subjetiva, não indicadores de benefícios estruturais ou preventivos.
E há também o fator ritual. Para muitas pessoas, alongar faz parte do "modo treino". É um momento de transição entre a vida cotidiana e o exercício. Esse valor psicológico não deve ser descartado — mas também não deve ser confundido com necessidade fisiológica.
O consenso Delphi de 2025 representa uma tentativa deliberada de encurtar essa defasagem, oferecendo recomendações práticas validadas pelos maiores especialistas da área.
A Minha Conduta: Foco no Movimento
Depois de tudo isso, você pode estar se perguntando: "Ok, Rafa, mas você usa alongamento ou não?"
A resposta é: depende. E é exatamente essa individualização que faz a diferença entre uma prescrição genérica e uma prescrição inteligente.
Minha abordagem no Método Lund parte de um princípio simples: o objetivo do treino deveria ser garantir um bom arco de movimento para que os exercícios aconteçam com boa técnica e amplitude adequada a ponto de maximizar os resultados. Não é alongar por alongar — é garantir que o movimento funcione.
Realizar com boa técnica exercícios básicos como Agachamento, Supino e Levantamento Terra já exige mobilidade de diversas regiões. Se o aluno consegue executar esses movimentos com amplitude completa e técnica adequada, qual a necessidade de adicionar alongamento? Está perdendo tempo.
A preparação para o treino deve ser personalizada, considerando a pessoa e o treino do dia. Não faz sentido, por exemplo, alongar intensamente as pernas se o foco da sessão for treinar braços. Da mesma forma, pessoas com alta flexibilidade podem não precisar de alongamento adicional — e fazê-lo pode até ser contraproducente. Tudo em excesso pode trazer mais prejuízos do que benefícios.
Na prática, funciona assim: se o treino incluir Agachamento para uma pessoa com restrição de arco de movimento no tornozelo, pode ser importante mobilizar essa região antes. Realizamos exercícios específicos para melhorar a mobilidade local e, como consequência, o agachamento sai com melhor qualidade e maior amplitude sem comprometer a técnica.
Caso o aluno não tenha restrição de arco de movimento, esse tipo de estratégia vai apenas fazê-lo "perder tempo". Coloco entre aspas porque considero que tempo é um ativo extremamente importante que deve ser considerado na hora da prescrição. A maioria dos meus clientes tem agenda lotada — cada minuto na academia precisa contar.
No entanto, se o aluno se sente bem e mais confiante ao fazer algum tipo de preparação, certamente pode e deve continuar. A dimensão psicológica importa. Se alongar faz parte do ritual que coloca a pessoa no "modo treino", isso tem valor.
Os tipos de alongamento também importam. Alongamentos estáticos prolongados não entram na minha preparação para treinos de força ou potência. Se precisar de alguma mobilização, prefiro alongamentos dinâmicos ou técnicas de mobilização articular que não comprometem a capacidade de gerar força.
Para ganhos de flexibilidade a longo prazo, minha primeira escolha é sempre o treino de força em amplitude completa. Agachamento profundo, stiff até o limite confortável, supino com barra tocando o peito. Esses exercícios desenvolvem flexibilidade funcional enquanto constroem força — dois objetivos com um único investimento de tempo.
Como o Treino AI Aplica Essa Lógica
No momento em que escrevo esse texto, a metodologia que descrevi acima ainda não está completamente incorporada na inteligência artificial do Treino AI. Mas é algo que estamos desenvolvendo ativamente.
O objetivo é que, quando o cliente ou o treinador reportarem uma limitação ou disfunção em determinado movimento, a IA possa sugerir exercícios preparatórios específicos ou variações que respeitem a amplitude atual enquanto trabalham para expandi-la progressivamente. Não haverá prescrição genérica de "10 minutos de alongamento" — haverá identificação de necessidades específicas e intervenções direcionadas.
Conclusão: Perguntas Certas, Respostas Individuais
Entender e aplicar uma preparação efetiva para o treino é fundamental para alcançar os melhores resultados possíveis. O erro está em transformar o alongamento em ritual obrigatório ou, no extremo oposto, abandoná-lo completamente sem considerar contextos específicos.
A pergunta não deveria ser "devo alongar?" — deveria ser "este cliente específico, neste momento, tem alguma restrição de movimento que impede a execução adequada do treino planejado?" Se sim, intervimos. Se não, seguimos para o que realmente vai gerar resultado.
O consenso Delphi de 2025 não disse que alongamento é inútil. Disse que não é obrigatório para a maioria dos objetivos que tradicionalmente justificavam seu uso. Essa distinção é crucial: "pode fazer" é diferente de "precisa fazer".
No Método Lund e no Treino AI, nos dedicamos a oferecer uma abordagem personalizada que respeita as necessidades individuais de cada aluno, garantindo não apenas melhorias no desempenho, mas também otimização do tempo — um recurso cada vez mais escasso na vida de quem treina.
A ciência evoluiu. Está na hora da nossa prática evoluir junto.
Referências
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Behm DG, Blazevich AJ, Kay AD, McHugh M. Acute effects of muscle stretching on physical performance, range of motion, and injury incidence in healthy active individuals: a systematic review. Appl Physiol Nutr Metab. 2016;41(1):1-11. https://doi.org/10.1139/apnm-2015-0235
Behm DG, Alizadeh S. Resistance Training Induces Improvements in Range of Motion: A Systematic Review and Meta-Analysis. Sports Med. 2023;53(3):707-722. https://doi.org/10.1007/s40279-022-01804-x
Bisconti AV, Cè E, Longo S, et al. Evidence for improved systemic and local vascular function after long-term passive static stretching training of the musculoskeletal system. J Physiol. 2020;598(17):3645-3666. https://doi.org/10.1113/JP279866
Herbert RD, de Noronha M, Kamper SJ. Stretching to prevent or reduce muscle soreness after exercise. Cochrane Database Syst Rev. 2011;(7):CD004577. https://doi.org/10.1002/14651858.CD004577.pub3
Kato M, Green FN, Hotta K, et al. The Efficacy of Stretching Exercises on Arterial Stiffness in Middle-Aged and Older Adults: A Meta-Analysis of Randomized and Non-Randomized Controlled Trials. Int J Environ Res Public Health. 2020;17(16):5643. https://doi.org/10.3390/ijerph17165643
Kay AD, Blazevich AJ. Effect of acute static stretch on maximal muscle performance: a systematic review. Med Sci Sports Exerc. 2012;44(1):154-164. https://doi.org/10.1249/MSS.0b013e318225cb27
Lauersen JB, Bertelsen DM, Andersen LB. The effectiveness of exercise interventions to prevent sports injuries: a systematic review and meta-analysis of randomised controlled trials. Br J Sports Med. 2014;48(11):871-877. https://doi.org/10.1136/bjsports-2013-092538
Warneke K, et al. Effects of Chronic Static Stretching on Maximal Strength and Muscle Hypertrophy: A Systematic Review and Meta-Analysis with Meta-Regression. Sports Med Open. 2024;10(1):37. https://doi.org/10.1186/s40798-024-00706-8
Warneke K, et al. Practical recommendations on stretching exercise: A Delphi consensus statement of international research experts. J Sport Health Sci. 2025. https://doi.org/10.1016/j.jshs.2025.101067
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