Resumo para profissionais
- A confiabilidade da avaliação postural estática observacional é baixa, com kappa em torno de 0,16 entre avaliadores experientes.
- Hiperlordose, hipercifose, joelho valgo estático e pé pronado não se confirmaram como fatores causais de dor ou lesão em meta-análises.
- A postura estática não prediz padrão de movimento dinâmico em coortes prospectivas com até 880 atletas de elite.
- O modelo postural-estrutural-biomecânico foi formalmente questionado em 2011 por Lederman, com debate público das maiores autoridades da área (incluindo McGill), e a posição que sobreviveu é a do declínio do modelo.
- Substituir o protocolo postural estático por avaliação dinâmica e observação contínua durante as aulas é a conduta mais alinhada à literatura atual.
Última atualização: Abril de 2026
Por que esse debate importa agora
Você provavelmente aprendeu, ainda na graduação, que avaliar a postura do aluno em pé contra uma parede com linhas, marcar pontos anatômicos e identificar desvios era parte central de uma boa prescrição de treino. Esse modelo dominou a Educação Física e a Fisioterapia por décadas. A literatura científica das últimas duas décadas, no entanto, mostrou que esse modelo tem problemas sérios. A confiabilidade é baixa, os desvios clássicos não se correlacionam com dor de forma robusta, e a postura estática não prediz como o aluno se move sob carga.
No entanto, tenho visto recentemente muita gente vendendo avaliação postural como se fosse o pilar central da prescrição. Cursos, mentorias, ebooks e protocolos baseados nessa lógica voltaram com força nas redes. E vale perguntar honestamente: quem está vendendo isso atende aluno real no dia a dia? Porque o que parece bonito num slide raramente sobrevive a duzentos atendimentos por mês com gente real, com queixas reais, com objetivos reais. Boa parte do que vejo sendo vendido é protocolo bem embalado por quem não tem cliente há anos, e isso importa, porque a prática clínica continuada é o que separa quem aplica conhecimento de quem reproduz conteúdo.
Este artigo organiza a evidência atual sobre o tema e mostra o que faz mais sentido fazer no lugar. O objetivo não é desmoralizar quem ainda faz avaliação postural, é apresentar o que mudou no entendimento científico para que o personal trainer possa decidir, de forma informada, como conduzir sua avaliação.
O estudo que mudou o jogo: Lederman e a queda do modelo postural-biomecânico
Em 2011, o osteopata e pesquisador inglês Eyal Lederman publicou no Journal of Bodywork and Movement Therapies um artigo que mudou o tom da discussão sobre avaliação postural. O título já provocava: "The fall of the postural-structural-biomechanical model in manual and physical therapies: exemplified by lower back pain". Nesse paper, Lederman compilou três décadas de evidência mostrando que discrepância de membros, assimetrias pélvicas, hiper e hipolordose, escoliose leve, hipermobilidade, fraqueza de core, padrões de ativação do transverso, posturas sentado e em pé, ergonomia de levantamento, joelho valgo e pronação não se sustentam como causas de dor musculoesquelética crônica.
O artigo foi tão provocador que o periódico abriu um espaço editorial para respostas. Cinco autoridades mundiais em terapia manual, osteopatia, quiropraxia e fisioterapia foram convidadas a responder formalmente. Entre elas, Stuart McGill (2011), uma das maiores referências mundiais em biomecânica da coluna, defendeu que a biomecânica continua relevante quando se identifica subgrupos com mecanismos lesionais claros. Importante notar: nem o McGill, defensor histórico da biomecânica, defendeu a avaliação postural estática como ferramenta diagnóstica geral. Sua defesa foi de mecanismos lesionais específicos, não de protocolos de inspeção postural.
Diane Lee, Tom Myers e Gary Fryer também responderam, defendendo nuances do modelo tradicional. Depois desse vai e vem, o próprio Lederman publicou no número seguinte uma tréplica formal, refinando os argumentos e reafirmando a posição original frente às críticas.
Esse debate é importante por uma razão que vai além do conteúdo técnico: ele mostra que a queda do modelo postural-estrutural-biomecânico não é opinião isolada de um pesquisador rebelde contra o establishment. Os maiores nomes da área se posicionaram publicamente, no mesmo periódico, no mesmo ano. E a posição que sobreviveu ao escrutínio é a de que o modelo, como ferramenta diagnóstica geral, NÃO dá conta de explicar dor musculoesquelética crônica. Quinze anos se passaram, a literatura continuou na mesma direção, e ignorar essa virada hoje deixou de ser tecnicamente defensável.
A confiabilidade do método é pobre
Antes de discutir se a avaliação postural estática prediz alguma coisa clinicamente relevante, vale entender o problema metodológico de base: dois avaliadores experientes olhando o mesmo aluno concordam pouco. O estudo clássico de Fedorak et al. (2003) avaliou a concordância entre quiropratas, fisioterapeutas e ortopedistas para classificar visualmente a lordose lombar. A concordância inter-avaliador foi de kappa 0,16, o que na escala de Landis e Koch corresponde a "pobre". Em outras palavras, dois profissionais qualificados olhando a mesma postura chegam a conclusões diferentes na maioria dos casos.
A revisão crítica sistemática de Stochkendahl et al. (2006) sobre exame manual da coluna concluiu que a inspeção postural isolada não deve guiar decisão clínica pela reprodutibilidade pobre a moderada.
Mesmo a fotogrametria computadorizada, que é mais precisa que o olho humano, tem limitações importantes. O SAPO (Software de Avaliação Postural), desenvolvido no Brasil e validado por Ferreira et al. (2010), mostrou confiabilidade excelente em apenas 41% das variáveis e inaceitável em 14%. Estudos posteriores demonstraram que o mínimo de mudança detectável varia de aproximadamente 3 a 18 graus dependendo do ângulo. Na prática, muito do que avaliadores chamam de "mudança postural" é ruído de medida, NÃO alteração real.
Aplicativos de smartphone para análise postural, segundo Szabo et al. (2019), apresentam viés sistemático. Os próprios autores recomendam textualmente que esses apps NÃO sejam usados para mensuração postural acurada nem para acompanhamento seriado.
[INSERIR FIGURA: Tabela de validação do PostureScreen Mobile de Szabo et al. (2019), mostrando os ICCs entre o aplicativo e o sistema Vicon de captura 3D — apenas a medida de "head shift" foi considerada comparável.]
Os desvios clássicos não predizem dor
Aqui mora a parte mais contraintuitiva para quem aprendeu o modelo tradicional. Os desvios posturais que durante décadas foram tratados como vilões de dor musculoesquelética não se sustentam nesse papel quando a evidência é examinada de forma rigorosa.
Hiperlordose lombar e dor lombar
A hiperlordose lombar foi por décadas vendida como causa de lombalgia. A meta-análise de Laird et al. (2014), agregando oito estudos, NÃO encontrou diferença no ângulo de lordose entre quem tem e quem não tem dor lombar. A revisão sistemática com meta-análise de Chun et al. (2017), agregando treze estudos radiográficos com 796 indivíduos com dor lombar e 927 controles, mostrou exatamente o oposto do mito: pessoas com dor lombar tendem a ter MENOS lordose, NÃO mais, com tamanho de efeito moderado (SMD −0,33).
A revisão sistemática prospectiva de Sadler et al. (2017), com mais de 5.400 participantes seguidos no tempo, identificou lordose limitada como preditora de futura dor lombar. NÃO a hiperlordose. Esse achado inverte completamente o pressuposto tradicional do "anterior pelvic tilt" como causa primária de dor lombar.
Hipercifose torácica e dor de ombro
A revisão sistemática de Barrett et al. (2016) encontrou evidência moderada de NÃO haver diferença significativa em cifose torácica entre pessoas com e sem dor de ombro. O paper de revisão é direto: postura torácica isolada não diferencia robustamente os grupos com e sem dor de ombro.
Anteriorização de cabeça e cervicalgia
Essa é uma das poucas associações que se sustenta na literatura, mas com nuances importantes. A meta-análise de Mahmoud et al. (2019), sobre 15 estudos transversais com 2.339 participantes, encontrou que adultos com dor cervical apresentam anteriorização de cabeça maior que adultos sem dor (diferença média de 4,84°). A correlação entre o ângulo craniovertebral e intensidade de dor foi de r = −0,55. Em adolescentes, contudo, a associação desaparece. E todos os estudos são transversais, ou seja, NÃO estabelecem causalidade.
Joelho valgo e pé pronado
O joelho valgo estático observado em pé não prediz isoladamente lesão de ligamento cruzado anterior nem dor patelofemoral. E o pé pronado, vilão clássico de tudo na corrida, foi reabilitado pela ciência. O estudo prospectivo de Nielsen et al. (2014), com 927 corredores novatos seguidos por um ano, mostrou que pés pronados NÃO tiveram maior risco de lesão. Os pronados tiveram, na verdade, MENOR taxa de lesões por mil quilômetros (IRR −0,37). A única associação que se sustenta é com a síndrome do estresse tibial medial, e mesmo assim com tamanho de efeito pequeno.
Sentar "errado" não causa dor nas costas
Esse subtítulo provavelmente provoca em você a mesma reação que provoca em quase todo cliente: como assim, sentar errado não causa dor nas costas? Todo aluno reclama disso, todo personal escuta isso semanalmente. E mesmo assim, a evidência NÃO sustenta essa relação direta.
O viewpoint de Slater et al. (2019), publicado no Journal of Orthopaedic and Sports Physical Therapy com o título "Sit Up Straight: Time to Re-evaluate", é direto na frase de abertura: apesar da ausência de evidência forte de que sentar, ficar em pé ou flexionar de forma "incorreta" cause dor espinhal, uma indústria postural enorme floresceu. Os autores compilam estudos demonstrando que a postura adotada ao sentar não prediz desenvolvimento de dor cervical ou lombar futura, que correções posturais sentadas não previnem dor, e que crenças exageradas sobre postura ideal podem aumentar medo de movimento.
A implicação prática é importante para o personal trainer: quando o aluno chega dizendo "minhas costas doem porque eu sento errado", a resposta tecnicamente correta é que carga, sono, condicionamento físico geral e fatores psicossociais explicam muito mais variância do que a inclinação do tronco na cadeira.
A postura estática não prediz o movimento
Esse é talvez o ponto mais importante para quem trabalha com treino de força. O estudo de Sayers et al. (2023), com captura de movimento tridimensional em 41 atletas femininas durante drop landings, encontrou correlações fracas a moderadas entre alinhamento estático e cinemática dinâmica. Os autores afirmaram textualmente que avaliações estáticas têm valor mínimo como ferramenta de screening de lesão de LCA.
Em outras palavras: o que você vê parado no aluno NÃO te diz como ele se move sob carga. E é justamente sob carga que a maior parte dos desfechos clínicos relevantes (dor, lesão, performance) acontece.
A revisão definitiva sobre screening preditivo é o artigo de Bahr (2016) no British Journal of Sports Medicine. Bahr formaliza por que esses testes não funcionam e, segundo ele, provavelmente nunca vão funcionar como ferramentas de filtragem populacional. O critério proposto exige três passos cumpridos simultaneamente: associação prospectiva forte, propriedades adequadas do teste, e ensaio clínico randomizado mostrando que intervenção dirigida ao subgrupo "alto risco" supera intervenção universal. Nenhum screening postural ou de qualidade de movimento cumpre os três passos.
Alongar tenso e fortalecer fraco não corrige postura
A clássica fórmula de identificar desvios posturais e prescrever exercícios para corrigi-los também não tem o suporte que se imagina. A meta-análise recente de Warneke, Lohmann e Wilke (2024), com 23 estudos e 969 participantes, mostrou que alongamento, agudo ou crônico, simplesmente NÃO altera a postura. O fortalecimento crônico produz efeito significativo na região cérvico-torácica, mas não na região lombo-pélvica.
A implicação é desconfortável: mesmo que você acreditasse na premissa de que existe uma postura ideal a ser perseguida, as ferramentas tradicionais de "alongar o que está tenso e fortalecer o que está fraco" não fazem o trabalho que se atribui a elas.
Síntese da evidência: tabela comparativa
A tabela abaixo consolida o que vimos até aqui sobre cada categoria de "desvio" tradicional e a força da evidência que sustenta (ou não) sua associação com dor, lesão ou disfunção.
| Categoria | Achado da literatura | Força da evidência |
|---|---|---|
| Confiabilidade da avaliação visual | Kappa em torno de 0,16 entre avaliadores experientes | Forte |
| Hiperlordose lombar e dor lombar | NÃO confirmada (HIPOlordose mais associada) | Moderada |
| Hipercifose torácica e dor de ombro | Sem associação significativa | Moderada |
| Anteriorização de cabeça e cervicalgia (adultos) | Associação modesta, efeito pequeno | Moderada |
| Anteriorização de cabeça e cervicalgia (adolescentes) | Sem associação | Moderada |
| Joelho valgo estático e LCA / dor patelofemoral | Não preditor isolado | Fraca |
| Pé pronado e lesão geral em corrida | Sem associação (pronados com menor taxa de lesão) | Forte |
| Pé pronado e síndrome do estresse tibial medial | Fator de risco real, efeito pequeno | Forte |
| Sentar "errado" e dor lombar/cervical | Sem associação direta | Moderada |
| Postura estática como preditor de movimento dinâmico | Correlações fracas, valor preditivo mínimo | Forte |
| Alongamento para correção postural | Não altera a postura | Forte |
| Fortalecimento para correção postural lombo-pélvica | Efeito não significativo | Moderada |
O que fazer no lugar: avaliação dinâmica e observação contínua
Toda essa evidência poderia levar à conclusão equivocada de que avaliar o aluno deixou de importar. Não é isso. O que muda é como, quando e o que observar. A avaliação continua sendo central, mas o protocolo postural estático formal deixa de ser o instrumento principal e dá lugar a duas abordagens complementares.
Avaliação dinâmica funcional
O foco se desloca da fotografia parada para o movimento. Como o aluno agacha, como ele faz uma flexão, como ele faz um remo, como ele transfere carga em padrões básicos como empurrar e puxar. É no movimento que padrões disfuncionais aparecem com clareza e que a informação útil para prescrição se materializa. Um aluno pode ter postura "alinhada" na foto e mostrar várias compensações no agachamento. Pode ter um desvio postural visível e movimentar-se sem nenhuma restrição funcional relevante. Esse é o ponto-chave: o que o aluno te mostra parado é muito menos relevante do que o que ele te mostra em movimento.
A avaliação dinâmica não exige protocolos rígidos como FMS ou similares (que, aliás, têm problemas próprios de validade preditiva). Pode ser feita simplesmente através da execução supervisionada dos próprios exercícios do treino, com olhar treinado para identificar onde o aluno compensa, onde ele perde estabilidade, onde ele tem amplitude reduzida e onde ele tem dificuldade de coordenação.
Observação contínua durante as aulas
A observação não precisa de momento específico, ela acontece o tempo inteiro durante a sessão de treino. Como o aluno chega no estúdio em dias diferentes, como ele se posiciona enquanto conversa, como ele aquece, como ele entra no agachamento na semana em que não dormiu bem comparado à semana em que dormiu, e o que mudou na execução de um exercício que ele faz há meses. Esse é o dado clinicamente relevante, e ele só aparece com o tempo de relação.
Isso tem nome na literatura, ainda que não seja chamado de avaliação postural. Está mais próximo do conceito de monitoramento de carga e capacidade que o próprio Bahr (2016) defende como abordagem mais útil que screening pontual. O que importa não é o estado, é o delta. Não é a foto, é como a foto muda ao longo do tempo.
Quando a avaliação postural estática ainda faz sentido
Para fechar com honestidade intelectual, é importante reconhecer que a avaliação postural estática mantém papel clínico claro em alguns cenários específicos. Não é o caso da maioria absoluta dos clientes que chegam num estúdio de personal trainer. Mas existem situações em que ela é tecnicamente justificada, e o profissional informado precisa saber identificá-las.
A triagem de escoliose idiopática do adolescente, com o teste de Adams associado ao escoliômetro de Bunnell, é um cenário com evidência sólida e endosso das diretrizes SOSORT 2016 (Negrini et al., 2018). O planejamento de cirurgia de coluna usa parâmetros sagitais como a classificação de Roussouly (2005) como instrumento mandatório em deformidade espinal adulta. A hipercifose em idosos, mensurada pelo occiput-to-table block test, foi mostrada por Kado et al. (2006) como preditora de fratura osteoporótica futura. Espondilite anquilosante, doenças neuromusculares progressivas e ergonomia ocupacional (RULA, REBA, NIOSH) também têm aplicações específicas e validadas.
E os bons profissionais que ainda usam dentro de premissas claras?
Dito tudo isso, vejo que ainda existem bons profissionais usando avaliação postural na prática. Não como ferramenta diagnóstica central, mas como recurso auxiliar dentro de premissas bem entendidas. E nesse caso, faz sentido. Inclusive eu mesmo recomendo dois usos específicos para quem trabalha com consultoria, especialmente online.
O primeiro é como janela de observação adicional na consultoria à distância. Quando você atende um cliente online, sua principal ferramenta de informação é o questionário de anamnese e os vídeos de movimento (quando ele envia, porque na nossa prática a maior parte dos alunos acaba não enviando mesmo que a gente insista). Pedir fotos posturais nesse contexto, com a "premissa" de avaliar postura, te dá uma camada extra de informação sobre o cliente. Você consegue ver biotipo, proporções, marcadores visuais de composição corporal, eventuais alterações de pele, sinais que indicam histórico de lesão, e simplesmente conhecer melhor quem está do outro lado da tela. Não é diagnóstico postural. É observação ampliada que se beneficia do enquadramento "vou avaliar sua postura" porque o cliente envia fotos padronizadas que você não pediria de outro jeito.
O segundo é como ferramenta de acompanhamento longitudinal e percepção de progresso. Aqui a avaliação postural funciona como pretexto para criar um registro visual antes e depois do trabalho. O cliente vê a foto do início do processo e a foto de três meses depois, percebe a mudança de composição corporal, o ajuste de eixo natural que vem do ganho de massa magra e da redução de gordura, e isso gera engajamento real. A "desculpa" da avaliação postural produz um material que o cliente associa a progresso visual concreto, o que aumenta aderência ao treino.
Em ambos os casos, o profissional informado usa a ferramenta sabendo o que ela é e o que ela não é. Não promete diagnóstico de causa de dor, não promete corrigir desvio com exercício, não vende plano postural. Usa o recurso pelo que ele é útil de fato: ampliar observação na consultoria à distância e criar registro visual de progresso. Isso é diferente, e é defensável.
Para mim, o pilar central da avaliação se dá em outro lugar, no movimento e na relação contínua com o aluno ao longo do tempo. Mas reconheço que existem aplicações onde a foto postural agrega valor real, desde que dentro dessas premissas claras.
Perguntas frequentes
A avaliação postural estática não serve para nada?
Serve em cenários clínicos específicos como triagem de escoliose idiopática do adolescente, planejamento de cirurgia de coluna, hipercifose em idosos como preditor de fratura, espondilite anquilosante e ergonomia ocupacional. Para a maioria dos clientes de personal trainer, contudo, ela perdeu o papel de ferramenta diagnóstica útil que tinha no passado. Ainda assim, pode ser usada como recurso auxiliar em consultoria online (ampliar observação) e como ferramenta de acompanhamento longitudinal (registro visual antes e depois).
Se eu não fizer avaliação postural, o que faço para avaliar meu aluno?
Avaliação dinâmica funcional, ou seja, observação dos padrões básicos de movimento (agachamento, deadlift, push, pull, transferência de peso) sob carga, somada à observação contínua ao longo das sessões de treino. Isso entrega muito mais informação clinicamente relevante do que o protocolo postural estático.
Por que tantos profissionais ainda fazem avaliação postural estática se a evidência mostra que não funciona?
Por inércia da formação acadêmica e porque o protocolo dá ao profissional uma sensação de cientificidade. Identificar desvios e prescrever correções é estruturalmente sedutor, mesmo quando os desvios não predizem nada e as correções não mudam desfechos clínicos.
Hiperlordose lombar não causa dor nas costas?
Não. Meta-análises agregando milhares de participantes mostram que pessoas com dor lombar tendem a ter MENOS lordose, não mais. E lordose limitada (não a hiperlordose) é o que aparece como preditora de futura dor lombar em estudos prospectivos.
Pé pronado aumenta o risco de lesão em corredores?
Não para a maioria das lesões. Estudo prospectivo com 927 corredores novatos mostrou que pés pronados não tiveram maior risco de lesão, e tiveram MENOR taxa de lesões por mil quilômetros. A única associação consistente é com síndrome do estresse tibial medial, e mesmo assim com efeito pequeno.
Sentar "errado" causa dor nas costas?
A literatura não sustenta essa relação direta. Carga total de exposição, sono, condicionamento físico geral e fatores psicossociais explicam muito mais variância de dor lombar do que a postura adotada ao sentar.
O que é o modelo postural-estrutural-biomecânico (PSB)?
É o modelo tradicional que assume que desvios posturais, assimetrias e alterações estruturais são as principais causas de dor musculoesquelética. Esse modelo foi formalmente questionado por Lederman em 2011 e não sobreviveu ao escrutínio das maiores autoridades da área no debate público que se seguiu.
Como eu explico para o cliente que não vou fazer avaliação postural?
Você não precisa enquadrar dessa forma. A explicação correta é que sua avaliação foca no movimento dele sob carga, que é o que melhor prediz desfechos relevantes, e na observação contínua ao longo do treino, que capta mudanças e padrões que uma fotografia estática não capta.
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Referências
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Rafa Lund / Mestre em Ciências do Desporto | Fundador Grupo LUND
