Aqui no Brasil, a moda do frio é a banheira de gelo. Você vê influenciadores, atletas e entusiastas do biohacking mergulhando em água gelada, exibindo a cara de sofrimento e prometendo benefícios que vão de recuperação muscular a aumento de foco e disposição. É acessível, dá pra fazer em casa, e o desconforto visível virou quase um símbolo de disciplina nas redes sociais.
Na última vez que estive nos Estados Unidos, percebi que por lá a tendência estava tomando outro rumo. Em vez da banheira, o que eu via em clínicas de recuperação e centros de wellness eram câmaras de crioterapia de corpo inteiro — aquelas cabines onde você entra de shorts e luvas, fica exposto a um ambiente de -110°C a -130°C por apenas 2 a 3 minutos, e sai seco, sem precisar de toalha, sem aquele frio molhado que parece grudar nos ossos.
Fiz uma sessão por curiosidade. E para minha surpresa, a sensação não foi tão brutal quanto eu imaginava. O ar seco faz diferença. É frio, claro — intensamente frio — mas não tem aquele choque da água gelada que parece apertar seu peito. Três minutos depois, eu estava fora, seco, e com uma sensação estranha de alerta e bem-estar.
Mas você me conhece. Não sou o tipo que aceita sensação como evidência.
Voltei para casa e fui atrás dos estudos. Queria entender se isso era apenas mais um negócio comercial bem embalado — a versão premium da banheira de gelo, vendida a preço de ouro — ou se havia algo que a ciência realmente comprovasse.
O que encontrei me surpreendeu. Não da forma que o marketing gostaria, mas de uma forma que acho muito mais interessante.
Banheira de gelo e câmara de crioterapia: são a mesma coisa?
Antes de entrar nas evidências, vale entender que estamos falando de duas intervenções diferentes — embora ambas usem o frio como estímulo, os mecanismos e as respostas fisiológicas não são idênticos.

A imersão em água fria — chamada de Cold Water Immersion (CWI) na literatura científica — usa água geralmente entre 10°C e 15°C. As sessões duram de 10 a 15 minutos, o corpo fica submerso (parcial ou totalmente), e o resfriamento é profundo. A água conduz calor cerca de 25 vezes melhor que o ar, então o frio penetra nos tecidos de forma muito mais eficiente. Você sai encharcado, tremendo, e a temperatura interna do corpo chega a cair de forma mensurável.
A crioterapia de corpo inteiro — Whole Body Cryotherapy (WBC) — funciona de outro jeito. Você entra numa câmara com ar seco a temperaturas entre -110°C e -140°C, fica de 2 a 3 minutos, e sai seco. O resfriamento é intenso na superfície da pele, mas superficial — a temperatura do core corporal praticamente não muda. Mawhinney et al. (2017) demonstraram que a imersão em água fria produz maior resfriamento tecidual, maior redução no fluxo arterial femoral e maior vasoconstrição cutânea quando comparada à crioterapia de corpo inteiro.
Essa diferença é importante para entender por que cada modalidade pode ter aplicações distintas. E é a crioterapia de corpo inteiro que me chamou atenção — tanto pelo hype crescente ao redor dela quanto pelo que encontrei quando fui investigar se esse hype tinha fundamento.
As promessas que não se sustentam
Quando você pesquisa sobre crioterapia de corpo inteiro, as alegações mais comuns são variações do mesmo tema: "queima até 800 calorias em 3 minutos", "equivale a uma corrida de 45 minutos", "acelera o metabolismo e derrete gordura", "recuperação muscular incomparável". É agressivo, é sedutor, e é compreensível que muita gente acredite.
O problema é que a ciência não confirma nenhuma dessas promessas.
O estudo mais rigoroso já publicado sobre o impacto da crioterapia na composição corporal veio de Karppinen et al. (2025), na revista Obesity. Os pesquisadores acompanharam participantes ao longo de 28 sessões de crioterapia a -110°C durante 5 meses. O diferencial desse estudo foi medir diretamente a ativação do tecido adiposo marrom através de PET/CT — o exame mais preciso que existe para isso — e o gasto energético por calorimetria indireta.
Para entender por que isso é relevante: o tecido adiposo marrom é um tipo especial de gordura que, quando ativado, queima energia para produzir calor. A teoria por trás da "queima calórica milagrosa" é que o frio extremo ativaria esse tecido em larga escala, fazendo o corpo gastar muita energia para se aquecer. É uma hipótese que faz sentido na teoria — o problema é que ela não se confirmou na prática.
Os resultados foram claros: não houve diferença significativa na perda de peso entre quem fez crioterapia e quem não fez. O grupo crioterapia perdeu 11,9% do peso corporal, o grupo controle perdeu 11,5%. E o tecido adiposo marrom? Não foi ativado de forma significativa. O mecanismo que supostamente explicaria a queima calórica simplesmente não aconteceu da maneira que o marketing sugere.
Na recuperação esportiva, o cenário também é decepcionante para quem acreditou nas promessas. A Revisão Cochrane (2022) — considerada padrão-ouro quando se trata de síntese de evidências — analisou os estudos disponíveis sobre crioterapia de corpo inteiro para recuperação muscular e classificou toda a evidência como "qualidade muito baixa". Poucos estudos, amostras pequenas, resultados inconsistentes.
Broatch et al. (2019) investigaram especificamente se a crioterapia potencializaria as adaptações ao treinamento. Após 4 semanas, não encontraram nenhuma diferença em VO₂ pico, potência aeróbica ou performance entre quem fazia crioterapia pós-treino e quem não fazia. A crioterapia não turbinou os ganhos.
E Wilson et al. (2018) trouxeram talvez o dado mais incômodo: ao comparar crioterapia de corpo inteiro com imersão em água fria após uma maratona, a crioterapia teve efeito inferior na recuperação da função muscular. O banho gelado tradicional funcionou melhor do que a câmara de -110°C.
Então, se não emagrece e não é o melhor caminho para recuperação, a crioterapia é só modinha?
Não necessariamente. E é aqui que a história fica realmente interessante.
O outro lado que quase ninguém conta
Quando mergulhei mais fundo na literatura, o que encontrei me fez repensar minha posição inicial. Existem contextos específicos onde a crioterapia de corpo inteiro demonstra benefícios consistentes — e são contextos completamente diferentes dos que aparecem no marketing.
O que me preocupa é que o preconceito criado pelos estudos sobre frio e hipertrofia — que corretamente mostram que o frio pode atrapalhar adaptações musculares — pode estar fazendo muita gente descartar uma intervenção que poderia ajudá-las genuinamente. É como se, por ter descoberto que um martelo não serve para apertar parafusos, tivéssemos descartado o martelo inteiro — sem perceber que ele continua sendo excelente para pregar.
Espondilite anquilosante
A espondilite anquilosante é uma doença inflamatória crônica que afeta principalmente a coluna vertebral e as articulações sacroilíacas. Para quem não está familiarizado: imagine uma inflamação persistente nas articulações da coluna que, com o tempo, pode levar à fusão das vértebras — a chamada "coluna de bambu" nos casos mais avançados. Quem convive com isso enfrenta dor crônica, rigidez matinal intensa e limitação funcional progressiva.
Stanek et al. (2015) conduziram um ensaio clínico randomizado com 48 pacientes portadores de espondilite anquilosante. Metade foi tratada apenas com cinesioterapia (exercícios terapêuticos), a outra metade recebeu cinesioterapia combinada com crioterapia de corpo inteiro. O desfecho primário foi o BASDAI — um índice padrão que reumatologistas usam mundialmente para medir a atividade da doença, numa escala de 0 a 10 onde valores mais altos significam doença mais ativa.
O grupo que fez apenas exercício apresentou redução de aproximadamente 15% no BASDAI. O grupo que combinou exercício com crioterapia? Redução de aproximadamente 40%. Quase três vezes mais. Para quem acorda todo dia com a coluna travada e passa o dia negociando com a dor, essa diferença não é um número abstrato numa tabela — é qualidade de vida.
Uma meta-análise de 2025, registrada no PROSPERO, confirmou esses achados em múltiplos estudos. Stanek et al. (2018) também investigaram diferentes temperaturas e encontraram que -110°C produziu efeitos superiores a -60°C — reforçando que existe um limiar de estímulo necessário para desencadear as respostas terapêuticas.
Artrite reumatoide
A artrite reumatoide é outra condição autoimune onde o sistema imunológico ataca as próprias articulações, gerando inflamação crônica, dor e destruição progressiva da cartilagem — principalmente nas mãos, punhos e joelhos. É uma doença que rouba capacidade funcional aos poucos.
Guillot et al. (2014) reuniram dados de 6 estudos envolvendo 257 pacientes com artrite reumatoide submetidos à crioterapia de corpo inteiro. Encontraram redução significativa na escala visual analógica de dor — de 53 mm para 35 mm, numa escala de 0 a 100. Pode não parecer muito para quem nunca conviveu com dor crônica, mas para quem enfrenta isso diariamente, quase 20 pontos a menos é a diferença entre um dia funcional e um dia incapacitante.
Klemm et al. (2022) confirmaram esses achados num ensaio clínico randomizado com 56 pacientes: redução de 2 pontos na escala numérica de dor no grupo crioterapia contra 0,88 ponto no controle — diferença estatisticamente significativa (p=0,002) e clinicamente relevante. Aqui também, a temperatura de -110°C mostrou resultados superiores a -60°C.
Fibromialgia
Se espondilite e artrite reumatoide são doenças com mecanismos inflamatórios bem caracterizados, a fibromialgia é um território mais complexo. É uma condição marcada por dor generalizada, fadiga, sono não reparador e uma sensibilidade exacerbada que torna o dia a dia um desafio constante. Não é uma doença inflamatória clássica, mas parece envolver uma desregulação sutil do sistema imunológico e do processamento central da dor.
Bettoni et al. (2013) acompanharam pacientes com fibromialgia ao longo de 15 sessões consecutivas de crioterapia e encontraram redução significativa da dor e melhora na qualidade de vida. Outros grupos de pesquisa, como Rivera et al. (2018) e Vitenet et al. (2018), chegaram a conclusões semelhantes — o que é um sinal positivo, porque quando diferentes pesquisadores, em diferentes países, encontram a mesma coisa, a confiança nos resultados aumenta.
Klemm et al. (2021) foram além e investigaram os mecanismos biológicos: após apenas 6 sessões a -130°C, encontraram redução da dor acompanhada de alterações mensuráveis em citocinas inflamatórias — IL-1, IL-6 e IL-10.
Uma ressalva importante: quando os pacientes foram reavaliados 3 meses após a interrupção das sessões, os benefícios clínicos haviam desaparecido. A crioterapia alivia enquanto é feita, mas não cura a condição. Isso não invalida o benefício — mas é fundamental que tanto o profissional quanto o paciente tenham essa expectativa calibrada.
Depressão
Este é provavelmente o achado mais inesperado de toda a pesquisa. A crioterapia de corpo inteiro como adjuvante no tratamento de depressão.
Rymaszewska et al. (2020) conduziram um ensaio clínico randomizado duplo-cego com 56 pacientes diagnosticados com episódio depressivo, já em uso de antidepressivos. O desenho foi engenhoso: o grupo placebo era exposto a -50°C, o grupo tratamento a -110°C a -160°C. Todos "achavam" que estavam fazendo crioterapia, mas apenas um grupo recebia o estímulo térmico considerado terapêutico. Os resultados mostraram diferenças significativas nas escalas HAM-D 17 (p=0,02) e Inventário de Beck (p=0,01).
A meta-análise de Doets et al. (2021), reunindo 10 estudos e 294 participantes, encontrou um tamanho de efeito entre grupos de Hedges' g = 0,76 — um efeito moderado a grande. Para contextualizar: muitas intervenções farmacológicas e psicoterápicas consideradas eficazes pela comunidade científica operam nessa mesma faixa de tamanho de efeito.
Algumas ressalvas são necessárias: a maioria dos estudos vem de um único grupo de pesquisa polonês, os efeitos parecem ser de curta duração (1-2 semanas após as sessões), e o mecanismo ainda não está completamente esclarecido. Mas a evidência preliminar é promissora o suficiente para merecer atenção — e mais pesquisa.
O que explica esses benefícios?
Se a crioterapia não queima calorias como prometido, o que de fato acontece no corpo quando você entra numa câmara a -110°C?
A resposta mais consistente na literatura aponta para a modulação de citocinas. Citocinas são moléculas sinalizadoras do sistema imunológico — pense nelas como "mensageiros" que coordenam a resposta inflamatória do corpo. Algumas são pró-inflamatórias (como IL-1β, IL-6 e TNF-α), funcionando como um sinal de "ligar a inflamação". Outras são anti-inflamatórias (como IL-10), funcionando como um sinal de "calma, já deu".
Em condições como espondilite anquilosante, artrite reumatoide e fibromialgia, esse sistema está cronicamente desregulado — com excesso de sinais pró-inflamatórios e insuficiência de sinais regulatórios.
A meta-análise de He et al. (2025), incluindo 11 ensaios clínicos randomizados, demonstrou que a crioterapia de corpo inteiro reduz significativamente a IL-1β e aumenta a IL-10. É como se o estímulo intenso do frio extremo funcionasse como um "reset" temporário para um sistema imunológico que está cronicamente acelerado.
Isso explica por que a crioterapia funciona para condições inflamatórias mas não para emagrecimento ou hipertrofia. São mecanismos completamente diferentes, populações completamente diferentes, expectativas que deveriam ser completamente diferentes. O marketing simplesmente vendeu a ferramenta errada para o público errado.
O que isso significa na prática
Se você é personal trainer e tem alunos com condições inflamatórias crônicas como espondilite anquilosante, artrite reumatoide ou fibromialgia, vale conhecer essa ferramenta. Não para prescrever — isso cabe ao médico — mas para entender o contexto em que seu aluno está inserido e, quando apropriado, poder conversar sobre possibilidades complementares de forma informada.
Se você tem alunos que querem usar crioterapia para emagrecer ou turbinar a hipertrofia, a evidência simplesmente não sustenta essa aplicação. E vale ser honesto sobre isso.
Se você tem alunos que descartaram a crioterapia completamente porque "viram que frio atrapalha hipertrofia", vale contextualizar: o que foi refutado são as alegações exageradas do marketing, não a técnica em si. Para as populações certas, com as expectativas certas, existe evidência real.
O protocolo mais utilizado nos estudos envolve sessões de 2 a 3 minutos, a temperaturas entre -110°C e -130°C, com frequência diária ou em dias alternados durante 2 a 3 semanas. Para condições crônicas, sessões de manutenção parecem ser necessárias para preservar os ganhos.
A lição que fica
A história da crioterapia é, no fundo, uma história que se repete constantemente na indústria fitness: uma técnica com aplicações específicas e legítimas é transformada em solução universal pelo marketing, gera frustração quando não entrega o que prometeu, e acaba desacreditada por completo — inclusive para os contextos onde realmente funciona.
A melhor forma de combater isso não é descartar ferramentas. É entender para quem elas servem e para quem não servem. E isso exige algo que nem todo profissional está disposto a fazer: ir além do hype e olhar o que a ciência realmente diz.
A crioterapia não vai fazer seu aluno emagrecer. Mas para alguém com espondilite anquilosante que acorda todo dia com a coluna travada, pode significar 40% menos dor. E para quem convive com isso, essa diferença muda tudo.
Se você quer aprender a prescrever treinos baseados em evidência para populações especiais como essas — entendendo não apenas o "o quê", mas o "por quê" de cada decisão — conheça o Método Lund. É a formação mais completa para personal trainers que querem se diferenciar pelo conhecimento científico aplicado à prática.
