Resumo para profissionais
- A SOP é, antes de ser uma questão reprodutiva, um distúrbio metabólico: a resistência à insulina está presente em cerca de 75% das mulheres magras e 95% das com sobrepeso, independentemente do peso.
- O exercício é intervenção de primeira linha porque a contração muscular capta glicose por uma via que não depende da insulina, atacando exatamente o defeito central da síndrome.
- A diretriz internacional de 2023 recomenda 150 a 300 minutos semanais de atividade aeróbia moderada (ou 75 a 150 de vigorosa) somados a treino de força em 2 dias, com benefícios comprovados mesmo sem perda de peso.
- Nenhuma modalidade é definitivamente superior às outras: HIIT, treino contínuo e treino de força têm evidências distintas, e a escolha deve priorizar aderência, fenótipo e preferência da sua aluna.
- O objetivo primário da prescrição não é a balança. É saúde metabólica, composição corporal, regularidade do ciclo e saúde mental.
A Síndrome dos Ovários Policísticos costuma ser apresentada como um problema de fertilidade. Essa é a parte visível, mas não é a raiz. Na base da SOP existe um distúrbio metabólico que afeta diretamente como o corpo lida com a glicose, e é justamente esse ponto que torna o exercício não um coadjuvante, mas uma das ferramentas centrais de manejo.
Entender esse deslocamento muda tudo na prática. Se você enxerga a SOP apenas como uma questão hormonal a ser resolvida por medicação, o treino vira detalhe. Se você entende que o defeito central é metabólico e muscular, o personal trainer passa a ocupar um papel terapêutico real no cuidado dessa mulher. Este artigo reúne a evidência que sustenta esse papel e traduz cada mecanismo em conduta.
O que é a SOP e por que ela é, antes de tudo, uma questão metabólica
A SOP é diagnosticada pelos critérios de Rotterdam, que exigem a presença de dois entre três achados: disfunção ovulatória (ciclos irregulares ou ausência de ovulação), hiperandrogenismo (excesso de hormônios androgênicos, clínico ou laboratorial) e ovários com morfologia policística na ultrassonografia. Como bastam dois dos três, a síndrome se apresenta em fenótipos diferentes, o que explica por que duas mulheres com o mesmo diagnóstico podem parecer clinicamente muito distintas.
Antes de seguir, vale definir dois termos que vão aparecer o tempo todo. Resistência à insulina é a perda de sensibilidade dos tecidos à ação da insulina, o hormônio que coloca a glicose para dentro das células. Quando os tecidos respondem mal, o corpo compensa produzindo mais insulina, gerando hiperinsulinemia. Hiperandrogenismo é o excesso de androgênios, hormônios como a testosterona, que em quantidade elevada perturbam a ovulação e produzem sinais como acne, aumento de pelos e alterações menstruais.
A conexão entre esses dois fenômenos é o coração da SOP. A hiperinsulinemia estimula os ovários a produzir mais androgênios e reduz a produção hepática de uma proteína chamada SHBG (globulina ligadora de hormônios sexuais). A SHBG funciona como um transportador que "sequestra" a testosterona circulante e a mantém inativa. Menos SHBG significa mais testosterona livre disponível, e é a testosterona livre que exerce o efeito biológico. Ou seja: o problema metabólico alimenta diretamente o problema hormonal e reprodutivo.
A resistência à insulina é o alvo, e é por isso que o exercício funciona
Aqui está o dado que reposiciona todo o cuidado. Usando o clamp euglicêmico-hiperinsulinêmico, que é o método padrão-ouro para medir sensibilidade à insulina em pesquisa, o estudo de Stepto et al. (2013) demonstrou que a resistência à insulina está presente em 75% das mulheres magras com SOP, 62% das mulheres com sobrepeso sem SOP e 95% das mulheres com sobrepeso e SOP. No conjunto, cerca de 85% das mulheres com a síndrome eram resistentes à insulina.
O detalhe mais importante desse estudo é o que ele revela sobre o peso. As mulheres magras com SOP eram tão resistentes à insulina quanto mulheres com sobrepeso sem a síndrome. Isso significa que a resistência à insulina na SOP é intrínseca, faz parte da própria condição, e não é apenas consequência da gordura corporal. O sobrepeso agrava, mas não é a origem. E o excesso de peso ainda tem um impacto desproporcionalmente maior nessas mulheres: cada unidade de IMC a mais reduziu a captação de glicose muito mais nas mulheres com SOP do que nos controles.

A resistência à insulina está presente na maioria das mulheres com SOP, inclusive nas magras, e se agrava com o aumento do peso. Gráfico elaborado com base nos dados de Stepto et al. (2013).
Uma meta-análise posterior, Cassar et al. (2016), consolidou essa evidência reunindo 28 estudos com clamp (741 controles e 1.224 mulheres com SOP). O resultado: as mulheres com SOP têm, em média, 27% menos sensibilidade à insulina que os controles, e essa redução é independente do IMC. O sobrepeso adiciona mais 15% de piora por cima disso. A mesma meta-análise confirmou que a SHBG tem forte associação inversa com a resistência à insulina, reforçando por que ela funciona como um marcador clínico prático do estado metabólico dessas mulheres.
Agora, o raciocínio que justifica o treino. O músculo esquelético é o principal destino da glicose depois de uma refeição. Em condições normais, a insulina é a chave que abre a porta da célula muscular para a glicose entrar. Na SOP, essa fechadura funciona mal. Só que a contração muscular abre uma segunda porta, que não depende da insulina. Quando o músculo se contrai durante o exercício, ele recruta os transportadores de glicose (as proteínas GLUT4) para a superfície da célula por uma via própria, ativada pela contração. Em outras palavras, o exercício contorna exatamente o defeito que define a síndrome. Não é uma intervenção genérica de "estilo de vida saudável": é uma intervenção que age no mecanismo central da doença.
O que dizem as diretrizes
A referência normativa hoje é a diretriz internacional de 2023, Teede et al. (2023), construída por dezenas de sociedades científicas e com metodologia GRADE. Ela recomenda mudança de estilo de vida, incluindo atividade física, para todas as mulheres com SOP, ao longo de toda a vida.
As metas práticas são as seguintes. Para prevenir ganho de peso e manter a saúde: no mínimo 150 a 300 minutos semanais de atividade moderada, ou 75 a 150 minutos de atividade vigorosa, somados a atividades de fortalecimento muscular em pelo menos 2 dias por semana. Para quem busca modesta perda de peso e evitar o reganho: subir para pelo menos 250 minutos semanais de moderada ou 150 de vigorosa, mantendo o treino de força. Dada a alta prevalência de resistência à insulina, a diretriz sugere que o exercício seja distribuído de forma frequente, diária ou a cada dois dias, para potencializar a ação da insulina ao longo do tempo.
O ponto mais relevante para a sua conduta é a mudança de foco. A diretriz de 2023 deslocou explicitamente o alvo do peso para a saúde metabólica, a composição corporal e o bem-estar, e reconhece que os benefícios do exercício aparecem mesmo sem perda de peso. Ela também pede atenção ativa ao estigma de peso. Isso importa porque a maior parte dessas mulheres já chegou até você carregando a mensagem de que "só precisa emagrecer", e essa mensagem costuma ser tão ineficaz quanto desmotivadora.
HIIT ou treino contínuo? O que o melhor ensaio clínico mostra
Uma das perguntas mais frequentes é sobre intensidade. O ensaio clínico randomizado mais robusto sobre isso é Patten et al. (2022), que comparou HIIT (treino intervalado de alta intensidade) com MICT (treino contínuo de intensidade moderada) em mulheres com sobrepeso e SOP, durante 12 semanas, com três sessões semanais supervisionadas e, crucialmente, com o volume de treino equiparado entre os grupos. Isso é o que torna o estudo confiável: qualquer diferença encontrada é efeito da intensidade, não de umas terem treinado mais que as outras.
Os resultados favoreceram o HIIT em desfechos que importam. O consumo máximo de oxigênio (VO₂pico, o principal indicador de aptidão cardiorrespiratória e forte preditor de mortalidade) melhorou nos dois grupos, mas mais no HIIT. A sensibilidade à insulina, medida por clamp, melhorou apenas no grupo HIIT. A SHBG aumentou apenas no HIIT, e o índice de androgênio livre (FAI, uma medida da testosterona biologicamente ativa) caiu apenas no HIIT. E a regularidade menstrual melhorou em 69% das mulheres do HIIT contra 22% do MICT.
Um achado central: esses benefícios aconteceram sem perda de peso. Não houve mudança significativa de peso, IMC ou massa de gordura em nenhum dos grupos. A melhora metabólica e reprodutiva veio da adaptação do músculo e do sistema cardiorrespiratório, não da balança. É a tradução prática do que a diretriz afirma.
| Desfecho | HIIT | MICT (contínuo moderado) |
|---|---|---|
| VO₂pico (aptidão cardiorrespiratória) | ↑ maior ganho | ↑ ganho, porém menor |
| Sensibilidade à insulina (clamp) | ↑ melhora significativa | Sem mudança significativa |
| SHBG | ↑ aumento | Sem mudança |
| Índice de androgênio livre (FAI) | ↓ redução | Sem mudança |
| Regularidade menstrual | 69% melhoraram | 22% melhoraram |
| Peso / massa de gordura | Sem mudança | Sem mudança |
| Aderência | 94% | 92% |
Antes de transformar isso em dogma, uma ressalva importante de método. Esse é um ensaio, com amostra pequena, restrito a mulheres com sobrepeso e sem comorbidades que exigissem medicação. Quando os dados de várias comparações são agrupados, a suposta superioridade de uma modalidade sobre a outra se dilui bastante, e a literatura ainda não permite dizer com segurança que HIIT é melhor que treino contínuo para todos os desfechos. O que se pode afirmar com tranquilidade é o outro lado: o HIIT é seguro nessa população (94% de aderência e nenhum evento adverso no estudo), é eficiente no tempo e resolve a barreira da falta de tempo, que é uma das mais comuns. Isso, por si só, já derruba um mito frequente.
O mito é o de que mulheres com SOP "não podem" fazer alta intensidade por causa do cortisol. Não há sustentação para isso na literatura. A intensidade vigorosa é bem tolerada e produz alguns dos melhores desfechos metabólicos e reprodutivos observados. O que muda a conduta não é evitar a intensidade, é dosá-la com progressão e supervisão adequadas.
Treino de força na SOP: o que a pesquisa brasileira mostra
Boa parte da evidência específica sobre treino resistido em SOP vem do grupo da USP de Ribeirão Preto. O estudo de Kogure et al. (2018) acompanhou 45 mulheres com SOP e 52 sem a síndrome em um programa de treino resistido progressivo, três vezes por semana durante quatro meses, com periodização linear.
Três resultados merecem destaque. Primeiro, a força aumentou de forma consistente, e as mulheres com SOP tiveram ganhos de força ainda maiores em tronco e membros inferiores, um efeito que os autores relacionaram ao próprio hiperandrogenismo de base. Ou seja, os androgênios elevados, que causam tantos problemas na SOP, parecem funcionar a favor quando o estímulo é o treino de força. Segundo, a testosterona diminuiu nos dois grupos após o programa, junto com queda de glicemia e de percentual de gordura, e aumento de massa magra. O treino de força, portanto, melhorou o perfil hiperandrogênico em vez de piorá-lo. Terceiro, os ganhos de força apareceram já nas primeiras 8 semanas (fase de adaptações neurais), enquanto os ganhos de massa magra se consolidaram após 16 semanas.
Há aqui um ponto que dialoga diretamente com uma dúvida comum das suas alunas. O receio de "ficar masculinizada" com o treino de força não se sustenta pela fisiologia. O próprio estudo cita evidência de que mulheres saudáveis alcançam ganhos relativos de hipertrofia semelhantes aos dos homens, apesar de terem cerca de dez vezes menos testosterona. O argumento correto não é sobre testosterona: é sobre a magnitude do ganho natural de massa muscular, que é muito menor do que a crença popular imagina. Numa mulher com SOP, que tende a ter androgênios mais altos, isso continua valendo. A hipertrofia acontece, é saudável e é desejável, mas não transforma o corpo em algo fora do padrão feminino.
Vale registrar o contexto histórico: em 2018, o próprio artigo apontava que o treino resistido ainda não era rotineiramente recomendado no manejo da SOP. Foi justamente a diretriz de 2023 que consolidou a recomendação de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias por semana. A prática, felizmente, acompanhou a ciência.
Ciclo menstrual, ovulação e fertilidade
Aqui entra a evidência mais recente e um dos motivos pelos quais este tema merece atenção agora. A revisão sistemática de Molinaro et al. (2026), publicada no Journal of Endocrinological Investigation, reuniu 10 estudos e 290 mulheres com SOP para responder especificamente se o exercício melhora os sintomas menstruais, uma pergunta que ainda era mal compreendida porque a maioria das pesquisas se concentrava em desfechos metabólicos.
A conclusão é consistente: o exercício melhora a regularidade do ciclo em diferentes modalidades, e isso ocorre independentemente da perda de peso. O HIIT apresentou a maior taxa de melhora (69%, número que vem principalmente do estudo de Patten), enquanto o treino contínuo moderado foi eficaz para o maior número absoluto de participantes. Os protocolos que funcionaram tinham em comum uma duração de pelo menos três meses, com cerca de três sessões semanais. E a revisão observou que acrescentar treino de força trouxe benefício adicional, especialmente nas mulheres com hiperandrogenismo — o mesmo padrão que Kogure já havia sugerido.

Resumo visual da revisão sistemática de 2026: diferentes modalidades de exercício melhoram a regularidade menstrual na SOP, sempre de forma independente do emagrecimento, com programas personalizados conforme o fenótipo. Figura de Molinaro et al. (2026), Journal of Endocrinological Investigation, sob licença Creative Commons (CC BY 4.0).
O mecanismo fecha o raciocínio do artigo inteiro. Ao melhorar a sensibilidade à insulina, o exercício reduz o estímulo dos ovários para produzir androgênios e aumenta a SHBG hepática, o que diminui a testosterona livre. Menos testosterona livre significa menos interferência no desenvolvimento dos folículos e na ovulação. É a mesma cadeia metabólico-hormonal, agora lida na direção da recuperação.
Essa é a base para posicionar o exercício como intervenção de primeira linha na infertilidade anovulatória da SOP. O estudo clássico de Palomba et al. (2008) mostrou que um programa estruturado de exercício foi pelo menos tão eficaz quanto uma dieta hipocalórica para ovulação e gravidez, e trabalhos como Redman et al. (2011) relataram retomada dos ciclos em 88% das mulheres após 16 semanas de exercício aeróbio supervisionado. Ainda há limitações importantes: a revisão Cochrane sobre estilo de vida, Lim et al. (2019), não encontrou estudos avaliando desfechos reprodutivos "duros" como nascidos vivos, e a certeza da evidência para ovulação permanece baixa. O sinal é claro e consistente; a robustez estatística ainda não é máxima.
Saúde mental: o eixo que quase sempre é esquecido
Um aspecto subtratado da SOP é o impacto psicológico. A meta-análise de Cooney et al. (2017), com mais de 3.000 mulheres, mostrou que ter SOP se associa a quase quatro vezes mais chance de sintomas depressivos (razão de chances 3,78) e a mais de cinco vezes mais chance de sintomas de ansiedade (razão de chances 5,62). E, o mais importante para a leitura correta: esse risco se mantém elevado mesmo quando se comparam mulheres com o mesmo IMC. Não é só efeito do peso.
Isso tem duas implicações práticas. A primeira é que a diretriz de 2023 recomenda rastrear depressão e ansiedade em todas as mulheres com SOP, o que reforça a importância de você trabalhar em rede com médico e psicólogo, e não isoladamente. A segunda é que o componente social e supervisionado do treino deixa de ser um detalhe e passa a ser parte ativa do tratamento. Para uma aluna com SOP e sintomas de humor, a consistência, o acolhimento e o vínculo do acompanhamento presencial podem valer tanto quanto a planilha.
Como prescrever na prática
Não existe um protocolo único validado, e o próprio consenso é de que nenhum regime específico é superior aos demais. O que existe é um conjunto de princípios que você combina conforme a realidade da sua aluna.
Um ponto de partida razoável, ancorado na diretriz e nos ensaios disponíveis:
- Aeróbio: progredir rumo a 150 a 300 minutos semanais de intensidade moderada, ou introduzir HIIT 2 a 3 vezes por semana como opção eficiente no tempo para agendas apertadas. Ambos funcionam; a escolha é de aderência e preferência.
- Força: pelo menos 2 dias por semana, em dias não consecutivos, cobrindo grandes grupos musculares, com 2 a 3 séries de 8 a 12 repetições e sobrecarga progressiva. Especialmente valioso no fenótipo com hiperandrogenismo.
- Frequência: distribuir o estímulo de forma frequente, diária ou a cada dois dias, para manter a ação da insulina elevada ao longo da semana.
A aderência é o fator mais decisivo e também o mais frágil. Levantamentos populacionais mostram que uma grande parcela das mulheres com SOP não atinge as metas de atividade física, e as barreiras mapeadas são consistentes: falta de tempo, fadiga, baixa autoconfiança, preocupação com a imagem corporal e sintomas depressivos. Os facilitadores são igualmente claros: supervisão, suporte social, educação e prescrição individualizada. Traduzindo: um programa medíocre que a aluna cumpre vence um programa perfeito que ela abandona.
A prescrição deve considerar o fenótipo. Uma mulher com resistência à insulina marcante se beneficia de priorizar volume aeróbio e intensidade, combinados à intervenção nutricional. Uma mulher com hiperandrogenismo proeminente tende a responder especialmente bem ao treino de força. E há a SOP magra (lean PCOS): mesmo sem excesso de peso, a resistência à insulina intrínseca continua presente, como Stepto demonstrou, então o exercício segue indicado, com foco metabólico e não em emagrecimento. Por fim, o exercício não substitui a nutrição nem a conduta médica; ele é uma das pernas de um manejo que também inclui dieta e, quando indicado, farmacoterapia.
Onde a evidência é forte e onde ela ainda é frágil
Fechar com honestidade científica é parte do trabalho. A evidência é consistente para melhora da aptidão cardiorrespiratória e redução da circunferência de cintura, e para a segurança e a viabilidade do exercício, inclusive de alta intensidade. É moderada para melhora da sensibilidade à insulina e para desfechos de saúde mental e qualidade de vida. E ainda é fraca para desfechos reprodutivos duros como nascidos vivos, para a superioridade definitiva de uma modalidade sobre a outra e para efeitos hormonais uniformes. Meta-análises conservadoras, como Breyley-Smith et al. (2022), confirmam o ganho em VO₂pico e cintura, mas não encontram efeito consistente sobre glicemia e lipídios, o que reflete a heterogeneidade dos estudos, quase sempre pequenos e curtos.
Dois mitos merecem clarificação, sem combate. O primeiro é o do cortisol e da alta intensidade, que já tratamos: não há razão para proibir HIIT, que é seguro e eficaz nessa população. O segundo é o foco excessivo na perda de peso. Como a diretriz de 2023 deixa claro e como os ensaios com desfechos independentes do peso demonstram, os ganhos metabólicos e reprodutivos acontecem antes e além da balança. Prometer emagrecimento como métrica central é científica e clinicamente frágil, e ainda mina a motivação da aluna. Trocar essa promessa por saúde metabólica, força, regularidade do ciclo e bem-estar é mais honesto e mais eficaz.
Perguntas frequentes
Exercício ajuda mesmo na síndrome dos ovários policísticos ou é só coadjuvante?
Ajuda de forma direta e é considerado intervenção de primeira linha. A resistência à insulina é o defeito central da SOP, e a contração muscular capta glicose por uma via independente da insulina, atuando exatamente nesse mecanismo. Os benefícios metabólicos, hormonais e reprodutivos aparecem inclusive sem perda de peso.
Qual o melhor tipo de treino para quem tem SOP: força, aeróbio ou HIIT?
Não há uma modalidade definitivamente superior. O HIIT mostrou os melhores desfechos de sensibilidade à insulina e regularidade menstrual no ensaio de Patten et al. (2022); o treino de força melhora força, massa magra e o perfil hiperandrogênico; o treino contínuo moderado beneficia muitas mulheres com boa tolerância. A diretriz de 2023 recomenda combinar aeróbio com força em pelo menos 2 dias por semana, e a escolha deve priorizar aderência e fenótipo.
Mulher com SOP pode fazer HIIT ou o cortisol atrapalha?
Pode. A ideia de que a alta intensidade prejudica mulheres com SOP por causa do cortisol não tem sustentação na literatura. No ensaio de Patten et al. (2022), o HIIT teve 94% de aderência, nenhum evento adverso e alguns dos melhores desfechos metabólicos e reprodutivos observados.
O treino de força deixa a mulher com SOP masculinizada por causa dos androgênios altos?
Não. Mulheres alcançam ganhos relativos de hipertrofia semelhantes aos dos homens apesar de terem cerca de dez vezes menos testosterona, e a magnitude do ganho natural de massa muscular é muito menor do que a crença popular imagina. No estudo de Kogure et al. (2018), o treino de força inclusive reduziu a testosterona e melhorou o perfil hiperandrogênico das mulheres com SOP.
Precisa emagrecer para o exercício funcionar na SOP?
Não. Vários estudos mostram melhora da sensibilidade à insulina, da SHBG, do índice de androgênio livre e da regularidade menstrual sem qualquer perda de peso. A diretriz de 2023 deslocou explicitamente o foco do peso para a saúde metabólica, a composição corporal e o bem-estar.
Quanto tempo de treino é necessário para ver mudança no ciclo menstrual?
A revisão de Molinaro et al. (2026) indica que os protocolos que melhoraram a regularidade menstrual duraram, em geral, pelo menos três meses, com cerca de três sessões semanais. Ganhos de força, por outro lado, aparecem já nas primeiras 8 semanas por adaptação neural.
Exercício ajuda na fertilidade de quem tem SOP?
Sim, é intervenção de primeira linha para a infertilidade anovulatória. Ao melhorar a sensibilidade à insulina, o exercício reduz androgênios ovarianos e aumenta a SHBG, favorecendo a ovulação. Estudos mostram retomada de ciclos em até 88% das mulheres, embora a evidência para desfechos como nascidos vivos ainda seja limitada.
Fechamento
A leitura correta da SOP começa por entender que ela é, na base, um problema metabólico com consequências reprodutivas, e não o contrário. Quando o personal trainer compreende que o treino age exatamente no defeito central da síndrome, o exercício deixa de ser "recomendação genérica de vida saudável" e passa a ser conduta terapêutica. É isso que diferencia o profissional que apenas passa treino do profissional que entende o que está tratando.
Se você quer aprender a prescrever treino baseado em evidência para populações especiais como essa, com profundidade científica e aplicação prática, conheça o Método Lund — a formação mais completa para personal trainers que querem se diferenciar pelo conhecimento.
Rafa Lund / Mestre em Ciências do Desporto | Fundador Grupo LUND
Última atualização: julho de 2026.
Referências
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