O que é lipedema?
Lipedema é uma doença crônica do tecido adiposo subcutâneo que afeta quase exclusivamente mulheres. Foi descrita pela primeira vez em 1940 por Allen e Hines na Mayo Clinic, mas até hoje permanece subdiagnosticada e frequentemente confundida com obesidade ou linfedema (Wold et al., 1951).
A condição se caracteriza pelo acúmulo desproporcional e simétrico de gordura, principalmente nos membros inferiores — coxas, quadris e pernas — podendo também afetar os braços. Um sinal clássico é o chamado "sinal do manguito" (cuff sign): a gordura para abruptamente nos tornozelos e punhos, poupando mãos e pés (Kruppa et al., 2020).
Diferente da obesidade comum, o lipedema apresenta características próprias que o tornam uma entidade clínica distinta:
Resistência à perda de peso: mesmo com dieta restritiva e exercício intenso, a gordura das áreas afetadas praticamente não diminui. Isso acontece porque o tecido adiposo do lipedema tem alterações metabólicas e estruturais que o tornam resistente à lipólise (quebra de gordura para uso como energia).
Dor e sensibilidade: o tecido afetado é doloroso ao toque, mesmo com pressão leve. Muitas mulheres relatam dor espontânea, sensação de peso nas pernas e fadiga constante.
Hematomas espontâneos: a fragilidade capilar aumentada faz com que hematomas apareçam com facilidade, às vezes sem trauma aparente.
Progressão hormonal: o lipedema tipicamente surge ou piora em momentos de mudança hormonal — puberdade, gestação, uso de anticoncepcionais ou menopausa — sugerindo forte influência estrogênica (Buso et al., 2019).
Componente genético: estudos mostram agregação familiar significativa, indicando predisposição hereditária (Paolacci et al., 2019).
A prevalência estimada varia entre 5% e 11% da população feminina, o que significa que você, como personal trainer, muito provavelmente já atendeu ou atenderá mulheres com essa condição — mesmo que elas não saibam que têm (Forner-Cordero et al., 2012).
Tipos e estágios do lipedema
O lipedema é classificado de duas formas complementares: por localização (tipos) e por gravidade (estágios).
Classificação por localização (Tipos I a V)
Esta classificação indica onde a gordura se acumula predominantemente:
- Tipo I: Quadris e glúteos
- Tipo II: Dos quadris até os joelhos
- Tipo III: Dos quadris até os tornozelos (forma mais comum)
- Tipo IV: Braços
- Tipo V: Apenas pernas abaixo dos joelhos

Classificação por gravidade (Estágios I a IV)
Esta classificação indica a progressão da doença baseada nas alterações estruturais da pele e do tecido subcutâneo:
Estágio I: Superfície da pele normal, mas com nódulos palpáveis no tecido subcutâneo. Edema reversível e dor ocasional.
Estágio II: Pele irregular com nódulos maiores e visíveis (aparência de "celulite" mais acentuada). Edema pode se tornar irreversível. Espessamento da fáscia perilobar.
Estágio III: Grandes massas de tecido adiposo com deformidade significativa, especialmente nas coxas e joelhos. Nódulos grandes e palpáveis. Limitação funcional importante.
Estágio IV: Lipedema associado a linfedema secundário (chamado de lipolinfedema). Há comprometimento do sistema linfático com acúmulo adicional de fluido.
É importante entender que uma mulher pode ter qualquer combinação de tipo e estágio. Por exemplo: Tipo III (gordura dos quadris aos tornozelos), Estágio II (pele irregular com nódulos visíveis).
Lipedema não é obesidade: entendendo a diferença
Um dos maiores problemas enfrentados por mulheres com lipedema é o diagnóstico equivocado de "apenas obesidade". Embora as duas condições possam coexistir, são entidades distintas com fisiopatologia própria (Verde et al., 2023).
Diferenças fundamentais
| Característica | Obesidade | Lipedema |
|---|---|---|
| Distribuição da gordura | Generalizada ou central | Desproporcional, simétrica, membros |
| Resposta à dieta | Responde com perda de peso | Gordura afetada não responde |
| Dor no tecido adiposo | Geralmente ausente | Presente, característica |
| Hematomas fáceis | Não característico | Muito comum |
| Acometimento de mãos/pés | Sim | Não (sinal do manguito) |
| Gênero | Ambos | Quase exclusivamente mulheres |
Por que o IMC não funciona para lipedema
O Índice de Massa Corporal (IMC) é calculado apenas com peso e altura, sem considerar distribuição de gordura ou composição corporal. Em mulheres com lipedema, o IMC frequentemente superestima o risco metabólico porque grande parte do peso está em membros inferiores, não na região abdominal (Brenner et al., 2023).
Um estudo com mais de 600 mulheres com lipedema sugeriu que a Relação Cintura-Estatura (RCE) seria uma alternativa mais adequada, já que não é influenciada pelo peso desproporcional das pernas (Brenner et al., 2023).
Alterações histológicas e metabólicas únicas
Pesquisas recentes revelam que o tecido adiposo do lipedema é estruturalmente diferente:
- Adipócitos maiores (hipertrofia) mesmo em mulheres com peso normal (Al-Ghadban et al., 2019)
- Aumento de macrófagos e presença de estruturas em coroa (crown-like structures), indicando inflamação tecidual
- Dilatação de capilares sanguíneos e linfáticos, com evidência de angiogênese e fibrose
- Perfil metabolômico alterado: níveis mais baixos de histidina, fenilalanina, glicina, glutamina e ácido lático, e níveis elevados de ácido pirúvico (Kempa et al., 2023)
- Polimorfismo do gene IL-6 (rs1800795): portadoras têm risco quase 6 vezes maior de desenvolver lipedema (Di Renzo et al., 2020)
Esses achados reforçam que não estamos lidando com "gordura normal que a pessoa não consegue perder por falta de esforço", mas sim com uma condição patológica que exige abordagem específica.
O impacto do lipedema na qualidade de vida
O lipedema vai muito além da estética. O impacto na qualidade de vida é profundo e multidimensional.
Dor crônica
A dor é o sintoma mais debilitante. Estudos mostram que desconforto nas pernas — incluindo dor difusa, sensibilidade ao toque e sensação de peso — está presente em cerca de metade das mulheres com lipedema (Wold et al., 1951). Essa dor é frequentemente subestimada por profissionais de saúde que não conhecem a condição.
Limitações funcionais
O acúmulo de gordura nos membros inferiores altera o padrão de marcha, desalinha os eixos articulares e pode causar deformidade em valgo dos joelhos (Esmer et al., 2020). Com a progressão, surgem limitações para caminhar, subir escadas e realizar atividades do dia a dia.
Impacto psicológico
Os números são alarmantes:
- 18% a 35% das mulheres com lipedema apresentam depressão
- 18% a 42% apresentam ansiedade
- 74% relataram histórico de transtorno alimentar em um estudo (Dudek et al., 2018)
A incapacidade de perder peso nas áreas afetadas, apesar de esforços intensos, gera frustração profunda. Muitas mulheres passam anos sendo culpabilizadas por profissionais de saúde que desconhecem a condição, ouvindo que "só precisam fazer mais dieta" ou "não estão se esforçando o suficiente". Esse ciclo de culpa e fracasso aumenta o risco de transtornos alimentares e até de suicídio (Kraus, 2015).
O ciclo vicioso dor-inatividade-piora
Um estudo com 511 mulheres com lipedema revelou um padrão preocupante: a combinação de dor alta + baixa atividade física produz resultados de saúde mental desproporcionalmente piores do que cada fator isoladamente (Ketterer et al., 2023).
Ou seja: a dor impede o exercício, e a falta de exercício piora a dor e o estado emocional. Esse ciclo vicioso precisa ser interrompido — e o exercício, prescrito de forma adequada, é uma das principais ferramentas para isso.
A virada de paradigma: exercício como ferramenta terapêutica
Por décadas, o lipedema foi definido como "resistente a dieta e exercício". Muitos profissionais interpretaram isso como "exercício não funciona, então não adianta prescrever". Essa interpretação está errada.
O que a ciência mostra é que o exercício não reduz significativamente a gordura específica do lipedema — isso é verdade. Porém, o exercício produz benefícios terapêuticos importantes por outras vias (Annunziata et al., 2024).
O Consenso Italiano de 2024
Em 2024, a Sociedade Italiana de Ciências Motoras e Esportivas (SISMeS) e a Sociedade Italiana de Flebologia (SIF) publicaram o primeiro consenso de sociedades científicas endossando formalmente o exercício físico como ferramenta terapêutica para lipedema (Annunziata et al., 2024).
O documento é claro: embora por definição o lipedema seja resistente ao exercício para perda de gordura, o exercício emerge como peça-chave no manejo da condição, contribuindo para:
- Melhora da função mitocondrial
- Aumento da drenagem linfática
- Redução da inflamação tecidual
- Melhora da qualidade de vida

Mudando a forma de comunicar
Essa distinção é fundamental para a comunicação com suas alunas. O objetivo do exercício não é "queimar a gordura do lipedema" — isso geraria frustração e abandono. O objetivo é:
- Reduzir dor
- Melhorar força e capacidade funcional
- Aumentar drenagem linfática e reduzir edema
- Diminuir inflamação
- Melhorar qualidade de vida e saúde mental
Quando a expectativa está calibrada para esses marcadores reais, a frustração diminui e a adesão aumenta.
Por que o exercício funciona: os mecanismos
Entender os mecanismos pelos quais o exercício beneficia mulheres com lipedema permite prescrever de forma mais intencional e explicar para a aluna o "porquê" de cada escolha.
1. O músculo como bomba para o sistema linfático
O sistema linfático não tem bomba própria. Diferente do sistema cardiovascular, que conta com o coração para impulsionar o sangue, a linfa depende de forças externas para se movimentar (Annunziata et al., 2024).
O músculo funciona como essa bomba através do que chamamos de mecanismo de bomba muscular extrínseca:
Durante a contração muscular: veias e vasos linfáticos dentro e ao redor do músculo são comprimidos, empurrando seu conteúdo em direção central (para o coração).
Durante o relaxamento: filamentos de ancoragem que conectam o endotélio linfático ao tecido circundante criam pressão negativa, puxando o fluido intersticial para dentro dos capilares linfáticos.
É literalmente uma ordenha mecânica. Cada contração muscular "espreme" a linfa para cima; cada relaxamento "puxa" mais fluido para dentro do sistema.
O músculo da panturrilha é especialmente importante nesse processo — estudos em linfedema de membros inferiores identificaram o treinamento da panturrilha como a intervenção mais eficaz para aumentar a força do gastrocnêmio-sóleo e, consequentemente, a eficiência da bomba (Okhovat & Alavi, 2015).
2. Liberação de miocinas anti-inflamatórias
O músculo esquelético, quando contraído, funciona como um órgão endócrino, liberando substâncias chamadas miocinas que têm efeitos sistêmicos (Annunziata et al., 2024).
Uma das mais estudadas é a irisina, liberada através da via PGC-1α → FNDC5. A irisina tem múltiplos efeitos relevantes para o lipedema:
- Reduz expressão de TNFα e IL-6 (citocinas pró-inflamatórias)
- Aumenta síntese de adiponectina (adipocina protetora)
- Suprime excesso de leptina
- Inibe ativação do NFκB (fator de transcrição inflamatório)
- Promove polarização de macrófagos para o fenótipo M2 (anti-inflamatório)
Esse último ponto é particularmente interessante: o tecido lipedematoso já apresenta predominância de macrófagos M2 — o exercício pode estar apoiando e mantendo esse perfil protetor (Kawanishi et al., 2010).
3. Melhora da microcirculação
O lipedema envolve anormalidades microvasculares documentadas:
- Dilatação de vasos sanguíneos e linfáticos
- Fragilidade capilar aumentada (causando os hematomas característicos)
- Reflexo veno-arteriolar reduzido
- Permeabilidade capilar aumentada
O exercício promove angiogênese (formação de novos vasos), melhora a função endotelial através da produção de óxido nítrico e — quando combinado com compressão — reduz a pressão de filtração transcapilar (Al-Ghadban et al., 2019).
4. Redução da inflamação tecidual
Um estudo utilizando ressonância magnética de sódio 3T demonstrou que fisioterapia com exercício reduziu o sódio na pele das pernas em 9% e no tecido adiposo subcutâneo em 8% (Donahue et al., 2022). O sódio tecidual é um biomarcador estabelecido de inflamação — sua redução indica melhora do estado inflamatório local.
5. Aumento da força muscular
Um dado frequentemente ignorado: mulheres com lipedema podem apresentar até 30% menos força muscular que controles saudáveis (van Esch-Smeenge et al., 2017).
Não está completamente claro se essa fraqueza é parte da patologia ou consequência da redução de atividade física causada pela dor e limitações. Provavelmente, ambos os fatores contribuem. De qualquer forma, o treino de força é fundamental para reverter esse déficit e melhorar a capacidade funcional.
Evidências científicas: o que os estudos mostram
Vamos analisar os principais estudos que investigaram exercício em mulheres com lipedema.
Estudo de Atan & Bahar-Özdemir (2021) — O RCT mais rigoroso
Este ensaio clínico randomizado, publicado no Lymphatic Research and Biology, é considerado o estudo mais robusto sobre exercício em lipedema até hoje (Atan & Bahar-Özdemir, 2021).
Desenho do estudo:
- 33 mulheres com lipedema severo (estágios III-IV)
- Randomizadas em 3 grupos:
- Grupo 1: Terapia Descongestiva Completa (CDT) + Exercício
- Grupo 2: Compressão Pneumática Intermitente (IPCT) + Exercício
- Grupo 3: Apenas Exercício (controle)
Protocolo de exercício:
- Frequência: 5 sessões por semana
- Duração: 6 semanas
- Estrutura de cada sessão:
- Aquecimento
- Exercício aeróbico a 80% da frequência cardíaca máxima (individualizado pelo teste de caminhada de 6 minutos)
- Treino de força para os principais grupos musculares
- Alongamento
Resultados principais:
- CDT + exercício produziu reduções significativamente maiores no volume dos membros comparado aos outros grupos (p<0,001), com tamanho de efeito grande (ηp² = 0,78)
- CDT + exercício também foi superior para redução de dor (p=0,045, ηp² = 0,20)
- Achado importante: IPCT + exercício não foi superior ao exercício sozinho — sugerindo que os componentes manuais da CDT (drenagem linfática manual, bandagens) são o diferencial quando combinados com exercício
Estudo de Donahue et al. (2022) — Fisioterapia multimodal
Este estudo piloto avaliou fisioterapia multimodal incluindo exercício em mulheres com lipedema inicial (Donahue et al., 2022).
Intervenção (6 semanas):
- Terapia manual (incluindo drenagem linfática)
- Programa de exercício personalizado focado em:
- Fortalecimento de membros inferiores
- Flexibilidade
- Condicionamento geral
- Orientações sobre postura, proteção articular, compressão e respiração diafragmática
Resultados:
- Dor (escala visual analógica): reduziu de 4,6 para 0,0 (Cohen's d = -2,5 — efeito muito grande)
- Sódio na pele das pernas: redução de 9%
- Sódio no tecido adiposo subcutâneo: redução de 8%
- Melhora na qualidade de vida (RAND-36)
Estudo de Czerwińska et al. (2024) — Compressão durante o exercício
Este RCT polonês investigou especificamente se usar compressão durante o treino faz diferença (Czerwińska et al., 2024).
Desenho:
- Mulheres com lipedema randomizadas em dois grupos:
- Exercício COM meias de compressão
- Exercício SEM compressão
- Duração: 4 semanas
Resultados:
- O grupo com compressão teve melhoras significativamente maiores nos domínios de Funcionalidade Física e Energia/Fadiga do SF-36
- Análise com escaneamento corporal 3D: tendência do grupo com compressão a reduzir ou manter circunferência das pernas, enquanto o grupo sem compressão teve leve aumento
Estudo LipidEx (em andamento) — HIIT para lipedema
O estudo norueguês LipidEx é o primeiro a investigar sistematicamente treino intervalado de alta intensidade (HIIT) em lipedema (NCT06558851).
Protocolo HIIT:
- 4 x 4 minutos a 85-95% da FC máxima
- 3 minutos de recuperação ativa entre os intervalos
Dados preliminares (n=22):
- HIIT foi bem tolerado, sem eventos adversos
- Melhora na saúde geral percebida
- Redução da exaustão comparado ao controle
- Redução de massa gorda no tronco superior (diferente do controle)
Os resultados completos, incluindo análises de biomarcadores em sangue e tecido adiposo, são esperados para 2026.
Recomendações práticas de prescrição
Com base nas evidências disponíveis e nas diretrizes clínicas (Consenso Italiano 2024, Diretrizes Alemãs S2k, Standard of Care dos EUA), podemos estabelecer recomendações práticas para prescrição (Annunziata et al., 2024) (Herbst et al., 2021) (Reich-Schupke et al., 2017).
Atividades aquáticas: primeira linha
O exercício aquático aparece como primeira escolha em praticamente todas as diretrizes clínicas. As razões são múltiplas:
Pressão hidrostática natural:
A água exerce pressão sobre o corpo imerso — aproximadamente 10-30 mmHg dependendo da profundidade. Isso funciona como uma compressão natural que auxilia a drenagem linfática e venosa durante toda a sessão.
Redução do impacto articular:
A flutuação reduz drasticamente a carga sobre as articulações. Isso é especialmente relevante considerando que cerca de 50% das mulheres com lipedema apresentam hipermobilidade articular (frouxidão ligamentar), o que aumenta o risco de lesões em atividades de impacto.
Deslocamento de fluido:
A imersão até o nível do peito pode deslocar até 600 mL de fluido dos membros inferiores para a circulação central, reduzindo o edema.
Modalidades recomendadas:
- Natação (crawl e costas são preferíveis; evitar peito pelo estresse nos joelhos)
- Hidroginástica
- Caminhada na piscina (aqua walking)
- Corrida aquática (aqua jogging)
Treino multimodal em terra
Para treinos fora da água, a abordagem multimodal (combinando diferentes componentes) é a mais estudada e eficaz.
Estrutura baseada no estudo de Atan (2021):
| Componente | Descrição |
|---|---|
| Aquecimento | 5-10 minutos de atividade leve |
| Aeróbico | 20-30 minutos a 60-80% da FC máxima |
| Força | Exercícios para principais grupos musculares, ênfase em MMII e core |
| Alongamento/Flexibilidade | 5-10 minutos ao final |
Frequência: 2-5 sessões por semana (o estudo de Atan usou 5x/semana por 6 semanas)
Atividades aeróbicas de baixo impacto recomendadas:
- Bicicleta (ergométrica ou tradicional)
- Elíptico
- Caminhada nórdica (Nordic walking)
- Remo ergômetro
- Mini-trampolim estável (rebote controlado)
Treino de força: considerações especiais
O treino de força é fundamental para reverter o déficit de força documentado nessa população e melhorar a função da bomba muscular.
Recomendações:
- Ênfase em membros inferiores e core — músculos que mais contribuem para a bomba linfática
- Cargas baixas a moderadas, repetições mais altas — para minimizar desconforto e permitir volume adequado
- Movimentos controlados — evitar hiperextensões devido à prevalência de hipermobilidade
- Progressão gradual — começar conservador e progredir baseado na resposta
Exercícios particularmente úteis:
- Flexão Plantar - Panturrilha (fortalece a bomba mais eficiente)
- Agachamento (amplitude confortável)
- Leg Press
- Elevação Pélvica (Hip Thrust e Glute Bridge)
- Abdução e Adução de Quadril
- Prancha e variações para Core
- Exercícios de propriocepção e controle neuromuscular
Respiração diafragmática
Um componente frequentemente negligenciado mas importante: exercícios de respiração diafragmática (Herbst et al., 2021).
A respiração profunda com o diafragma cria diferenças de pressão entre tórax e abdome que estimulam o ducto torácico — o maior vaso linfático do corpo. Além disso, ativa o sistema nervoso parassimpático, auxiliando no manejo do estresse e da dor.
Orientar a aluna a incorporar respiração diafragmática:
- Durante o aquecimento e volta à calma
- Entre séries de exercícios
- Como prática diária independente (5-10 minutos)
Compressão durante o exercício
A evidência apoia fortemente o uso de meias ou leggings de compressão durante treinos em terra (Czerwińska et al., 2024).
Recomendações por estágio
| Estágio | Recomendação de Compressão |
|---|---|
| I | Micro-malha (10-20 mmHg) conforme necessidade |
| II | CCL I ou II conforme tolerância |
| III | CCL I ou II, possivelmente em camadas |
| IV (lipolinfedema) | Individualizada conforme apresentação |
Ponto importante: compressão mais alta não significa necessariamente melhor resultado. A tolerabilidade é o fator determinante para adesão. Uma compressão moderada que a aluna consegue usar consistentemente é melhor que uma compressão alta que ela abandona por desconforto.
Para exercícios aquáticos, a compressão não é necessária — a pressão hidrostática da água já cumpre essa função.
Manejo da dor: parte essencial da prescrição
O estudo de Ketterer et al. (2023) com 511 mulheres trouxe um insight crucial: a dor interfere no potencial benéfico da atividade física (Ketterer et al., 2023).
Isso significa que mesmo quando a mulher consegue se exercitar, se a dor não está adequadamente manejada, os benefícios psicológicos do exercício ficam comprometidos.
Implicações práticas
Manejar a dor É parte da prescrição de exercício, não algo separado
Começar mais conservador — intensidades e volumes baixos inicialmente, progredindo conforme tolerância
Priorizar atividades aquáticas nas fases de mais dor — menor desconforto permite maior volume de trabalho
Usar compressão — ajuda a reduzir dor durante e após o treino
Monitorar a resposta subjetiva — a percepção de esforço e dor da aluna deve guiar a progressão
Coordenar com outros profissionais — em casos mais severos, o trabalho conjunto com fisioterapeuta especializado em drenagem linfática manual pode ser necessário antes de progredir o treino
Como usar o monitoramento no Treino AI
O acompanhamento da Percepção Subjetiva de Esforço (PSE) e das Repetições em Reserva (RIR) que a aluna reporta no aplicativo é especialmente valioso nessa população.
Diferente de alunas sem lipedema, onde podemos prescrever baseado principalmente em carga e volume, aqui a resposta subjetiva ganha peso adicional. Uma PSE consistentemente alta ou RIR muito baixo pode indicar que a dor está limitando o desempenho — sinal para ajustar a prescrição, mesmo que os pesos sejam "leves" em termos absolutos.
O profissional deve avaliar padrões ao longo do tempo: se a aluna reporta PSE alta mesmo em sessões de baixa intensidade, pode ser necessário:
- Reduzir volume ou frequência
- Aumentar proporção de treino aquático
- Verificar se a compressão está adequada
- Sugerir avaliação com profissional de saúde para manejo adicional da dor
Cuidados e precauções especiais
Hipermobilidade articular
Aproximadamente 50% das mulheres com lipedema apresentam hipermobilidade articular, avaliável pelo escore de Beighton (Herbst et al., 2021).
Implicações para o treino:
- Evitar hiperextensão de joelhos e cotovelos
- Priorizar controle neuromuscular sobre amplitude máxima
- Fortalecer estabilizadores articulares
- Cuidado com exercícios de impacto e mudanças bruscas de direção
- Progressão mais lenta em exercícios que desafiam estabilidade
Doença venosa concomitante
25-50% das mulheres com lipedema apresentam doença venosa crônica concomitante. Se houver sinais de insuficiência venosa (varizes, edema vespertino acentuado, alterações de pele), encaminhar para avaliação médica com duplex venoso antes de intensificar o treino (Forner-Cordero et al., 2021).
Contraindicações absolutas
O exercício está contraindicado em:
- Trombose venosa profunda aguda
- Infecção ativa ou celulite
- Doença arterial periférica grave
- Malignidade ativa
IMC muito elevado
Para mulheres com IMC > 50 kg/m², o treino aquático é especialmente indicado pela redução de carga articular. A progressão para atividades em terra deve ser mais gradual e cuidadosa.
Aspectos psicológicos: a abordagem importa
Dada a prevalência de depressão (18-35%), ansiedade (18-42%) e histórico de transtornos alimentares (74%) nessa população, a forma como você se comunica e conduz o treino faz diferença significativa (Dudek et al., 2018).
Não culpabilizar
Muitas dessas mulheres passaram anos sendo culpadas por "não se esforçarem o suficiente". Evite qualquer linguagem que sugira que o problema é falta de esforço ou disciplina.
Definir sucesso de forma adequada
Sucesso não é perder a gordura do lipedema. Sucesso é:
- Reduzir dor
- Ganhar força
- Melhorar capacidade funcional
- Aumentar qualidade de vida
- Manter consistência a longo prazo
Celebrar progressos funcionais
Valorize conquistas como:
- "Consegui subir as escadas com menos cansaço"
- "A dor no final do dia diminuiu"
- "Estou conseguindo caminhar mais longe"
- "Durmo melhor"
O exercício como intervenção de saúde mental
Um dado importante: estudos mostram que atividade física regular oferece benefícios psicológicos comparáveis a antidepressivos para casos de depressão leve a moderada (Dunn et al., 2005). Para suas alunas com lipedema, o exercício não é apenas ferramenta física — é intervenção de saúde mental.
Resumo: pontos-chave para a prática
Lipedema é uma doença, não "só gordura que a pessoa não consegue perder". Afeta até 11% das mulheres e tem fisiopatologia própria.
O exercício não reduz a gordura do lipedema, mas produz benefícios terapêuticos importantes: melhora dor, função linfática, força, inflamação e qualidade de vida.
O músculo funciona como bomba para o sistema linfático — cada contração muscular auxilia a drenagem.
Atividades aquáticas são primeira linha pela pressão hidrostática natural, redução de impacto e deslocamento de fluido.
Treino multimodal (aeróbico + força + flexibilidade) é o formato mais estudado e eficaz.
Compressão durante o treino em terra melhora resultados — a tolerabilidade determina a adesão.
Manejar a dor é parte da prescrição — dor não controlada compromete os benefícios do exercício.
50% têm hipermobilidade articular — evitar hiperextensões e priorizar controle neuromuscular.
O impacto psicológico é significativo — abordagem empática e expectativas calibradas fazem diferença.
Monitore a resposta subjetiva — PSE e RIR no aplicativo são ferramentas valiosas para ajustar a prescrição.
Conclusão
O lipedema deixou de ser uma condição para a qual "não há nada a fazer com exercício". O Consenso Italiano de 2024 cristaliza o que a evidência já mostrava: o exercício físico é ferramenta terapêutica central no manejo do lipedema, com benefícios que operam independentemente da redução de gordura.
Para o profissional de Educação Física, isso significa uma oportunidade de fazer diferença real na vida de mulheres que frequentemente foram mal orientadas ou ignoradas pelo sistema de saúde. Com conhecimento técnico adequado, prescrição baseada em evidências e abordagem empática, é possível ajudar essas alunas a reduzirem dor, ganharem força, melhorarem função e recuperarem qualidade de vida.
A chave está em calibrar expectativas — tanto as suas quanto as da aluna — e definir sucesso pelos marcadores que realmente importam: funcionalidade, sintomas e bem-estar, não o número na balança ou a circunferência das coxas.
Referências
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