Muitas mulheres têm buscado um padrão de beleza parecido com modelos de passarela — geralmente altas e super magras. E isso, por si só, não é necessariamente um problema. O percentual de gordura isoladamente não pode predizer a saúde de uma mulher.
Inclusive, a crença antiga de que mulheres não devem ter um percentual de gordura abaixo de 15% não se sustenta quando olhamos para os dados científicos. Os estudos de Anne Loucks na Universidade de Ohio mostraram que atletas amenorreicas e com ciclos normais compartilham a mesma faixa de composição corporal — tornando o percentual de gordura um preditor fraco de problemas hormonais.
No entanto, o que ela descobriu nos faz refletir sobre o que acontece quando mulheres que não têm esse biotipo naturalmente tentam forçar o corpo a chegar lá.
A Diferença que Muda Tudo
Uma coisa é a mulher que já tem esse biotipo e não faz tanto esforço para se manter assim. Outra, completamente diferente, é a menina nova que está em restrição calórica severa, se exercitando em excesso e, em alguns casos, fazendo uso de medicamentos como as "canetas" para emagrecer.
No primeiro caso, o corpo funciona em equilíbrio. No segundo, fica claro que essa mulher está em déficit energético crônico — e aí o cenário muda completamente de figura.
Foi exatamente isso que Loucks investigou. Em vez de olhar para gordura corporal, ela calculou a "disponibilidade energética" — definida como a energia que sobra para as funções fisiológicas depois de subtrair o gasto com exercício.
A fórmula é simples: você pega a ingestão calórica total, subtrai as calorias gastas no treino, e divide pela massa magra. O resultado, expresso em quilocalorias por quilo de massa magra por dia, representa a energia disponível para o corpo manter suas funções básicas — digestão, termorregulação, função imune, reparo tecidual e, crucialmente, reprodução.
O que Loucks e Thuma descobriram em 2003 foi revelador. Quando a disponibilidade energética cai abaixo de aproximadamente 30 kcal/kg de massa magra por dia, o corpo começa a fazer escolhas. E a primeira função a ser sacrificada é justamente a reprodutiva. Não porque a mulher tenha pouca gordura, mas porque não há energia suficiente para sustentar um sistema que, do ponto de vista evolutivo, é dispensável para a sobrevivência imediata.
O mais interessante é que essa supressão acontece independentemente de como o déficit foi criado. Pode ser por excesso de exercício, por restrição alimentar severa, pelo uso de medicamentos que suprimem o apetite, ou pela combinação de tudo isso. O corpo não distingue a origem — ele apenas responde à escassez.
O Que é REDs e Por Que Você Precisa Conhecer
Em 2014, o Comitê Olímpico Internacional formalizou um conceito que expandiu significativamente nossa compreensão do problema. A Deficiência Energética Relativa no Esporte — ou REDs, na sigla em inglês — descreve uma síndrome que vai muito além da menstruação interrompida.
A versão mais recente do consenso, publicada em 2023, deixa claro que a baixa disponibilidade energética pode afetar praticamente todos os sistemas do corpo. O metabolismo desacelera, com queda nos hormônios tireoidianos. A função cardiovascular se altera, com mudanças no perfil lipídico e na função endotelial. O sistema imune fica comprometido, aumentando a susceptibilidade a infecções. A saúde mental sofre, com maior prevalência de ansiedade e sintomas depressivos. E os ossos, privados tanto de estrogênio quanto de estímulos adequados de formação, começam a perder densidade.
O ponto crucial aqui é que REDs não é um problema exclusivo de atletas de elite nem de mulheres com percentuais de gordura extremamente baixos. Uma mulher com 22% de gordura corporal que treina intensamente e come de forma insuficiente pode desenvolver todos os sintomas da síndrome. Ao mesmo tempo, uma atleta com 15% de gordura que se alimenta adequadamente pode manter ciclos menstruais perfeitamente regulares e ossos saudáveis.
É por isso que o diagnóstico de REDs não se baseia em composição corporal. Os sinais de alerta são outros: menstruação irregular ou ausente, fadiga persistente, lesões recorrentes, queda de desempenho inexplicada, alterações de humor, dificuldade de concentração e infecções frequentes.
O Que Observar na Prática
Para profissionais que trabalham com mulheres em idade reprodutiva, especialmente aquelas que treinam com alguma intensidade ou buscam composições corporais mais enxutas, alguns sinais merecem atenção.
O ciclo menstrual é o indicador mais acessível. Ciclos que se alongam progressivamente, que se tornam irregulares ou que desaparecem completamente são sinais de alerta. Não é normal perder a menstruação por causa do treino ou da dieta, e essa normalização precisa ser combatida.
A fadiga desproporcional ao estímulo de treino, a dificuldade de recuperação, as lesões recorrentes — especialmente fraturas por estresse — e a queda inexplicada de desempenho são outros marcadores importantes. Mudanças de humor, dificuldade de concentração e aumento da frequência de infecções completam o quadro.
Quando esses sinais aparecem, a resposta não é necessariamente reduzir o treino. É, antes de tudo, avaliar se a ingestão energética está adequada para sustentar o nível de atividade praticado. Muitas vezes, o problema se resolve com ajustes alimentares que não exigem nenhuma mudança na rotina de exercícios.
A Mensagem Central
O risco da magreza excessiva em mulheres jovens é real, mas a forma como costumamos enquadrar esse risco está equivocada. Não existe um percentual de gordura mágico abaixo do qual os problemas começam e acima do qual tudo está garantido.
O que existe é um balanço energético que precisa ser respeitado. O corpo feminino, moldado por milhões de anos de evolução, é extremamente sensível a sinais de escassez. Quando percebe que não há energia suficiente para todas as funções, ele faz escolhas — e a reprodução é a primeira a ser sacrificada.
Para mulheres entre 20 e 30 anos, essa é uma informação especialmente relevante. É nessa fase que os ossos atingem sua densidade máxima, que a saúde metabólica se consolida e que as bases para décadas futuras são estabelecidas. Comprometer esse período por falta de combustível adequado pode ter consequências que se estendem por toda a vida.
A boa notícia é que, na maioria dos casos, a intervenção precoce permite recuperação completa. O corpo quer funcionar bem — ele só precisa dos recursos para isso. E garantir esses recursos não significa abandonar objetivos estéticos ou de desempenho. Significa apenas ser inteligente o suficiente para não sacrificar a saúde de longo prazo por resultados de curto prazo.
Referências
Loucks AB, Thuma JR. Luteinizing hormone pulsatility is disrupted at a threshold of energy availability in regularly menstruating women. J Clin Endocrinol Metab. 2003;88(1):297-311. https://doi.org/10.1210/jc.2002-020369
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