Reganho de Peso após uso das "Canetas Emagrecedoras": Como o Personal deve lidar com isso?

Uma recente revisão sistemática mostrou que quem interrompe o uso de medicamentos como Mounjaro e Ozempic recupera peso três a quatro vezes mais rápido do que quem emagrece com dieta e exercício. Para o profissional de Educação Física, esse dado reforça algo fundamental: medicamento não substitui mudança de estilo de vida — e nosso papel nunca foi tão relevante.

por Rafa Lund8 min de leitura
Reganho de Peso após uso das "Canetas Emagrecedoras": Como o Personal deve lidar com isso?
Sumario

O estudo que está gerando discussão

Uma revisão sistemática recém-publicada no BMJ, um dos periódicos médicos mais respeitados do mundo, trouxe dados concretos sobre algo que muitos profissionais já suspeitavam: o que acontece com o peso das pessoas depois que elas param de usar medicamentos como semaglutida (Ozempic, Wegovy) e tirzepatida (Mounjaro).

Para quem não está familiarizado com o termo, uma revisão sistemática é um tipo de estudo que reúne e analisa todas as pesquisas disponíveis sobre um determinado tema. Não é a opinião de um pesquisador ou os resultados de um único experimento — é uma síntese rigorosa de tudo o que a ciência já produziu sobre aquela questão. E uma meta-análise vai além: combina os dados de todos esses estudos para chegar a estimativas mais precisas.

West et al. (2026) reuniram 37 estudos com mais de 9.000 participantes e avaliaram a trajetória do peso corporal após a interrupção de medicamentos para obesidade. Os achados são relevantes para qualquer profissional que trabalha com emagrecimento.


Os números principais

Em média, após parar os medicamentos, as pessoas recuperam 0,4 kg por mês. Pode parecer pouco à primeira vista, mas faça a conta: são quase 5 kg em um ano. A projeção dos pesquisadores é que, seguindo essa trajetória, a maioria das pessoas retorna ao peso inicial em aproximadamente 1,7 ano.

Para os incretínicos mais novos e mais potentes — semaglutida e tirzepatida — o cenário é ainda mais acelerado. Esses medicamentos promovem perdas de peso impressionantes durante o uso, frequentemente na faixa de 15 a 20% do peso corporal. Porém, o reganho após a cessação também é mais rápido: 0,8 kg por mês, com projeção de retorno ao peso inicial em cerca de 1,5 ano.

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É importante contextualizar: esses medicamentos funcionam. Funcionam muito bem, aliás, enquanto estão sendo utilizados. A questão que o estudo levanta não é sobre eficácia durante o tratamento, mas sobre o que acontece depois.


A comparação que importa

O dado mais relevante dessa revisão, na minha visão, é a comparação entre medicamentos e programas comportamentais — aqueles baseados em mudança de dieta e aumento de atividade física.

Os pesquisadores utilizaram dados de uma revisão sistemática anterior que avaliou o reganho de peso após programas de mudança de comportamento. Quando colocaram os dois lado a lado, o resultado foi claro: quem para o medicamento recupera peso três vezes mais rápido do que quem termina um programa de dieta e exercício.

E aqui está o ponto crucial: essa diferença se mantém mesmo quando você controla pela quantidade de peso perdido inicialmente. Ou seja, não é simplesmente porque perdeu mais que reganha mais rápido. O mecanismo parece ser diferente.

Após um programa comportamental, a taxa de reganho é de aproximadamente 0,1 kg por mês. Após medicamentos, 0,4 kg por mês. A projeção de retorno ao peso inicial após programas comportamentais é de quase 4 anos — mais que o dobro do tempo comparado aos medicamentos.


Não é só o peso

O estudo também avaliou marcadores cardiometabólicos: hemoglobina glicada (HbA1c), glicemia de jejum, pressão arterial sistólica e diastólica, colesterol total e triglicerídeos. Todos esses parâmetros melhoram durante o uso dos medicamentos — isso está bem estabelecido na literatura.

O problema é que, após a cessação do tratamento, todos esses marcadores também voltam aos níveis iniciais. A projeção é de retorno ao baseline em pouco mais de um ano. Os benefícios metabólicos conquistados durante o tratamento não se sustentam se o medicamento for interrompido sem outras mudanças.


O elefante na sala

Existe uma discussão importante que esse estudo traz à tona, mas que raramente é feita de forma honesta: a obesidade é uma doença crônica.

Quando você para de tratar qualquer condição crônica, ela tende a voltar. Ninguém publica uma revisão sistemática mostrando que a pressão arterial sobe quando você para o anti-hipertensivo, ou que a glicemia piora quando o diabético abandona a metformina. Isso é esperado e faz parte da natureza dessas condições.

Com a obesidade não é diferente. Os medicamentos atuam em mecanismos fisiológicos — reduzem fome, aumentam saciedade, modificam a forma como o corpo regula o peso. Quando você remove essa intervenção, os mecanismos voltam a operar como antes.

Isso não significa que os medicamentos "não funcionam" ou são "ruins". Significa que eles são tratamentos, não curas. Para quem tem indicação clínica real — pessoas com obesidade, especialmente aquelas com comorbidades — esses medicamentos podem ser ferramentas transformadoras. Mas precisam ser entendidos como tratamento contínuo, não como ciclos temporários de emagrecimento.


O que o estudo não mostra (mas precisamos considerar)

Há um ponto que essa revisão sistemática não avalia diretamente, mas que é extremamente relevante para nós que trabalhamos com exercício: a composição corporal.

O estudo mede peso total. Não diferencia quanto desse peso é massa magra e quanto é gordura. E aqui entra um fenômeno bem documentado na literatura sobre ciclos de perda e reganho de peso: quando você perde peso de forma rápida e depois reganha, a tendência é recuperar gordura numa velocidade maior do que recupera músculo.

Na prática, isso significa o seguinte: uma pessoa perde 8 kg, sendo talvez 6 kg de gordura e 2 kg de músculo. Quando reganha os 8 kg, pode estar ganhando 7 kg de gordura e apenas 1 kg de músculo. Voltou para o mesmo número na balança, mas com uma composição corporal pior — proporcionalmente menos músculo e mais gordura.

Repita esse ciclo algumas vezes e você tem uma deterioração progressiva da composição corporal. Isso impacta metabolismo basal, impacta capacidade funcional, impacta saúde metabólica, impacta qualidade de vida. O famoso "efeito sanfona" não é apenas frustrante do ponto de vista estético — é genuinamente prejudicial à saúde.


O que isso significa para o personal trainer

Se você é profissional de Educação Física, esse estudo reforça algo que deveria ser central na sua atuação: medicamento não substitui mudança de estilo de vida.

Isso não significa ser contra os medicamentos. Eles têm indicação clara para uma parcela da população e podem ser a diferença entre conseguir ou não iniciar um processo de mudança. Muitas pessoas com obesidade severa têm dificuldade extrema em aderir a programas de exercício e alimentação sem algum suporte farmacológico inicial. Os incretínicos podem ser a ponte que permite que essas pessoas comecem a se mover, comecem a comer melhor, comecem a construir hábitos.

O problema é o uso indiscriminado. Pessoas sem indicação clínica, sem acompanhamento médico adequado, querendo perder dois ou três quilos. Pessoas com peso absolutamente normal buscando um atalho. Esse cenário, que temos visto com frequência crescente, é preocupante.

Para essas pessoas, o ciclo é previsível: perdem peso rápido enquanto usam o medicamento, param de usar (seja por custo, efeitos colaterais ou simplesmente porque "já chegaram no peso"), e recuperam tudo — potencialmente com uma composição corporal pior do que antes.


O papel insubstituível do exercício

O treino de força entra nessa equação de forma central. Durante qualquer processo de emagrecimento — com ou sem medicamento — o exercício resistido é a principal ferramenta para preservar massa muscular. Isso é bem estabelecido na literatura e faz diferença tanto durante a perda de peso quanto na manutenção posterior.

Para quem está usando medicamentos para obesidade, o treino de força deveria ser componente obrigatório do tratamento. Não opcional, não "se der tempo". Obrigatório. Porque a perda de peso induzida por esses medicamentos é substancial, e sem estímulo adequado, parte significativa dessa perda será de massa magra.

Para quem está no processo de manutenção após qualquer intervenção de emagrecimento, o exercício regular — especialmente o treino de força — é o que permite sustentar os resultados a longo prazo. Os dados dessa revisão mostram que programas comportamentais têm reganho mais lento. E programas comportamentais bem desenhados invariavelmente incluem exercício físico estruturado.


A mensagem prática

Os medicamentos para obesidade são ferramentas potentes para quem precisa delas. Funcionam enquanto estão sendo usados e podem ser o suporte necessário para que algumas pessoas consigam iniciar mudanças que de outra forma seriam inviáveis.

Mas não são atalhos. Não são ciclos temporários. E definitivamente não substituem a construção de hábitos sustentáveis de alimentação e exercício.

Para o personal trainer, isso significa que nosso trabalho nunca foi tão relevante. Somos nós que prescrevemos o exercício que preserva massa muscular durante o emagrecimento. Somos nós que ajudamos a construir a rotina que vai sustentar os resultados a longo prazo. Somos nós que acompanhamos, ajustamos, motivamos.

Medicamento sem mudança de hábito é receita para efeito sanfona turbinado. Exercício físico regular e alimentação adequada continuam sendo a linha de frente para saúde e longevidade. A ciência mais recente só reforça isso.


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Referência principal:

West S, Scragg J, Aveyard P, et al. Weight regain after cessation of medication for weight management: systematic review and meta-analysis. BMJ. 2026;392:e085304.