Sono e Menopausa: Fogachos, Insônia e o que o Personal Trainer Precisa Entender

Por que aproximadamente 60% das mulheres pós-menopausa têm insônia, como os sintomas vasomotores destroem o sono profundo, e o que a ciência diz sobre exercício, CBT-I e as novas abordagens não-hormonais.

por Rafa Lund22 min de leitura
Sono e Menopausa: Fogachos, Insônia e o que o Personal Trainer Precisa Entender
Sumario

Resumo para profissionais

  • Aproximadamente 60% das mulheres pós-menopausa apresentam insônia, com predominância de dificuldade de manutenção do sono (acordar várias vezes durante a noite).
  • Cerca de 70% têm sintomas vasomotores, causados pela hiperativação dos neurônios KNDy no hipotálamo após a queda do estrogênio. Cada onda de calor noturna fragmenta o sono e suprime estágios profundos.
  • Mulheres com sintomas persistentes de insônia na meia-idade têm 71% mais risco cardiovascular subsequente, conforme o estudo SWAN publicado em 2024 na Circulation.
  • A apneia obstrutiva do sono dobra de prevalência após a menopausa, com apresentação clínica frequentemente atípica em mulheres (mais fadiga e fragmentação, menos ronco escandaloso).
  • Treino de força três vezes por semana melhorou simultaneamente fogachos e qualidade do sono em RCT recente, posicionando o exercício como intervenção legítima nessa população. CBT-I segue como tratamento de primeira linha para insônia.

Introdução: o ciclo vicioso que ninguém quebra

A cliente de 52 anos chega para a avaliação relatando fadiga crônica. Acorda cansada todo dia, mesmo "dormindo" oito horas. Treina, mas não consegue progredir. Tenta emagrecer, mas a balança não anda. Quando o personal trainer pergunta sobre sono, a resposta vem com naturalidade: "Ah, eu acordo várias vezes à noite por causa do calor, mas é normal pra minha idade".

Não é normal. É frequente, mas não normal. E é tratável.

Esse cenário é a expressão clínica de um ciclo vicioso pouco compreendido na prática profissional. A queda de estrogênio na menopausa desencadeia ondas de calor que fragmentam o sono. O sono fragmentado piora humor, cognição e tolerância ao exercício. A piora da capacidade física reduz a aderência ao treino. A redução do treino piora composição corporal e saúde metabólica. Esse ciclo, quando não interrompido, impõe um custo de saúde que vai muito além do desconforto noturno.

Esse artigo aprofunda dois temas centrais para o personal trainer que atende mulheres em peri e pós-menopausa: os sintomas vasomotores (fogachos e sudorese noturna) e a insônia. Vamos cobrir a fisiopatologia, a magnitude do problema, as consequências de saúde, e principalmente as intervenções com evidência científica. O objetivo é dar ao profissional ferramentas concretas para reconhecer, ajustar a prescrição e, quando necessário, encaminhar.

Para uma visão mais ampla sobre o impacto do sono em saúde e treino, vale conhecer o artigo geral Sono, Saúde e Treino: o que a ciência diz sobre quantidade, qualidade e performance. Aqui o foco é a fase específica da vida feminina onde o sono se torna o maior gargalo.


Fisiopatologia: por que o estrogênio mexe com o sono

Para entender por que o sono desmorona na menopausa, é preciso entender o que o estrogênio fazia até ali. Esse hormônio não regula apenas o ciclo menstrual. Ele atua como modulador central de múltiplos sistemas que afetam diretamente o sono, incluindo o eixo do estresse, a termorregulação, a regulação do humor, e a arquitetura do próprio sono.

Pense no estrogênio como o maestro de uma orquestra. Quando o maestro está presente, os instrumentos tocam de forma sincronizada. Quando o maestro sai do palco, os músicos continuam tocando, mas cada um no seu tempo. O resultado audível é uma desorganização que se manifesta em fogachos, despertares, alterações de humor e queda na qualidade do sono profundo.

Conforme a revisão clínica de Baker et al. (2018), publicada nos Sleep Medicine Clinics, a transição menopáusica está associada a aumento de sintomas de insônia, especialmente dificuldade de manutenção do sono. A queda hormonal afeta a arquitetura interna do sono, reduzindo o tempo em estágios profundos (N3 e N4) e aumentando a fragmentação. Isso significa que mesmo quando a mulher reporta dormir oito horas, o sono que ela teve foi de qualidade muito inferior ao de uma mulher pré-menopáusica dormindo o mesmo tempo.

Proserpio et al. (2020), no Climacteric, descrevem o modelo dos 3 P para entender como a insônia se instala e perpetua nessa fase: fatores predisponentes (como histórico prévio de insônia e o próprio envelhecimento), fatores precipitantes (mudanças hormonais, sintomas vasomotores, distúrbios de humor) e fatores perpetuantes (modificações circadianas, comportamentos compensatórios, ansiedade sobre o sono). Esse modelo é útil porque ajuda a localizar onde intervir, em vez de tratar a insônia como uma entidade única.


Os fogachos: o que acontece no cérebro à noite

Aproximadamente 70% das mulheres na pós-menopausa apresentam sintomas vasomotores, segundo a síntese de Hachul et al. (2023) nos Sleep Medicine Clinics. A revisão de Stuenkel (2018) na Clinical Obstetrics and Gynecology já documentava que esses sintomas são a manifestação mais comum da transição e da pós-menopausa, contribuindo para distúrbios de sono e humor que comprometem o desempenho doméstico e profissional.

A ciência dos últimos anos esclareceu o mecanismo neurobiológico por trás dos fogachos, e essa compreensão muda a forma como tratamos o problema. A revisão recente de Meczekalski et al. (2025), publicada no Journal of Clinical Medicine, sintetiza o que se sabe hoje.

Existe um grupo de neurônios no hipotálamo chamado KNDy, sigla que se refere aos três neuropeptídeos que esses neurônios produzem: kisspeptina, neurokinina B e dinorfina. Esses neurônios funcionam como o "termostato" interno do corpo. Quando o estrogênio está em níveis adequados, ele atua como freio sobre os neurônios KNDy. Quando o estrogênio cai na menopausa, o freio é retirado e os neurônios KNDy entram em hiperatividade.

A consequência é que o termostato hipotalâmico fica instável. Pequenas variações de temperatura corporal, que antes eram corrigidas silenciosamente, agora disparam respostas exageradas: vasodilatação periférica, sudorese, aumento da frequência cardíaca. Isso é o fogacho.

À noite, esse mecanismo se torna particularmente disruptivo. Cada fogacho noturno produz um despertar (mesmo que a mulher não se lembre dele), suprime os estágios profundos do sono, e reduz a quantidade total de sono REM. O resultado é que a mulher pode estar 8 horas na cama, ter 7 horas de sono total, mas ter na verdade apenas 4-5 horas de sono efetivamente restaurador.

A descoberta da fisiopatologia KNDy abriu caminho para uma nova classe de medicamentos não-hormonais. O fezolinetant, aprovado pelo FDA em 2023, é um antagonista do receptor de neurokinina B (NK3R), que bloqueia diretamente o sinal hiperativo dos KNDy. Conforme detalhado por Cucinella et al. (2024) no Expert Opinion on Drug Metabolism & Toxicology, o medicamento mostrou eficácia em reduzir frequência e severidade dos fogachos, com impacto positivo na qualidade do sono e na qualidade de vida.

Esse contexto interessa ao personal trainer não porque ele vá prescrever o medicamento, mas porque ajuda a entender que o fogacho não é "frescura" nem "psicológico". É um fenômeno neuroendócrino com mecanismo definido, com tratamentos disponíveis, e com impacto mensurável sobre a capacidade da aluna de treinar e se recuperar.


A insônia da menopausa: prevalência e tipos

Hachul et al. (2023) cravam o número que precisa ser internalizado: insônia ocorre em quase 60% das mulheres pós-menopausa. Para contextualizar, a prevalência de insônia na população geral adulta gira em torno de 10-20%, e no período reprodutivo das mulheres fica em aproximadamente 30%. A menopausa praticamente dobra a prevalência.

Mais importante que o número total é o tipo de insônia que predomina. Existem três padrões principais:

Tipo de insôniaManifestaçãoFrequência na menopausa
InicialDificuldade para pegar no sonoComum, mas não predominante
De manutençãoAcordar várias vezes durante a noiteMais comum nessa fase
TerminalAcordar muito antes do horário, sem conseguir voltar a dormirComum, especialmente quando associada a depressão

A predominância da insônia de manutenção tem implicação clínica direta: é exatamente esse padrão que os fogachos noturnos produzem. E é também o padrão que mais se associa a sintomas diurnos como fadiga, irritabilidade e dificuldade de concentração.

O estudo longitudinal de Kravitz et al. (2020), na revista Menopause, acompanhou mulheres do estudo SWAN por 15 anos. Os autores identificaram quatro trajetórias distintas de problemas de manutenção do sono ao longo do tempo. Cerca de 20% das mulheres apresentaram aumento progressivo desses problemas durante a transição menopáusica. Esse padrão tendeu a se manter estável após a menopausa, ou seja, a insônia que se instala não regride espontaneamente apenas pela passagem do tempo.

Esse é um ponto importante para a expectativa da aluna e para o aconselhamento do profissional. A mensagem comum de "isso vai passar" não corresponde à realidade dos dados. Sem intervenção, o problema tende a persistir.


Mais que desconforto: insônia como fator de risco cardiovascular

Aqui entra o achado mais impactante da literatura recente sobre o tema, e o que mais reposiciona a urgência clínica de tratar a insônia menopáusica. O estudo de Thurston et al. (2024), publicado na Circulation, é parte do acompanhamento de longo prazo do estudo SWAN, com quase 3.000 mulheres seguidas por até 22 anos.

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Mulheres com sintomas persistentemente altos de insônia ao longo da meia-idade tiveram risco cardiovascular significativamente elevado em comparação com mulheres com poucos sintomas.*

Os pesquisadores identificaram quatro trajetórias de sintomas de insônia ao longo da meia-idade:

  • Baixos sintomas persistentes (39% das mulheres)
  • Sintomas moderados que diminuíram ao longo do tempo (19%)
  • Sintomas baixos que aumentaram ao longo do tempo (20%)
  • Sintomas altos persistentes (23%)

O dado central: mulheres com sintomas persistentemente altos de insômnia tiveram 71% mais risco de eventos cardiovasculares subsequentes (infarto, AVC, insuficiência cardíaca, revascularização) em comparação com mulheres com baixos sintomas. Esse aumento se manteve mesmo após ajuste para sintomas vasomotores, ronco e sintomas depressivos, indicando que a insônia em si é um fator de risco independente.

E mais: mulheres que combinavam insônia persistente com sono curto crônico (cerca de 5 horas) tiveram risco 75% maior, em comparação com aquelas que tinham boa qualidade e duração moderada.

A interpretação prática é direta: tratar a insônia na menopausa não é apenas melhorar conforto noturno e disposição diurna. É uma intervenção de saúde cardiovascular com magnitude comparável a controlar pressão arterial ou colesterol. O personal trainer que reconhece esse padrão e orienta a aluna a buscar tratamento adequado está, de fato, fazendo prevenção primária de eventos cardiovasculares.


Apneia obstrutiva do sono: o diagnóstico que ninguém faz

Se a insônia é a queixa que a maioria das mulheres reconhece, a apneia obstrutiva do sono (AOS) é o diagnóstico que muitas têm sem saber. A revisão de Schwarz e Schiza (2024), publicada na Current Opinion in Pulmonary Medicine, sintetiza o que a ciência atual estabelece sobre diferenças sexuais em distúrbios respiratórios do sono.

Antes da menopausa, a AOS é cerca de duas a três vezes mais comum em homens do que em mulheres. Isso muda drasticamente após a menopausa: a prevalência feminina dobra, igualando-se à dos homens. Os mecanismos propostos incluem perda do efeito protetor da progesterona sobre a musculatura da via aérea superior, redistribuição de gordura para região cervical, e mudanças na estrutura craniofacial.

O problema clínico é que a AOS em mulheres pós-menopausa frequentemente não se apresenta com o perfil clássico que médicos aprendem na faculdade (homem obeso de meia-idade, ronco escandaloso, apneias presenciadas pelo cônjuge). Em mulheres, os sintomas tendem a ser mais sutis: fragmentação do sono, fadiga crônica, sono não reparador, dificuldade de concentração, sintomas que se confundem com insônia ou com sintomas menopáusicos comuns.

Schwarz e Schiza descrevem que mulheres têm menor colapsibilidade da via aérea superior e menor limiar de despertar. O índice apneia-hipopneia (AHI) durante o sono REM é tipicamente maior em mulheres, mas o AHI total costuma ser menor. Mulheres frequentemente apresentam sintomas em valores de AHI que seriam considerados leves nos critérios estabelecidos para homens.

Heinzer et al. (2018), no estudo populacional HypnoLaus na Sleep Medicine, documentou que apneia posicional é particularmente comum em mulheres pós-menopausa, com mecanismos distintos influenciando a apresentação clínica.

A implicação para o personal trainer: alunas pós-menopausa que se queixam de fadiga desproporcional ao volume de treino, sonolência diurna, ou sensação de "não recuperar nunca", merecem ser orientadas a discutir o tema com seu médico ginecologista ou clínico geral, com pedido específico para investigação de distúrbios respiratórios do sono. Um polissonograma pode mudar completamente o curso clínico dessa aluna.


Tratamentos: o que funciona e o que não funciona

A boa notícia é que existem múltiplas opções terapêuticas com evidência sólida. A má notícia é que nem todas são amplamente conhecidas ou prescritas no Brasil. Caretto et al. (2019) na revista Maturitas propõem uma abordagem integrada para o manejo de distúrbios do sono em mulheres menopáusicas, organizando os tratamentos por causa subjacente. Vale conhecer cada categoria.

Terapia hormonal: eficaz quando há sintomas vasomotores

A terapia hormonal melhora distúrbios subjetivos do sono, particularmente quando os sintomas vasomotores estão presentes. Esse padrão é consistente em múltiplas revisões, incluindo Baker et al. (2018) e Stuenkel (2018). O mecanismo é direto: ao restaurar parcialmente o ambiente hormonal, a terapia reduz a frequência e a severidade dos fogachos, eliminando a principal causa dos despertares noturnos.

A decisão sobre terapia hormonal envolve avaliação individualizada de risco-benefício e é responsabilidade do médico ginecologista. O papel do personal trainer é reconhecer quando os sintomas estão impactando significativamente o sono e a qualidade de vida da aluna, e estimular a conversa com o profissional médico, sem prescrever ou desaconselhar opções terapêuticas.

CBT-I: o tratamento de primeira linha para insônia

A terapia cognitivo-comportamental para insônia, conhecida pela sigla CBT-I, é hoje o tratamento de primeira linha mundialmente reconhecido para insônia crônica. Não é uma terapia genérica de "conversa": é um protocolo estruturado, geralmente em quatro a seis sessões, que combina restrição de sono, controle de estímulos, reestruturação cognitiva sobre crenças disfuncionais relacionadas ao sono, e técnicas de relaxamento.

A revisão de Carmona et al. (2022) na Behavioral Sleep Medicine confirmou a eficácia da CBT-I em mulheres peri e pós-menopausa, com melhorias paralelas em humor, desfechos funcionais e crenças disfuncionais sobre o sono. Hunter (2020) no Climacteric documenta que abordagens cognitivo-comportamentais são também eficazes para reduzir o impacto dos sintomas vasomotores e melhorar qualidade de vida.

Um achado particularmente relevante para a realidade brasileira é o RCT de Abdelaziz et al. (2021), publicado em Perspectives in Psychiatric Care, que demonstrou eficácia da CBT-I baseada em internet em mulheres menopáusicas. As participantes do grupo intervenção apresentaram reduções significativas na pontuação de qualidade do sono e severidade da insônia, com aumento do tempo total de sono e da eficiência do sono. O formato online torna a terapia acessível mesmo onde não há psicólogos especializados disponíveis localmente.

Apesar dessa robusta base de evidência, a CBT-I segue subutilizada na prática clínica brasileira. Médicos prescrevem hipnóticos com frequência, e raramente encaminham para CBT-I. O personal trainer informado pode ser o primeiro profissional a sugerir essa via à aluna, abrindo uma janela terapêutica que talvez não fosse aberta de outra forma.

Antagonistas NK3R: a nova fronteira não-hormonal

Para mulheres com contraindicação ou recusa à terapia hormonal, o cenário até recentemente era limitado. Antidepressivos como paroxetina e venlafaxina ofereciam alguma redução nos fogachos, mas com perfil de efeitos colaterais que limitava a aceitação.

A aprovação do fezolinetant pelo FDA em 2023, e mais recentemente o elinzanetant (antagonista duplo NK1/NK3) com resultados promissores nos estudos OASIS, mudou o panorama. Conforme Meczekalski et al. (2025), esses medicamentos atuam diretamente sobre o mecanismo dos KNDy, restaurando o equilíbrio que o estrogênio mantinha. O elinzanetant especificamente parece ter benefício adicional sobre o sono, possivelmente por sua ação dupla sobre receptores NK1 e NK3.

Essas medicações ainda estão em fase de incorporação no Brasil e devem ser discutidas com o ginecologista. Mas o personal trainer que conhece sua existência consegue dar à aluna um caminho concreto de pergunta para a próxima consulta médica.

Higiene do sono: básico que ajuda mas não basta

Estratégias clássicas de higiene do sono têm impacto modesto isoladamente, mas potencializam outras intervenções. As recomendações com melhor evidência incluem:

Manter horários consistentes de dormir e acordar, inclusive nos fins de semana. Esse é um dos pilares da CBT-I e tem efeito mensurável sobre o ritmo circadiano.

Manter o quarto fresco. Para mulheres com fogachos, isso é particularmente relevante. Temperatura ambiente entre 18 e 20 graus Celsius é ideal.

Limitar cafeína a partir do início da tarde. Conforme cobrimos no artigo geral de sono, café deve ser interrompido pelo menos 9 horas antes de dormir, e pré-treino com cafeína 13 horas antes.

Exposição matinal à luz natural, que ajuda a regular a melatonina e o ritmo circadiano.

Evitar refeições muito pesadas próximas ao horário de dormir, especialmente em quem já tem ondas de calor noturnas.


Exercício como intervenção: o RCT que muda o jogo

Aqui está o achado que mais empodera o personal trainer no manejo dessa população. O ensaio clínico randomizado de Berin et al. (2021), publicado no Climacteric, testou diretamente o efeito do treino de força sobre sintomas vasomotores e qualidade do sono em mulheres pós-menopausa.

O protocolo foi simples e replicável: 65 mulheres pós-menopáusicas com mais de 45 anos e sintomas vasomotores diários foram randomizadas para 15 semanas de treino de força três vezes por semana ou um grupo controle sem intervenção. A avaliação usou o Women's Health Questionnaire (WHQ) e o SF-36 antes e depois.

Os resultados:

DomínioTreino de forçaControle
Sintomas vasomotoresMelhora significativa (p=0,002)Sem mudança
Problemas de sonoMelhora significativa (p=0,003)Sem mudança
Sintomas menstruais residuaisMelhora significativa (p=0,01)Sem mudança

O treino resistido melhorou simultaneamente os fogachos e o sono. Esse é um achado clinicamente potente porque mostra que a mesma intervenção que o personal trainer já oferece para benefícios musculoesqueléticos, metabólicos e cognitivos também ataca diretamente os dois sintomas que mais comprometem a qualidade de vida nessa fase.

Os mecanismos propostos para o efeito do treino sobre sintomas vasomotores incluem melhoria na termorregulação, redução na hiperatividade simpática, aumento de beta-endorfinas e efeitos sobre os mesmos sistemas neuroendócrinos envolvidos nos KNDy. Para o sono, somam-se a melhor regulação circadiana induzida pelo exercício regular, a redução do estresse percebido, e a melhoria na composição corporal que reduz fatores de risco para apneia obstrutiva.

A magnitude do efeito não é trivial. Em uma população onde aproximadamente 70% têm sintomas vasomotores e 60% têm insônia, oferecer um protocolo de treino de força três vezes por semana é uma intervenção de saúde com impacto clínico mensurável.


Implicações para a prescrição

Sintetizando essa literatura em conduta prática, algumas heurísticas emergem para o personal trainer que atende essa população.

Pergunte sobre sono e fogachos em toda avaliação inicial e em check-ins regulares. Use perguntas diretas: "Você acorda durante a noite por causa de calor ou suor?" e "Quantas vezes na semana você acorda sentindo que não descansou?" são mais úteis do que perguntas vagas como "você dorme bem?".

Reconheça os sinais de alerta para apneia obstrutiva: fadiga desproporcional ao treino, sonolência diurna, sensação de "não recuperar nunca", ronco reportado pelo cônjuge, e cefaleia matinal. Quando presentes, oriente a aluna a discutir com seu médico a possibilidade de polissonograma.

Ofereça treino de força com regularidade adequada. Os dados de Berin et al. (2021) usaram três sessões semanais por 15 semanas. Esse é o protocolo mínimo para esperar efeito sobre sintomas vasomotores e sono. Reduzir a frequência abaixo disso provavelmente compromete o benefício.

Ajuste o treino conforme o sono da noite anterior. Em dias após noites de fogachos intensos ou sono fragmentado, reduza intensidade alvo em pelo menos um ponto de RPE. Mantenha o volume técnico, mas reduza carga e priorize qualidade de execução. Não force progressão em dia de recuperação comprometida.

Eduque sobre os tratamentos disponíveis. Muitas alunas não sabem que existe terapia cognitivo-comportamental para insônia, ou que há novos medicamentos não-hormonais para fogachos. Não cabe ao personal trainer prescrever, mas cabe orientar onde buscar ajuda informada.

Trabalhe a expectativa realista. A insônia da menopausa raramente regride espontaneamente. Sem intervenção, ela tende a persistir por anos. Esse conhecimento muda a urgência com que a aluna procura tratamento.

Para uma visão mais ampla sobre a prescrição de treino para essa fase da vida, vale conhecer também o artigo Treino de Força na Menopausa: o guia científico completo para mulheres que querem envelhecer com força e saúde, que cobre os fundamentos da prescrição musculoesquelética nessa população.


Por que prescrever para essa fase exige formação específica

A complexidade do quadro vasomotor e do sono na menopausa não é parte do currículo da maioria dos cursos de Educação Física. Manejar adequadamente essa população exige conhecimento que vai além da prescrição genérica de força e cardio: envolve compreender o terreno hormonal, reconhecer sinais de alerta, ajustar a prescrição ao estado de recuperação real, e construir uma comunicação efetiva com o médico ginecologista quando necessário.

O Método Lund foi desenhado exatamente para preencher esse gap. É a formação mais completa para personal trainers que querem se diferenciar pelo conhecimento aplicado a populações específicas, com aprofundamento clínico em temas como menopausa, ciclo menstrual, periodização para mulheres de 30 a 60 anos e prescrição baseada em evidência. O profissional formado pelo Método Lund consegue oferecer à aluna em transição menopáusica não apenas treino, mas um cuidado integrado que reconhece a complexidade da fase.


Perguntas frequentes

Por que tantas mulheres na menopausa têm insônia?

A queda do estrogênio na menopausa afeta múltiplos sistemas que regulam o sono: termorregulação (gerando fogachos), arquitetura do sono (reduzindo estágios profundos), regulação do humor (aumentando ansiedade e depressão) e estrutura da via aérea superior (aumentando risco de apneia). A combinação desses fatores faz a prevalência de insônia subir de aproximadamente 30% no período reprodutivo para perto de 60% após a menopausa.

O que são os fogachos exatamente?

Os fogachos são episódios súbitos de sensação de calor intenso, geralmente acompanhados de sudorese, vermelhidão facial e aceleração do coração. Eles são causados pela hiperativação dos neurônios KNDy no hipotálamo, que ficam sem o "freio" que o estrogênio normalmente exercia. À noite, cada fogacho produz um despertar e suprime estágios profundos do sono, mesmo quando a mulher não se lembra de ter acordado.

A insônia da menopausa passa sozinha?

Geralmente não. O estudo longitudinal SWAN, que acompanhou mulheres por mais de 15 anos, mostrou que aproximadamente 20% delas desenvolvem aumento progressivo de problemas de manutenção do sono durante a transição menopáusica, e esse padrão tende a persistir após a menopausa. Sem intervenção, a insônia se estabelece como condição crônica.

Treino de força ajuda com fogachos?

Sim. Um ensaio clínico randomizado publicado em 2021 mostrou que treino de força três vezes por semana durante 15 semanas melhorou significativamente tanto os sintomas vasomotores quanto a qualidade do sono em mulheres pós-menopausa com fogachos diários. O exercício resistido atua sobre múltiplos mecanismos: termorregulação, hiperatividade simpática e regulação circadiana.

Qual é o melhor tratamento para a insônia menopáusica?

A terapia cognitivo-comportamental para insônia (CBT-I) é considerada o tratamento de primeira linha. Quando os fogachos são a causa principal dos despertares, a terapia hormonal pode ser eficaz se não houver contraindicações. Para mulheres com contraindicação à terapia hormonal, antagonistas NK3R como o fezolinetant representam uma nova opção não-hormonal aprovada recentemente.

Insônia na menopausa pode aumentar risco cardiovascular?

Sim, e o impacto é maior do que muitos profissionais imaginam. Um estudo publicado em 2024 na revista Circulation, parte do estudo SWAN, mostrou que mulheres com sintomas persistentes de insônia ao longo da meia-idade tiveram 71% mais risco de eventos cardiovasculares subsequentes. A combinação de insônia persistente com sono curto crônico elevou o risco em 75%.

Mulheres pós-menopausa têm mais apneia do sono?

Sim. A prevalência de apneia obstrutiva do sono dobra após a menopausa, igualando-se à dos homens. Um diferencial importante é que, em mulheres, a apneia frequentemente se apresenta com sintomas atípicos, como fadiga crônica, fragmentação do sono e sensação de não descansar, sem o ronco escandaloso classicamente associado ao quadro nos homens. Por isso muitas mulheres têm o diagnóstico atrasado.

Quando devo encaminhar uma aluna para investigação médica?

Sinais que justificam encaminhamento incluem insônia crônica (mais de três meses), fadiga desproporcional ao volume de treino, sonolência diurna que interfere nas atividades, ronco frequente, cefaleia matinal recorrente, e sintomas vasomotores severos que comprometem o sono e a qualidade de vida. O encaminhamento deve ser feito ao médico ginecologista ou clínico geral, com sugestão de investigação para distúrbios do sono quando apropriado.


Referências

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Rafa Lund / Mestre em Ciências do Desporto | Fundador Grupo LUND