A gente cresce ouvindo que precisa fortalecer o que está fraco, que a dor vem da fraqueza, que pegar peso resolve porque deixa o músculo mais forte.
É uma explicação intuitiva e fácil de comunicar. O problema é que quando os pesquisadores foram investigar se os ganhos de força realmente explicam a melhora da dor, os resultados foram consistentemente decepcionantes.
A conclusão é: o exercício funciona, mas raramente porque as pessoas ficam mais fortes.
O que realmente está acontecendo
Se não é a força, o que explica a melhora? As análises de mediação identificaram outros fatores com evidência mais robusta: autoeficácia para dor, redução da catastrofização, diminuição da cinesiofobia (o medo de se movimentar), mudanças em biomarcadores inflamatórios, além de confiança, motivação e a própria relação terapêutica entre profissional e cliente.

Figura do estudo de Powell et al. (2025) mostrando os potenciais mecanismos pelos quais o exercício contribui para a redução da dor musculoesquelética.
Quando um cliente chega com dor no joelho ou na coluna, a primeira coisa que eu faço não é olhar só para o músculo ou a articulação. Eu tento entender o contexto completo: como está o sono, o estresse, a alimentação, as crenças sobre o próprio corpo, o medo de certos movimentos, a história de lesões anteriores. Tudo isso influencia a experiência de dor.
A analogia que eu gosto de usar é a do copo. Imagine que seu corpo tem uma capacidade de tolerar demandas, como um copo que pode ser enchido até um certo ponto. Dentro desse copo vão entrando fatores de risco: idade, lesões prévias, volume de treino, estresse, má qualidade de sono, déficit energético. Quando o copo transborda, você sente dor.
O interessante é que às vezes você não aumentou a demanda, você diminuiu a capacidade. Está dormindo mal, está sob muito estresse, entrou em dieta muito restritiva. A mesma carga de treino que antes era tranquila agora é demais.
O que o treinamento faz é aumentar o tamanho do copo. E esse aumento não vem só do ganho de força muscular. Vem da confiança de que você pode se movimentar sem quebrar, da redução do medo, da percepção de que seu corpo é capaz e resiliente.
Por que isso importa na prática
Os autores do editorial fazem um ponto importante sobre comunicação clínica. Quando a gente enfatiza que o objetivo é "ficar mais forte para parar de sentir dor", criamos um problema para aquele cliente que está melhorando da dor mas não está necessariamente mais forte nos testes. Ele pode se sentir frustrado, achar que não está evoluindo, quando na verdade os mecanismos de melhora estão funcionando perfeitamente, só que por outras vias.
Além disso, essa narrativa focada em força pode reforçar crenças negativas sobre fraqueza e fragilidade. O cliente começa a pensar "meu ombro dói porque é fraco", o que pode aumentar o medo e a proteção excessiva — justamente o oposto do que a gente quer.
Uma mensagem alternativa que eles sugerem é algo como:
"O exercício pode beneficiar muitas pessoas com dor musculoesquelética, mesmo quando os mecanismos variam ou permanecem incertos. Ao se manter ativo e desafiar gradativamente o corpo, o exercício ajuda você a se adaptar de formas que constroem confiança, reduzem a dor e melhoram a função. A chave é encontrar o tipo de exercício que funciona para você, seus objetivos, sua experiência e seus interesses."
Isso não significa abandonar o treino de força. Os próprios autores reconhecem que força importa para outros desfechos clínicos: independência funcional, risco de quedas em idosos, mortalidade por todas as causas, reabilitação de LCA. Mas precisamos separar as coisas. Força é um marcador de robustez física e saúde geral, não necessariamente o mecanismo pelo qual a dor diminui.
A mensagem final
Continue pegando peso. Continue buscando progressão de carga. Continue trabalhando força. Mas entenda que os benefícios do exercício vêm de um conjunto de mecanismos atuando juntos: ganho de confiança, redução do medo, melhor regulação do sistema de alarme de dor, adaptações metabólicas, além das adaptações físicas.
A força que você ganha é um sinal de que o corpo está ficando mais robusto e saudável, não necessariamente a razão pela qual a dor diminui.
Isso tira pressão de quem não está ganhando força mas está melhorando. Evita reforçar crenças de fragilidade. E nos coloca mais perto da verdade científica sobre como o exercício realmente funciona.
Referência
Powell J, Wood L, Cashin AG, Lewis JS. It is not all about strength: rethinking mechanistic assumptions in exercise-based rehabilitation for musculoskeletal pain relief. Br J Sports Med. 2025. doi:10.1136/bjsports-2025-110372
