Lipedema e Exercício: O que os Novos Estudos de 2026 Revelam

Dois estudos publicados em janeiro de 2026 reforçam: não existe protocolo de treino validado para lipedema. O que existe é treino bem prescrito, individualizado e baseado em evidência. Mas há boas notícias: mudanças no estilo de vida podem, sim, fazer diferença.

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Lipedema e Exercício: O que os Novos Estudos de 2026 Revelam
Sumario

Não existe treino específico para lipedema. E quem diz o contrário está extrapolando.

Em 2025, publicamos um artigo completo sobre lipedema e exercício, onde abordamos a fisiopatologia da condição, os mecanismos pelos quais o exercício beneficia essa população e as recomendações práticas de prescrição baseadas no Consenso Italiano de 2024 e nos estudos disponíveis até então. Se você ainda não leu, recomendo começar por lá — é a base para entender o que vamos discutir agora.

Agora, em janeiro de 2026, dois estudos de peso foram publicados e merecem nossa atenção. Eles reforçam o que já sabíamos, mas também trazem novidades importantes — incluindo um caso clínico que desafia o paradigma de que o lipedema é completamente resistente a mudanças no estilo de vida.


Os dois estudos de 2026

O primeiro é o Consenso Delphi da Lipedema World Alliance, publicado na Nature Communications (Kruppa et al., 2026). Trata-se de um trabalho robusto que reuniu especialistas de 19 países em múltiplas rodadas de votação para estabelecer 59 declarações de consenso sobre definição, diagnóstico e manejo do lipedema. É, até o momento, o documento de consenso internacional mais abrangente sobre a condição.

O segundo é um review brasileiro publicado no npj Metabolic Health and Disease, liderado por André Faria e colaboradores (Faria et al., 2026). O artigo faz uma revisão completa da literatura sobre epidemiologia, genética, alterações hormonais, histologia, diagnóstico e tratamento do lipedema, incluindo dieta, exercício, fisioterapia e cirurgia — e apresenta um caso clínico que merece atenção especial.


O que é um Consenso Delphi

Para quem não está familiarizado com metodologia científica, vale explicar o que significa um "Consenso Delphi". É um método estruturado para obter consenso entre especialistas sobre temas onde a evidência científica ainda é limitada ou controversa.

O processo funciona em rodadas. Primeiro, um grupo de especialistas responde a questionários de forma independente e anônima. As respostas são compiladas e devolvidas ao grupo, que então revisa suas opiniões à luz do que os colegas pensam. Esse ciclo se repete até que se alcance um nível aceitável de concordância.

No caso do consenso sobre lipedema, o processo foi rigoroso: começou com revisão de literatura e desenvolvimento de conceitos, passou por refinamento com o conselho diretor da Lipedema World Alliance, recrutou 103 membros fundadores, e conduziu três rodadas de avaliação online além de um encontro presencial no Lipedema World Congress em Potsdam. Na rodada final, 71 especialistas votaram nas declarações.

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Esse rigor metodológico é importante porque dá peso às conclusões. Quando 71 especialistas de 19 países concordam em algo após múltiplas rodadas de discussão, isso significa mais do que a opinião de um único autor.


Relembrando: Tipos e Estágios do Lipedema

Antes de entrar nas conclusões dos estudos, vale relembrar como o lipedema é classificado. Isso é fundamental para entender por que a prescrição precisa ser individualizada.

O lipedema é classificado de duas formas complementares: por localização (tipos) e por gravidade (estágios).

A classificação por localização indica onde a gordura se acumula predominantemente. O Tipo I afeta quadris e glúteos. O Tipo II vai dos quadris até os joelhos. O Tipo III, a forma mais comum, vai dos quadris até os tornozelos — com o característico "sinal do manguito", onde a gordura para abruptamente no tornozelo, poupando os pés. O Tipo IV afeta os braços. E o Tipo V acomete apenas as pernas abaixo dos joelhos.

Já a classificação por gravidade indica a progressão da doença. No Estágio I, a superfície da pele ainda é normal, mas há nódulos palpáveis no tecido subcutâneo. No Estágio II, a pele fica irregular com nódulos maiores e visíveis. No Estágio III, há grandes massas de tecido adiposo com deformidade significativa. E no Estágio IV, o lipedema está associado a linfedema secundário — o chamado lipolinfedema.

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Uma mulher pode ter qualquer combinação de tipo e estágio. Por exemplo: Tipo III (gordura dos quadris aos tornozelos), Estágio II (pele irregular com nódulos visíveis). Essa variabilidade é justamente o que torna impossível criar um "protocolo único" que funcione para todas.


O que os estudos dizem sobre exercício

Vamos direto ao ponto.

O consenso Delphi afirma que "exercícios adaptados, como atividade física na água, caminhada e yoga, podem ajudar a manter mobilidade, abordar sintomas relacionados ao lipedema e apoiar o controle de peso". Essa declaração atingiu 91,7% de concordância entre os especialistas. Parece um endosso forte, certo?

O problema está nos detalhes. O nível de evidência avaliado pelos próprios especialistas foi de apenas 56,7%, e 42,6% deles indicaram que evidências adicionais são necessárias. Ou seja: concordam que exercício provavelmente ajuda, mas reconhecem que a base científica ainda é fraca.

O review brasileiro é ainda mais direto. Faria et al. afirmam que "a base de evidência atual não suporta conclusões definitivas sobre os efeitos terapêuticos da atividade física nos sintomas do lipedema" e que "ensaios clínicos randomizados são necessários para estabelecer sua eficácia nesse contexto".

O único RCT citado especificamente sobre exercício em lipedema é o estudo de Atan & Bahar-Özdemir (2021), que já abordamos no artigo anterior. Foram apenas 22 mulheres, 6 semanas de intervenção, e as diferenças entre grupos não atingiram significância estatística. É o melhor que temos, mas está longe de ser conclusivo.


O caso que desafia o paradigma

Aqui vem a parte mais interessante do review brasileiro — e que merece destaque.

Faria et al. apresentam um caso clínico de uma mulher com lipedema que passou por 12 meses de intervenção intensiva no estilo de vida: dieta low-carb, eliminação de álcool, açúcar e ultraprocessados, combinada com atividade física regular. O resultado foi documentado com DEXA (densitometria de corpo inteiro) antes e depois.

Os números impressionam: perda de 20,9 kg de tecido gorduroso, sendo 11,7 kg nas pernas e 1,6 kg nos braços. Além da perda de gordura, houve melhora significativa na dor e na sensação de inchaço.

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Os autores são cautelosos ao interpretar esse achado. Afirmam que isso "desafia o paradigma atual de que todos os pacientes com lipedema são altamente resistentes à perda de gordura localizada". Não estão dizendo que lipedema responde igual à obesidade comum — estão dizendo que a resistência pode não ser absoluta em todos os casos.

Esse é um ponto crucial. Durante anos, muitas mulheres com lipedema ouviram que "não adianta fazer dieta e exercício porque a gordura não vai sair". Essa mensagem, embora bem-intencionada (para evitar culpabilização), pode ter o efeito colateral de desencorajar intervenções que, na verdade, podem ajudar.

O caso apresentado sugere que, pelo menos em alguns pacientes, mudanças consistentes no estilo de vida podem produzir resultados significativos — inclusive nas áreas afetadas pelo lipedema.


O que isso significa?

Significa que não existe protocolo de treino validado especificamente para lipedema. Nenhum estudo comparou sistematicamente modalidades de exercício, volumes ou intensidades nessa população. As recomendações de exercícios aquáticos e de baixo impacto que aparecem nas diretrizes são baseadas em consenso clínico e raciocínio fisiológico, não em evidência experimental robusta.

Isso não significa que exercício não funciona. Pelo contrário — os mecanismos de ação permanecem válidos. O músculo continua funcionando como bomba para o sistema linfático, as miocinas continuam sendo liberadas, a microcirculação continua melhorando com o treino. O que significa é que quem vende "método exclusivo para lipedema" ou "o melhor treino para lipedema" está extrapolando — ou simplesmente mentindo.

Na minha experiência clínica de quase 20 anos, vejo os exercícios aquáticos e de baixo impacto como uma opção — não a única opção. Treino de força e aeróbico bem prescritos, considerando nível de treinamento, capacidade funcional e preferências pessoais, podem ser excelentes escolhas. O meio aquático não é obrigatório.


Como eu prescrevo na prática

Quando atendo uma cliente com lipedema no Lund Trainers, mantenho o básico e fundamental para quem quer melhorar composição corporal: déficit energético através de dieta (em parceria com nutricionista), cardio estratégico e treino de força planejado, periodizado e individualizado.

O contexto importa mais que o diagnóstico. A mulher tem dor significativa? Vamos priorizar atividades de menor impacto inicialmente. Tem boa tolerância ao exercício? Podemos progredir normalmente. Tem hipermobilidade articular? Atenção redobrada ao controle neuromuscular. Está no Estágio I ou no Estágio III? A abordagem será diferente. A prescrição é guiada pela resposta individual, não por um rótulo.

Sempre enfatizo a importância da dieta e explico que não vai ser fácil. A gordura do lipedema é mais resistente — isso é fato. Mas resistente não significa impossível de manejar, como o caso do estudo brasileiro demonstra. Significa que expectativas precisam ser calibradas, que o processo pode ser mais lento, e que o foco deve estar em funcionalidade, sintomas e qualidade de vida, não apenas na balança ou nas medidas.


O que muda com esses estudos

Na prática, pouca coisa muda nas recomendações de prescrição. O que muda é a clareza sobre o estado da evidência e uma atualização no paradigma sobre a resistência à perda de gordura.

Agora temos dois documentos de alto impacto, publicados em 2026, que deixam explícito: precisamos de mais pesquisa antes de afirmar qual é o melhor treino para lipedema. Ao mesmo tempo, temos evidência de caso mostrando que mudanças intensivas no estilo de vida podem produzir resultados — mesmo nas áreas afetadas.

Isso é importante por três motivos.

Primeiro, protege você como profissional. Se uma cliente questionar por que você não está seguindo algum "protocolo específico para lipedema" que ela viu na internet, você tem respaldo científico atualizado para explicar que tal protocolo não existe — ou pelo menos não foi validado.

Segundo, protege suas clientes de expectativas irreais. Quando alguém vende um método prometendo resultados específicos para lipedema sem base em evidência, está criando frustração futura. A mulher investe tempo e dinheiro, não vê os resultados prometidos, e muitas vezes culpa a si mesma.

Terceiro, oferece esperança realista. O caso do estudo brasileiro mostra que, com intervenção consistente e de longo prazo, resultados são possíveis. Não é fácil, não é rápido, mas é possível.


Conclusão

Os estudos de 2026 confirmam o que profissionais sérios já sabiam: lipedema exige abordagem individualizada, não protocolo mágico. O exercício continua sendo ferramenta terapêutica importante — mas o "melhor treino para lipedema" é, na verdade, treino bem prescrito. Ponto.

A novidade é que agora temos evidência documentada de que mudanças no estilo de vida podem, sim, produzir resultados significativos — inclusive perda de gordura nas áreas afetadas. Isso não contradiz o fato de que lipedema é resistente; apenas sugere que a resistência pode não ser absoluta em todos os casos.

Continue fazendo o básico bem feito. Avalie, individualize, monitore a resposta, ajuste conforme necessário. Enfatize a dieta. Explique que o processo será mais difícil e mais longo do que para alguém sem a condição. É menos sexy do que um método com nome bonito, mas é o que a ciência atual sustenta.


Referências

  1. Kruppa P, et al. Lipedema World Alliance Delphi Consensus-Based Position Paper on the Definition and Management of Lipedema: Results from the 2023 Lipedema World Congress in Potsdam. Nature Communications. 2026. DOI: 10.1038/s41467-025-68232-z

  2. Faria AM, et al. Unraveling lipedema: comprehensive insights and the path to future discoveries. npj Metabolic Health and Disease. 2026. DOI: 10.1038/s44324-025-00093-y


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