Os últimos 10 anos de pesquisa convergem para uma resposta clara, ainda que não óbvia. Existe um teto, ele aparece mais cedo do que muita gente imagina, e a variável que mais explica o ganho pode não ser a que você pensa.
Resumo para profissionais
- A meta-regressão bayesiana mais recente (67 estudos, 2.058 participantes) confirma que ganhos de hipertrofia aumentam com o volume, mas com retornos decrescentes claros, especialmente acima de 20 séries semanais.
- Para força, os retornos decrescentes são ainda mais pronunciados. Volumes baixos a moderados já saturam o ganho de força em populações treinadas.
- A meta-análise específica sobre hipertrofia (Baz-Valle, 2022) sugere que 12 a 20 séries semanais por grupo muscular é a faixa ótima em homens jovens treinados, com volumes acima disso não entregando ganho proporcional para quadríceps e bíceps.
- Estudos primários com volumes muito altos (até 52 séries semanais, em alguns casos 32 séries por exercício) mostram aparente platô a partir de aproximadamente 20 séries semanais, com custo de tempo e fadiga subindo desproporcionalmente.
- Implicação prática: prescrever volumes na faixa de 15 a 25 séries semanais por grupo muscular, sustentados por progressão constante de carga, é mais eficiente que perseguir volumes muito altos.
Última atualização: maio de 2026.
A Pergunta que Atravessa a Última Década de Pesquisa
A discussão sobre volume de treino é, talvez, a mais ativa da literatura de hipertrofia nos últimos dez anos. A pergunta é simples: quanto volume é necessário para maximizar os ganhos, e a partir de que ponto mais volume deixa de entregar mais resultado?
Em 2016, Schoenfeld, Ogborn e Krieger¹ publicaram a meta-análise que se tornou a referência para a primeira geração de respostas. Eles analisaram 15 estudos e encontraram uma relação dose-resposta clara: cada série semanal adicional aumentava o ganho de hipertrofia em cerca de 0,37%. A leitura imediata foi "mais volume, mais músculo".
Mas o intervalo de volume testado era limitado. A maior parte dos estudos não passava de 10 a 12 séries semanais por grupo muscular. O que acontecia acima disso permanecia uma incógnita empírica.
Os últimos dez anos foram dedicados a responder essa pergunta. Pesquisadores progressivamente desenharam estudos com volumes cada vez mais altos. Em 2018, Haun e colaboradores² levaram participantes a treinar até 32 séries por exercício por semana. Em 2019, Schoenfeld e equipe³ testaram até 45 séries semanais por grupo muscular. Em 2022, Brigatto e colaboradores⁴ chegaram a 32 séries semanais. Em 2023, Enes e colegas⁵ atingiram 52 séries semanais de quadríceps, o volume mais alto já reportado na literatura.
E, em dezembro de 2025, Pelland e colaboradores⁶ publicaram a meta-regressão mais completa já feita sobre o tema, com 67 estudos e 2.058 participantes, que finalmente permitiu mapear a forma exata da curva dose-resposta.
Vamos olhar primeiro o que a evidência sintética diz, e depois mergulhar em cada estudo primário relevante.
A Evidência Sintética: Três Meta-Análises que Organizam o Quadro
Pelland et al. (2025): A Forma da Curva Finalmente Mapeada
A meta-regressão de Pelland et al. (2025)⁶, publicada na Sports Medicine, é a evidência mais robusta disponível sobre dose-resposta de volume. Eles agregaram 67 estudos com 2.058 participantes, ajustando para duração da intervenção e nível de treinamento, e usaram uma abordagem bayesiana para quantificar a probabilidade de cada relação.
Os achados centrais são três.
Primeiro, a probabilidade posterior de que mais volume gere mais hipertrofia é de 100%. Volume importa, e isso está agora estatisticamente consolidado em centenas de participantes. A pergunta "volume importa para hipertrofia?" está respondida.
Segundo, a probabilidade posterior de que mais volume gere mais força também é de 100%. Mas, e aqui está a parte que reorganiza a conversa, os modelos de melhor ajuste mostram retornos decrescentes em ambos os casos, com os retornos decrescentes para força sendo consideravelmente mais pronunciados que para hipertrofia.
Terceiro, a relação entre frequência semanal e hipertrofia é compatível com efeitos negligíveis. Treinar um grupo muscular três vezes por semana ao invés de uma vez não parece, em si, aumentar a hipertrofia, desde que o volume total seja equivalente.
Essa meta-regressão é importante por uma razão sutil mas crítica: ela usa um método chamado quantificação "fracionária" das séries, que distingue entre séries diretas (especificamente para o grupo muscular avaliado) e séries indiretas (que ativam o grupo de forma secundária). Isso resolve um problema antigo da literatura, em que estudos com critérios diferentes de contagem de séries chegavam a conclusões aparentemente contraditórias.
A forma da curva que emerge é clara. Ganhos crescem com o volume, mas a inclinação da curva diminui progressivamente. Em algum ponto, cada série adicional entrega cada vez menos retorno. Esse ponto, segundo os estudos primários que vamos olhar adiante, parece estar em torno de 20 séries semanais por grupo muscular.

Schoenfeld, Ogborn e Krieger (2017): A Referência Clássica
Antes da Pelland, a referência canônica era a meta-análise de Schoenfeld, Ogborn e Krieger (2017)¹, publicada no Journal of Sports Sciences. Eles analisaram 15 estudos e encontraram que cada série semanal adicional estava associada a um aumento de 0,37% no ganho de massa muscular. A comparação entre grupos de volume "alto" e "baixo" dentro de cada estudo mostrou uma diferença de 3,9% a favor dos volumes maiores.
Essa meta-análise consolidou a noção de dose-resposta na literatura, mas tinha uma limitação importante reconhecida pelos próprios autores. A maior parte dos estudos incluídos não testava volumes acima de 10 séries semanais. Logo, a meta-análise extrapolava uma tendência observada em volumes baixos para o território dos volumes altos, sem evidência direta sobre o que acontece nessa região.
Os autores foram explícitos sobre essa limitação. A meta-análise da Pelland 2025, com seis vezes mais estudos e cobrindo a faixa de volumes altos que faltava em 2017, é a evolução natural dessa investigação.

Baz-Valle et al. (2022): Onde Mora a Faixa Ótima
A meta-análise de Baz-Valle e colaboradores (2022)⁷ é específica e direta na sua pergunta: existe diferença entre volume moderado e volume alto para hipertrofia em homens treinados?
Eles incluíram 7 estudos, divididos em três categorias: volume baixo (menos de 12 séries semanais), moderado (12 a 20 séries) e alto (mais de 20 séries). O achado central é importante.
Para o quadríceps, não houve diferença significativa entre volume moderado e alto (p = 0,19). Para o bíceps braquial, também não (p = 0,59). Apenas para o tríceps braquial o volume alto se mostrou superior (p = 0,01).

A conclusão dos autores é direta. Para a maioria dos grupos musculares, uma faixa de 12 a 20 séries semanais parece ser a recomendação ótima para induzir hipertrofia em homens jovens treinados. Volumes acima disso não entregaram ganho proporcional na maior parte dos casos.
Essa meta-análise complementa a Pelland 2025 com uma estimativa prática da faixa em que a curva começa a achatar. E é a base científica direta para a recomendação de "em torno de 20 séries semanais" que vamos retomar no fechamento do artigo.
A Evidência Primária: Nove Estudos da Última Década
Agora vamos olhar os estudos primários que sustentam essa síntese. Eles estão organizados aqui em uma lógica que vai mostrando, progressivamente, como o argumento se construiu.
Radaelli et al. (2015): A Linha de Base em Iniciantes
Radaelli e colaboradores (2015)⁸ acompanharam 48 homens sem experiência prévia em treino de força, durante seis meses, com três sessões semanais. Compararam três volumes por exercício: 1, 3 e 5 séries.
O resultado. Dose-resposta claro favorecendo 5 séries. Para força no supino e na puxada, ganhos significativamente maiores no grupo de 5 séries. Para hipertrofia do braço, o grupo de 5 séries cresceu mais que os outros dois, com diferença estatisticamente significativa.
A leitura. Em iniciantes destreinados, a faixa testada (até 5 séries por exercício, totalizando aproximadamente 15 séries semanais por grupo muscular) ainda estava dentro da região ascendente da curva. A dose-resposta era linear nessa faixa. O teto aparece em volumes mais altos, que esse estudo não chegou a testar.
Haun et al. (2018): O Limite Empírico Sobe a 32 Séries por Exercício
O estudo de Haun e colaboradores (2018)² é uma peça importante e frequentemente citada. Eles levaram homens treinados (5 anos de experiência média) a treinar 3 vezes por semana, com volumes progredindo de 10 até 32 séries por exercício por semana em apenas 6 semanas.
O que mediram. Massa magra por DXA, espessura muscular por ultrassom no vasto lateral e bíceps, bioimpedância para água extracelular (uma forma de detectar edema confundindo com ganho real de massa).
O resultado central. Ganhos de massa magra aconteceram do PRE para o meio do estudo (até cerca de 20 séries por exercício por semana). Do meio para o final do estudo (acima de 20 séries), os ganhos corrigidos para água extracelular ficaram muito atenuados, embora ainda positivos. Os autores escrevem literalmente que "ganhos de massa magra corrigidos para água extracelular foram largamente amortecidos, embora ainda positivos, em participantes treinados quando o treino excedeu aproximadamente 20 séries por exercício por semana".
Por que isso importa. Esse é um carimbo experimental do teto. Não é uma sugestão indireta tirada de comparação entre grupos, é a observação direta de que, dentro de um mesmo grupo de participantes, a curva de ganho começa a achatar perto de 20 séries semanais.

Heaselgrave et al. (2019): Nove Séries Já Bastam para Hipertrofia do Bíceps
Heaselgrave e colegas (2019)⁹ trabalharam com 49 homens treinados durante 6 semanas, comparando três volumes para bíceps: 9, 18 ou 27 séries semanais. As sessões eram uma ou duas vezes por semana, com proteína pós-treino padronizada.
O resultado. Os três grupos cresceram. A espessura do bíceps aumentou 4,3% no grupo de 9 séries, 9,5% no de 18 e 5,4% no de 27. Estatisticamente, nenhuma diferença entre grupos.
Para força no 1RM, os três grupos também ganharam de forma similar. Apenas a força isométrica mostrou aumento significativo exclusivamente no grupo de maior volume.
A leitura. Em homens treinados, 9 séries semanais de bíceps já entregaram o que volumes 2 a 3 vezes maiores entregaram. Mais um estudo apontando para platôs em volumes mais baixos do que a literatura inicial sugeria.
Schoenfeld et al. (2019): A Hipertrofia Continua Subindo, a Força Não
O estudo de Schoenfeld e equipe (2019)³, publicado na Medicine & Science in Sports & Exercise, é talvez o mais citado dessa fase. Trinta e quatro homens treinados, 8 semanas, três sessões semanais, com três grupos: 1, 3 ou 5 séries por exercício por sessão. Isso resultou em 6 a 9, 18 a 27 ou 30 a 45 séries semanais por grupo muscular.
O achado para hipertrofia. Dose-resposta claro. Os ganhos no vasto lateral foram 5,0% / 8,5% / 13,7%, com diferença estatística confirmada entre o grupo de 5 séries e o de 1 série. Mais volume, mais músculo.
O achado para força. Os três grupos ganharam força igualmente. Treinar 13 minutos por semana entregou o mesmo ganho de 1RM no agachamento e no supino que treinar 68 minutos por semana.
A síntese. Esse é o estudo que estabeleceu de forma mais clara a diferença entre as dose-respostas de força e hipertrofia. A força saturou cedo, a hipertrofia continuou subindo. Mas mesmo a hipertrofia mostrava sinal de achatamento na comparação entre o grupo do meio e o de maior volume, segundo a análise bayesiana do próprio paper.

Scarpelli et al. (2022): Volume Individualizado Vence Volume Padronizado
O estudo de Scarpelli e colaboradores (2022)¹⁰ traz um achado conceitualmente importante. Eles usaram um desenho elegante de dentro do sujeito (cada participante serviu como seu próprio controle). Dezesseis indivíduos treinados tiveram uma perna treinada com 22 séries semanais padronizadas (volume baseado no que a literatura sugere) e a outra perna treinada com volume individualizado baseado no histórico de cada um (20% acima do volume previamente realizado).
O resultado. A perna individualizada teve maior aumento de área de secção transversa do vasto lateral que a perna padronizada. A diferença foi estatisticamente significativa.
A interpretação. O ponto central é que o volume "certo" não é um número absoluto, é uma função do histórico de treino do aluno. Aluna que vinha de 10 séries semanais não precisa do mesmo volume que aluna que vinha de 20. A progressão a partir do volume prévio parece importar mais que atingir um número absoluto.
Esse achado conecta diretamente com o trabalho mais recente sobre progressão de carga, que veremos no Nóbrega 2023.
Aube et al. (2022): Em Indivíduos Muito Treinados, Mais Pode Atrapalhar
Aube e equipe (2022)¹¹ trabalharam com participantes excepcionalmente treinados, agachando em média 2,09 vezes o peso corporal. Trinta e cinco homens, 8 semanas, três grupos de volume semanal: 12, 18 ou 24 séries.
O resultado para força. Achado contraintuitivo. O grupo do meio (18 séries) teve a maior tendência de ganho no agachamento, com +25,5 kg (16,2%). O grupo de 24 séries ganhou apenas +9,5 kg (5,4%). O grupo de 12 séries ganhou +18,3 kg (11,3%). A análise estatística ficou no limite (p = 0,052), mas o padrão é claro: em homens muito treinados, dobrar o volume de 12 para 24 séries pode até reduzir os ganhos de força.
O resultado para hipertrofia. Todos os grupos cresceram, sem diferença significativa entre eles.
A leitura. Esse estudo é importante porque sinaliza algo que outras pesquisas haviam apenas tangenciado: em populações muito treinadas, o teto pode estar bem mais baixo, e exceder esse teto pode ter custo real. A capacidade de recuperação tem limites, e treinar muito acima do necessário pode prejudicar a expressão de força, mesmo que não prejudique o tamanho do músculo.
Brigatto et al. (2022): A Defesa do Volume Alto, com Ressalva Importante
Brigatto e colaboradores (2022)⁴ é um dos estudos mais citados a favor de volumes altos. Vinte e sete homens treinados (3,5 anos de experiência média), 8 semanas, quatro sessões semanais. Três grupos: 16, 24 ou 32 séries semanais por grupo muscular, em nove exercícios.
O resultado. Ganhos no vasto lateral foram 2,1% / 5,6% / 9,4%, com dose-resposta estatisticamente confirmado entre 32 séries e 16 séries.
A ressalva crítica. Os próprios autores reconhecem na discussão um detalhe que muda a interpretação. O grupo de 32 séries quase dobrou o volume habitual de quadríceps dos participantes (saíram de 19 séries semanais para 32). O grupo de 16 séries, ao contrário, reduziu o volume habitual (de 21 para 16). Os autores escrevem literalmente que é "plausível hipotetizar que os sujeitos do G32 podem ter se beneficiado indevidamente do estímulo não familiar de treinar com um volume mais alto".
Em outras palavras, parte do ganho atribuído ao volume alto pode refletir um efeito de novidade da carga de trabalho, não uma propriedade fixa do volume alto.
Por que isso importa. Quando uma aluna sai de 19 séries semanais e vai para 32, parte do que ela ganha é o choque de carga. Esse achado conecta diretamente com o de Scarpelli (2022): o que importa não é o número absoluto, é o quanto isso representa um estímulo novo em relação ao histórico do aluno.

Enes et al. (2023): O Volume Sobe a 52 Séries, e o Platô Aparece
Enes e colegas (2023)⁵, publicado na Medicine & Science in Sports & Exercise, é o estudo que testou os volumes mais altos já documentados na literatura. Trinta e um homens com cerca de 5 anos de experiência, agachando 1,7 vezes o peso corporal. Doze semanas, duas sessões por semana.
O desenho. Três grupos: constante em 22 séries, progressão de 4 séries a cada duas semanas (terminando em 42) ou progressão de 6 séries a cada duas semanas (terminando em 52 séries semanais de quadríceps nas semanas finais).
O achado para força. Dose-resposta claro e estatisticamente confirmado. Os três grupos diferiram entre si.
O achado para hipertrofia. Ganhos no CSA do vasto lateral foram 4,0% / 9,8% / 11,2%. A análise estatística ficou no limite (p = 0,067), mas a leitura dos autores é importante: eles reconhecem dose-resposta numérico com platô aparente entre 42 e 52 séries. Os dois grupos de maior volume ganharam praticamente o mesmo, apesar do esforço extra.
O custo escondido. Nas semanas finais, as sessões do grupo de 52 séries duravam aproximadamente 100 minutos, contra 50 minutos do grupo constante. O dobro do tempo, por ganhos estatisticamente similares. Os próprios autores levantam isso como implicação prática relevante, lembrando que falta de tempo é uma das principais barreiras para aderência à musculação.

Nóbrega et al. (2023): A Virada Conceitual
Nóbrega e colaboradores (2023)¹² é, no nosso recorte, o estudo mais elegante e o que tem implicação mais direta para a prescrição. Vinte e quatro homens destreinados, 24 sessões de cadeira extensora unilateral. Mesmo número de séries, mesma faixa de carga, todas até a falha. A única diferença foi o modelo de ajuste da carga.
Os dois modelos. No grupo %1RM, a carga começava em aproximadamente 80% de 1RM e só era reajustada após o reteste de 1RM na semana 6. Entre os retestes, a carga ficava relativamente fixa e o que mudava era o número de repetições conforme o aluno ganhava capacidade. No grupo zona de RM, a faixa-alvo era de 9 a 12 repetições, com ajuste de carga a cada série sempre que as repetições caíssem fora da faixa. A carga subia assim que o aluno conseguia mais que 12 repetições.
O resultado. O volume acumulado total foi estatisticamente igual entre os dois grupos. Mas o grupo de zona de RM dobrou a hipertrofia (16,0% contra 7,9% no CSA do vasto lateral).
A análise de regressão. Os autores foram além das médias e fizeram uma regressão. O volume acumulado não se correlacionou nem com força nem com hipertrofia. O que se correlacionou foi a inclinação da progressão de carga semana a semana.
A interpretação. O ajuste de carga a cada série mantém o estímulo sempre próximo do limite adaptativo. Quando o aluno consegue passar do alvo, a carga sobe imediatamente. No modelo %1RM, a carga fica "presa" e o aluno acumula repetições com carga progressivamente mais leve em relação à sua capacidade real.
Por que isso reorganiza o debate. Nóbrega 2023 sugere algo que estava implícito em vários outros estudos: a variável central pode não ser o volume em si, mas a progressão de carga que esse volume sustenta. O volume é o substrato; a progressão é o que ativa o substrato.

Enes et al. (2025): O Achado em Mulheres Treinadas
O estudo mais recente do nosso recorte é o de Enes e colegas (2025)¹³, publicado no Journal of Sports Sciences. Trinta mulheres com cerca de 2 anos de experiência, 12 semanas, duas sessões por semana. Três grupos para quadríceps: constante em 22 séries, progressão de 2 séries a cada duas semanas (16 → 26) ou progressão de 4 séries a cada duas semanas (18 → 38).
O resultado para o CSA do vasto lateral. Ganhos foram 10,1% / 15,8% / 23,7%. O grupo de progressão mais agressiva superou o constante na análise estatística. O grupo de 2 séries ficou no meio, sem diferença significativa de nenhum dos outros dois.
O resultado para espessura muscular. Ganhos foram 5,2% / 5,9% / 7,6%, sem diferença estatística entre grupos (p = 0,783).
O detalhe que reorganiza a leitura. O nome dos grupos descreve a progressão, não o volume médio. O grupo constante treinou em média 22 séries semanais. O grupo de 2 séries treinou em média 21 séries semanais. Volumes médios praticamente idênticos, e resultados estatisticamente equivalentes. O grupo de 4 séries treinou em média 28 séries, e foi esse que se diferenciou.
A leitura. O que separou o grupo de melhor resultado dos outros não foi o esquema de progressão, foi o volume médio efetivamente acumulado. E mesmo o ganho do grupo mais agressivo aparece dentro da faixa que os outros estudos vêm apontando como produtiva.

Tabela Comparativa dos Nove Estudos Primários
| Estudo | População | Duração | Volumes testados | Achado principal para hipertrofia |
|---|---|---|---|---|
| Radaelli (2015) | 48 homens destreinados | 6 meses, 3x/sem | 1 / 3 / 5 séries por exercício | Dose-resposta linear na faixa testada; 5 séries superou 1 |
| Haun (2018) | Homens treinados (~5 anos) | 6 sem, 3x/sem | 10 a 32 séries por exercício/sem (progressivo) | Ganhos atenuados acima de ~20 séries por exercício/sem |
| Heaselgrave (2019) | 49 homens treinados | 6 sem, 1-2x/sem | 9 / 18 / 27 séries/sem (bíceps) | Sem diferença entre grupos para hipertrofia |
| Schoenfeld (2019) | 34 homens treinados | 8 sem, 3x/sem | 6-9 / 18-27 / 30-45 séries/sem | Dose-resposta confirmado; força saturou em volume baixo |
| Scarpelli (2022) | 16 homens treinados | 8 sem | 22 padronizado vs individualizado | Volume individualizado superou padronizado |
| Aube (2022) | 35 homens muito treinados | 8 sem, 2x/sem | 12 / 18 / 24 séries/sem | Sem diferença para hipertrofia; 18 favorecido para força |
| Brigatto (2022) | 27 homens treinados | 8 sem, 4x/sem | 16 / 24 / 32 séries/sem | Dose-resposta confirmado, com efeito de novidade reconhecido |
| Enes (2023) | 31 homens treinados | 12 sem, 2x/sem | 22 / até 42 / até 52 séries/sem | Platô aparente entre 42 e 52 séries |
| Nóbrega (2023) | 24 homens destreinados | 24 sessões | Mesmo volume, modelos de progressão de carga diferentes | Modelo de progressão de carga dobrou a hipertrofia |
| Enes (2025) | 30 mulheres treinadas | 12 sem, 2x/sem | 22 / 16→26 / 18→38 séries/sem | Volume médio acumulado explicou os ganhos, não a progressão de séries |
O Que Emerge dos Doze Trabalhos em Conjunto
Quando colocamos as três meta-análises e os nove estudos primários lado a lado, três conclusões resistem à análise e oferecem direção clara para a prescrição.
Volume Importa, Mas a Curva Achata Cedo
A relação dose-resposta entre volume e hipertrofia está consolidada. Tanto a meta-regressão da Pelland 2025 quanto a meta-análise da Schoenfeld 2017 confirmam que mais volume gera mais músculo, em média. O que mudou na última década foi a compreensão da forma dessa curva.
Em iniciantes destreinados, a relação parece linear até volumes relativamente altos (Radaelli 2015). Em treinados, a curva começa a achatar muito antes do que se imaginava. Haun 2018 capturou isso experimentalmente, mostrando ganhos atenuados acima de 20 séries por exercício por semana. Heaselgrave 2019 mostrou que 9 séries de bíceps já entregaram o que volumes 2 a 3 vezes maiores entregaram. Enes 2023, ao chegar a 52 séries semanais, encontrou platô aparente entre 42 e 52. Baz-Valle 2022 sintetiza esses achados ao recomendar a faixa de 12 a 20 séries semanais como ótima para a maioria dos grupos musculares.
A síntese prática emerge clara: em torno de 15 a 25 séries semanais por grupo muscular parece ser a faixa onde a maior parte do ganho acontece em populações treinadas. Acima disso, o retorno cai e o custo de tempo e fadiga sobe desproporcionalmente.
Força e Hipertrofia Não Seguem a Mesma Lógica
Esse é um dos achados mais robustos da última década. A meta-regressão da Pelland 2025 mostra que os retornos decrescentes para força são muito mais pronunciados que para hipertrofia. Schoenfeld 2019 ilustrou isso experimentalmente: três sessões semanais de 13 minutos entregaram o mesmo 1RM que três sessões de 68 minutos. Aube 2022 foi além, sugerindo que em populações muito treinadas, volumes excessivos podem até prejudicar a expressão de força.
A implicação para periodização é direta. Em fases focadas em força, volumes moderados são suficientes e talvez ideais. Em fases focadas em hipertrofia, volumes podem subir um pouco mais, dentro de um teto razoável.
A Variável Crítica Pode Não Ser o Volume, É a Progressão
Esse é o achado mais transformador, e o que muda a forma de pensar a prescrição. O estudo de Nóbrega 2023 mostrou que dois protocolos com volume acumulado total idêntico geraram hipertrofia drasticamente diferente, simplesmente porque um progredia carga a cada série e o outro deixava a carga fixa entre retestes.
Quando olhamos os outros estudos com essa lente, vários começam a fazer sentido novamente. Scarpelli 2022 mostrou que volume individualizado, ou seja, volume que parte do histórico do aluno e progride a partir dele, vence volume padronizado. Brigatto 2022 reconhece que parte do ganho do grupo de volume alto foi o efeito de novidade da carga de trabalho. Enes 2025 mostra que volumes médios acumulados similares geram resultados similares, mesmo com esquemas de progressão de séries diferentes.
Tudo isso converge para uma mesma ideia: o volume é o substrato, mas o que dirige a adaptação é a progressão constante de estímulo. Um volume médio dentro da faixa produtiva, sustentado por progressão de carga semana a semana, vence um volume alto sem progressão real.
Implicações Práticas para o Personal Trainer
A literatura dos últimos dez anos, lida em conjunto, organiza a conduta de prescrição em princípios claros.
Mire na faixa de 15 a 25 séries semanais por grupo muscular como volume de trabalho. Essa é a região da curva onde acontece a maior parte do ganho. Volumes abaixo disso podem subutilizar o potencial adaptativo, especialmente em alunas que treinam há algum tempo. Volumes acima geralmente entregam pouco retorno adicional e cobram caro em tempo de sessão e demanda de recuperação.
Use progressão de carga como ferramenta principal, não progressão de séries. Esse é o ponto que mais diferencia uma prescrição amadora de uma prescrição moderna. Manter a faixa de repetições e subir carga assim que a aluna passa do alvo é mais potente que deixar a carga fixa e acumular repetições. Nóbrega 2023 mostrou que essa diferença pode dobrar a hipertrofia, mesmo com volume acumulado idêntico.
Reserve progressão de séries para quando a progressão de carga estaciona. Quando a aluna não consegue mais subir carga dentro da faixa, e o RIR não cai, adicionar volume faz sentido. Mas como resposta a um sinal identificado, não como calendário automático.
Individualize a partir do histórico, não do número absoluto. Scarpelli 2022 e Brigatto 2022 mostram, por caminhos diferentes, que o estímulo importa em relação ao histórico do aluno. Uma aluna que vinha de 10 séries não precisa do mesmo volume que uma que vinha de 22. Comece de onde a aluna está e progrida a partir daí.
Reconheça o efeito de novidade como ferramenta, não como princípio fixo. Mudanças bruscas no volume habitual geram ganhos iniciais expressivos. Isso pode ser usado estrategicamente em fases específicas (por exemplo, no início de um novo bloco), mas não deve ser confundido com "volume alto sempre é melhor". Quando o estímulo deixa de ser novo, o ganho diminui.
Periodize considerando o objetivo. Em fases focadas em força máxima, mantenha volumes moderados. Em fases focadas em hipertrofia, volumes podem subir um pouco mais, sempre respeitando o teto da população em questão e o custo de recuperação.
Perguntas Frequentes
Qual é o volume ideal de treino para hipertrofia segundo a ciência?
A meta-análise de Baz-Valle e colaboradores (2022) sugere que 12 a 20 séries semanais por grupo muscular é a faixa ótima para hipertrofia em homens jovens treinados. A meta-regressão mais ampla de Pelland e equipe (2025), com 67 estudos e mais de 2.000 participantes, confirma que ganhos continuam aumentando com mais volume, mas com retornos decrescentes claros nessa faixa. A recomendação prática consolidada é mirar em torno de 15 a 25 séries semanais por grupo muscular.
Quanto volume é demais?
Estudos primários com volumes muito altos mostram aparente platô a partir de aproximadamente 20 séries semanais por grupo muscular. Haun (2018) observou atenuação dos ganhos acima de 20 séries por exercício por semana. Enes (2023) encontrou platô entre 42 e 52 séries semanais de quadríceps em homens treinados. Em mulheres treinadas, Enes (2025) viu que 38 séries não entregaram ganho proporcional em comparação a 22 séries. Volumes muito acima de 25 a 30 séries semanais raramente trazem retorno proporcional.
Mais volume sempre significa mais hipertrofia?
Não. A relação volume-hipertrofia é uma curva, não uma reta. Em iniciantes, a faixa de volume produtiva é mais ampla. Em treinados, a curva achata mais cedo. Em indivíduos muito treinados, como no estudo de Aube (2022), volumes excessivos podem até reduzir alguns desfechos (força no agachamento, nesse caso). A literatura sugere claramente um ponto de retorno decrescente.
É melhor progredir a carga ou progredir o número de séries?
Os dados de Nóbrega e colaboradores (2023) sugerem que ajustar a carga a cada série, mantendo a faixa de repetições, gera o dobro de hipertrofia comparado a deixar a carga relativamente fixa e acumular repetições, mesmo quando o volume acumulado total é igual. A progressão de carga semana a semana parece ser a variável mais potente para hipertrofia. Progressão de séries deve ser usada como resposta a platôs, não como meta perpétua.
Quanto volume preciso para ganhar força?
A meta-regressão de Pelland (2025) mostra que os retornos decrescentes para força são muito mais pronunciados que para hipertrofia. Schoenfeld e equipe (2019) demonstraram experimentalmente que homens treinados ganharam a mesma força com 13 minutos de treino semanal que com 68 minutos. Para força em populações treinadas, o limiar de volume necessário é relativamente baixo, e mais volume tende a saturar rapidamente.
Como saber se um aluno precisa aumentar o volume?
Quando a progressão de carga estaciona dentro da faixa de repetições prescrita, e o RIR (repetições em reserva) não cai mesmo mantendo cargas similares, é razoável considerar adicionar séries. Adicionar volume como resposta a um platô identificado é diferente de adicionar volume por calendário fixo, que tende a entregar retorno decrescente.
Mulheres precisam de mais volume que homens para ganhar músculo?
Os dados não sustentam essa ideia. Enes e equipe (2025) mostraram que mulheres treinadas respondem ao volume de forma qualitativamente similar a homens treinados, com a mesma curva de retorno decrescente acima de aproximadamente 22 séries semanais para quadríceps. A faixa produtiva parece ser similar entre os sexos.
O que significa "volume" exatamente nesses estudos?
A maior parte dos estudos define volume como número de séries semanais até a falha ou próxima da falha, dentro de uma faixa de repetições (geralmente 6 a 12). Esse é o método de quantificação mais consistente na literatura atual, segundo a meta-análise de Pelland (2025), que distingue entre séries diretas (especificamente para o músculo avaliado) e indiretas (que ativam o músculo de forma secundária).
Como o Treino AI Aplica Esses Princípios na Prática
A literatura dos últimos dez anos é clara em três pontos. Existe uma faixa produtiva de volume, ela é mais estreita do que muitos pensam, e a variável que mais dirige o ganho é a progressão constante de carga, não o volume acumulado.
O problema é operacional. Acompanhar progressão de carga aluna por aluna, sessão por sessão, com ajuste fino de RIR e volume dentro de uma faixa produtiva, exige um nível de controle que dificilmente se sustenta no dia a dia do personal trainer com agenda cheia. É exatamente onde a tecnologia faz diferença real.
O Treino AI foi desenvolvido exatamente para aplicar esses princípios científicos de forma consistente. A progressão de carga acontece de forma personalizada baseada em RPE e RIR, o volume é ajustado dentro de faixas produtivas, e a prescrição se adapta à realidade de cada aluna sessão por sessão. Você define a estratégia baseada na evidência, o sistema operacionaliza com a precisão que os estudos exigem.
Referências
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Rafa Lund / Mestre em Ciências do Desporto | Fundador Grupo LUND
