Nos três artigos anteriores da nossa série sobre canetas emagrecedoras, cobrimos a farmacologia dessas medicações e seus resultados em condições ideais, o problema do reganho de peso após a descontinuação e a questão da perda de massa muscular associada ao tratamento. Agora, vamos ao dado que talvez mais importe para quem trabalha na ponta: o que acontece quando essas medicações saem do ambiente controlado dos ensaios clínicos e entram na vida real.
E aqui eu preciso ser honesto: nada do que vou mostrar me surpreendeu. Porque eu vejo isso na prática todos os dias. Gente usando por conta própria, sem acompanhamento adequado, pulando doses, reduzindo por conta, espaçando aplicações. O que a ciência fez foi colocar números naquilo que quem está na ponta já observava.
O que dizem os ensaios clínicos versus o que acontece na prática
Os números dos ensaios clínicos são os que você vê nas manchetes. Semaglutida 2,4 mg (Wegovy) produz perdas de 14 a 17% do peso corporal. Tirzepatida 15 mg (Mounjaro/Zepbound) chega a 18 a 22%. São resultados genuinamente impressionantes e sem precedentes na história da farmacologia da obesidade.
O problema é que esses resultados acontecem em condições que não existem na vida real. Nos ensaios clínicos, os participantes são cuidadosamente selecionados, monitorados de perto por equipes multidisciplinares, recebem orientação nutricional e comportamental constante, não têm barreiras financeiras, e seguem rigorosamente o protocolo de escalonamento de dose. Pense nisso como a diferença entre o desempenho de um carro de Fórmula 1 numa pista perfeita e o que esse mesmo carro faria no trânsito de São Paulo, com buracos, semáforos e combustível de qualidade variável.
Thomsen et al. (2025) publicaram no Diabetes, Obesity and Metabolism uma revisão narrativa abrangente que compilou dezenas de estudos observacionais sobre o uso de liraglutida, semaglutida e tirzepatida no mundo real. Os achados deveriam fazer parte de qualquer conversa séria sobre esses medicamentos.
Metade dos pacientes para no primeiro ano
Esse talvez seja o dado mais impactante da revisão. A taxa de descontinuação no mundo real é alarmante: entre 20% e 50% dos usuários interrompem o tratamento no primeiro ano.
Um estudo americano com mais de 4.000 adultos obesos sem diabetes, publicado no Journal of Managed Care & Specialty Pharmacy, encontrou apenas 32% de persistência ao tratamento após um ano (Gleason et al., 2024). Dois em cada três pacientes pararam antes de completar 12 meses. E entre os que mantiveram alguma forma de uso, apenas 27% foram classificados como aderentes, ou seja, mantiveram o uso consistente conforme prescrito.
Dados dinamarqueses ainda maiores, com mais de 110.000 iniciadores de semaglutida para obesidade, confirmaram o mesmo padrão: aproximadamente metade manteve o uso por um ano. E entre os que continuaram, a maioria não seguiu o protocolo como deveria.
Quase ninguém chega à dose recomendada
Nos ensaios clínicos, os participantes seguem um protocolo rígido de escalonamento: começam com uma dose baixa e aumentam progressivamente a cada quatro semanas até atingir a dose-alvo. Isso é essencial, porque a eficácia do medicamento é dose-dependente: quanto maior a dose, maior a perda de peso.
Na vida real, esse escalonamento simplesmente não acontece. A revisão de Thomsen mostra que apenas 10% dos pacientes seguiram a escalação de dose recomendada a cada quatro semanas. Só 12% chegaram à dose-alvo de 2,4 mg de semaglutida até a quinta prescrição. E um terço dos usuários ficou estacionado na dose de 1,0 mg por tempo prolongado, uma dose que é aproximadamente metade da dose que produziu os resultados que aparecem nas manchetes.
E é exatamente isso que eu vejo na prática. Aluna chega e diz que está usando a caneta. Você pergunta a dose: "ah, estou na 0,5" ou "estou na 1,0, mas meu médico disse que posso ficar assim". Às vezes nem é o médico que disse. É a própria pessoa que decidiu não subir porque sentiu náusea, ou porque achou que já estava funcionando, ou simplesmente porque a dose maior custava mais caro. O resultado? Uma fração do efeito que o medicamento poderia entregar.
Um estudo mais recente analisou mais de 15.000 adultos americanos que iniciaram Wegovy entre 2021 e 2023 e confirma o padrão: a maioria desviou do protocolo de escalonamento já nos primeiros cinco meses, e quase metade (46%) havia interrompido o tratamento nesse período (Xu et al., 2025).
O resultado real: muito abaixo do prometido
Quando você combina alta taxa de abandono com uso em subdose, o resultado é previsível. A perda de peso observada no mundo real é consistentemente menor do que nos ensaios clínicos. Um estudo publicado na revista Obesity encontrou que, após um ano, a perda de peso real foi de 7,7% com semaglutida e 12,4% com tirzepatida. Compare com os 14-17% e 18-22% dos ensaios clínicos: estamos falando, em muitos casos, de metade do resultado prometido.
Mas existe um contraponto importante, e é honesto reconhecê-lo. Quando a adesão é alta, os resultados se aproximam dos ensaios clínicos. Um estudo de uma clínica acadêmica de obesidade nos EUA, com mais de 2.300 pacientes que receberam acompanhamento multidisciplinar sem custo, encontrou persistência mediana de quase 11 meses. E entre os pacientes que mantiveram o uso por 12 meses ou mais, a perda de peso mediana foi de 14,4%, muito próxima dos resultados dos ensaios clínicos (Schmitz et al., 2025).
Isso nos diz algo fundamental: o medicamento funciona quando usado corretamente, com acompanhamento adequado e sem barreiras ao tratamento. O problema não é a droga. É o ecossistema.
Por que as pessoas param?
Os motivos são múltiplos e se retroalimentam. Os efeitos gastrointestinais são o fator mais citado. Aproximadamente 80% dos participantes dos ensaios clínicos relatam algum tipo de desconforto digestivo: náusea, dor abdominal, refluxo, inchaço, vômito, diarreia ou constipação. Uma pesquisa em farmácias comunitárias com usuários de semaglutida encontrou que 6 em cada 10 relataram efeitos colaterais, sendo náusea (35%) e constipação (29%) os mais comuns. Esses sintomas são mais intensos na fase de escalonamento de dose e tendem a diminuir com o uso continuado, mas muita gente desiste antes de chegar lá.
O custo é outro fator determinante, especialmente no contexto americano, onde grande parte dos estudos foi feita. Sem cobertura de seguro, o tratamento com semaglutida custa entre 1.000 e 1.300 dólares por mês. No Brasil, o cenário é semelhante: o custo elevado limita o acesso e dificulta a manutenção do tratamento a longo prazo.
E há um terceiro fator mais sutil: a expectativa. Muitas pessoas iniciam o tratamento esperando os resultados dos ensaios clínicos, as perdas de 15 a 20% que viram nas reportagens. Quando a realidade é mais modesta, a frustração leva ao abandono.
O que isso significa para quem está na ponta
Esse cenário cria uma situação que você provavelmente já está vendo na sua rotina. Seus alunos estão usando essas medicações. Muitos sem acompanhamento adequado. Muitos com expectativas irrealistas. E muitos vão parar em algum momento.
E quando param, o peso volta. Volta predominantemente como gordura, como já discutimos no segundo artigo desta série.
E aqui mora a minha maior preocupação. Se a pessoa perdeu músculo durante o uso e reganha gordura na volta, cada ciclo de uso e abandono piora a composição corporal. Perde músculo, ganha gordura. Perde músculo, ganha gordura. Ao longo de sucessivos ciclos, isso pode levar a um quadro de obesidade sarcopênica: excesso de gordura corporal com déficit crítico de massa muscular. É uma das piores combinações possíveis para a saúde, e está sendo construída silenciosamente a cada ciclo de perda e reganho sem acompanhamento adequado.
Quantos dos seus alunos, ou potenciais alunos, estão exatamente nesse ciclo agora?
Os dados de mundo real reforçam três pontos centrais para a nossa prática.
O primeiro é que o acompanhamento profissional faz toda a diferença. O estudo da clínica acadêmica mostrou que quando os pacientes recebem suporte multidisciplinar consistente, os resultados se aproximam dos ensaios clínicos. O personal trainer, junto ao nutricionista e ao médico, é parte essencial desse ecossistema. Se o aluno está usando caneta, ele precisa mais de você, não menos.
O segundo é que o treino de força é inegociável durante o uso da medicação. Já detalhamos no terceiro artigo como a perda de peso induzida por esses medicamentos inclui uma parcela significativa de massa magra. O treino de força, combinado com ingestão proteica adequada, é a principal ferramenta para minimizar essa perda e proteger o aluno do ciclo destrutivo que acabei de descrever.
O terceiro é que a fase pós-medicação é crítica. Dado que metade dos usuários para no primeiro ano, a probabilidade de o seu aluno descontinuar é alta. A base de força e os hábitos de exercício que você construiu com ele durante o tratamento são o que vai determinar se o reganho será majoritariamente de gordura ou se a composição corporal será preservada.
A mensagem que fica
As canetas emagrecedoras funcionam. São uma ferramenta poderosa para quem realmente precisa, ou seja, pessoas com obesidade e indicação clínica adequada. Mas o que os dados de mundo real nos mostram é que entre funcionar numa condição ideal e funcionar na vida real existe um abismo. E esse abismo é preenchido por acompanhamento, adesão, dose adequada e, fundamentalmente, exercício.
Entender esses dados não é ser contra os medicamentos. É ser honesto sobre as limitações e realista sobre o papel de cada profissional nesse processo. O personal trainer que compreende esse cenário não é alternativa ao medicamento. É peça-chave para que o tratamento funcione como deveria, e para proteger a saúde do aluno quando o tratamento, inevitavelmente para muitos, acabar.
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