Treino de Força e Canetas Emagrecedoras: o que a ciência diz sobre combinar exercício com agonistas de GLP-1

Revisamos todos os estudos publicados que testaram exercício combinado com medicamentos agonistas de GLP-1 e avaliaram composição corporal. Os resultados são promissores, mas a evidência direta é surpreendentemente escassa, e o tipo de exercício prescrito parece fazer toda a diferença.

por Rafa Lund11 min de leitura
Treino de Força e Canetas Emagrecedoras: o que a ciência diz sobre combinar exercício com agonistas de GLP-1
Sumario

Este é o quarto artigo da nossa série sobre medicamentos agonistas de receptores de GLP-1 e exercício. Nos três anteriores, cobrimos a farmacologia básica dessas medicações, o problema do reganho de peso após a descontinuação e a questão da perda de massa muscular associada a esses tratamentos. Agora vamos ao que talvez seja o tema mais relevante para o personal trainer: o que acontece quando você combina exercício com essas medicações? E, mais importante, que tipo de exercício faz diferença?

Primeiro, uma distinção que muda tudo: massa magra não é massa muscular

Antes de mergulhar nos estudos, precisamos resolver uma confusão que contamina boa parte dessa discussão. Quando os ensaios clínicos reportam perda de "lean mass" ou "fat-free mass" medida por DXA (absorciometria de raios-X de dupla energia), eles estão medindo tudo que não é gordura: água, órgãos, osso, tecido conjuntivo e, sim, músculo. A DXA não consegue isolar o músculo esquelético propriamente dito.

Isso é fundamental porque, durante uma perda de peso significativa, boa parte da redução de massa magra é simplesmente água. Tecido adiposo contém água intersticial; quando você perde gordura, perde também a água que estava associada a ela. É uma adaptação fisiológica normal, não uma perda muscular patológica.

Para medir músculo de verdade, precisamos de ressonância magnética (RM), tomografia computadorizada (TC), ou, no mínimo, da massa magra apendicular (ALM), que isola braços e pernas na DXA, onde a maior parte do tecido magro é de fato músculo esquelético. E quando olhamos para os estudos que usaram esses métodos mais precisos, o cenário muda. A análise de RM do SURPASS-3 mostrou que a tirzepatida reduziu o volume muscular da coxa em 0,64 L, um valor totalmente compatível com o esperado para aquela magnitude de perda de peso, conforme estimativas populacionais do UK Biobank. Ao mesmo tempo, a infiltração de gordura no músculo melhorou significativamente (Sattar et al. 2025). Traduzindo: o músculo ficou menor, mas ficou melhor. O estudo SEMALEAN, que avaliou semaglutida 2,4 mg por 12 meses, mostrou um padrão semelhante: a massa magra caiu nos primeiros 7 meses e depois estabilizou, enquanto a força de preensão manual na verdade aumentou ao longo do tratamento (Alissou et al. 2025).

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Essa distinção entre massa magra total e massa muscular esquelética é o que separa uma análise superficial de uma leitura rigorosa da literatura. E para nós, personal trainers, ela tem implicação direta: o que importa não é apenas o número na DXA, mas sim a capacidade funcional e a qualidade do tecido muscular do seu aluno.

O que sabemos: os estudos que testaram exercício + GLP-1

Aqui está a verdade que pouca gente fala: a evidência direta de ensaios clínicos randomizados (ECRs) testando exercício combinado com agonistas de GLP-1 e avaliando composição corporal é surpreendentemente limitada. Fizemos uma revisão extensiva da literatura e encontramos apenas quatro estudos publicados relevantes (um quinto foi retratado em 2025). Vamos a cada um.

S-LiTE: o padrão-ouro

O estudo S-LiTE, publicado no New England Journal of Medicine, é de longe o mais robusto (Lundgren et al. 2021). Trata-se de um ECR com quatro braços, duplo-cego e controlado por placebo. Após uma dieta de muito baixa caloria que produziu 13,1 kg de perda de peso, 195 adultos com obesidade (sem diabetes) foram randomizados para um ano de manutenção com: exercício supervisionado, liraglutida 3,0 mg/dia, a combinação dos dois, ou placebo.

O exercício era predominantemente aeróbio: sessões de ciclismo intervalado, circuitos e atividades individuais, com meta de pelo menos 150 min/semana de intensidade moderada ou 75 min/semana de intensidade vigorosa. Os resultados foram claros: o grupo combinação perdeu 9,5 kg adicionais (vs. 4,1 kg com exercício isolado e 6,8 kg com liraglutida isolada). A redução do percentual de gordura corporal no grupo combinação foi de 3,9 pontos percentuais, aproximadamente o dobro de cada tratamento isolado. Apenas o grupo combinação apresentou melhoras simultâneas na hemoglobina glicada, sensibilidade à insulina e aptidão cardiorrespiratória.

Uma análise secundária do mesmo estudo mostrou que a combinação também foi superior na redução da gravidade da síndrome metabólica e nos níveis de PCR ultrassensível, um marcador inflamatório (Sandsdal et al. 2023).

O que acontece quando tudo para: a durabilidade do exercício

Talvez o dado mais impactante para a nossa prática venha da análise de seguimento pós-tratamento do S-LiTE, publicada por Jensen et al. (2024). Um ano após o encerramento de todas as intervenções, os pesquisadores reavaliaram os participantes. O resultado é contundente: o reganho de peso foi 6,0 kg maior após a descontinuação da liraglutida isolada do que após a descontinuação do exercício supervisionado. Quem havia feito a combinação tinha 7,2 vezes mais chance de manter pelo menos 10% de perda de peso em relação ao placebo e 4,2 vezes mais chance em relação à liraglutida isolada.

Pense na implicação clínica disso. A medicação produz um efeito potente enquanto está ativa, mas quando para, o corpo volta. O exercício, mesmo após encerrado o programa formal, deixa um legado comportamental e fisiológico que protege contra o reganho. E a combinação dos dois é o cenário ideal: você potencializa o efeito durante o tratamento e constrói um "seguro" para quando a medicação eventualmente for descontinuada.

Semaglutida + exercício aeróbio: o estudo de Ingersen

O único estudo publicado que testou semaglutida combinada com exercício é o de Ingersen et al. (2023). Com 31 pacientes diabéticos tipo 2, o estudo avaliou 12 semanas de treino aeróbio (ciclismo a 75% da frequência cardíaca de reserva, 3x/semana, 45 min/sessão) isolado ou combinado com semaglutida. O grupo semaglutida já havia recebido a medicação por 20 semanas antes do início do treino.

O achado principal foi sobre secreção de insulina: a combinação melhorou sinergicamente a função das células beta pancreáticas. Mas o dado relevante para composição corporal foi que, durante as 20 semanas de semaglutida isolada, os pacientes perderam cerca de 5 kg de gordura e 2 kg de massa magra. Uma vez que o treino aeróbio começou, a perda de massa magra parou completamente, mesmo com a semaglutida continuando. O exercício estabilizou o tecido magro.

Duas ressalvas importantes: a dose de semaglutida era de 0,5-1,0 mg/semana (dose para diabetes, não a dose de 2,4 mg para obesidade), e composição corporal não era o desfecho primário. Ainda assim, o sinal é claro.

O alerta de Grannell: nem todo exercício protege

Este estudo é talvez o mais provocador para a nossa prática. Grannell et al. (2021) avaliaram prospectivamente 78 pacientes em uma clínica terciária de obesidade: 59 usando liraglutida 3,0 mg + mudança de estilo de vida e 19 apenas com mudança de estilo de vida. Todos foram avaliados por DXA após 16 semanas.

O resultado: a frequência autorrelatada de treino resistido (em dias/semana) não atenuou a perda de massa livre de gordura em nenhum dos grupos. E o exercício aeróbio também não aumentou a perda de peso total.

Antes de concluir que "musculação não ajuda", vale olhar o contexto. O exercício era autorrelatado, não supervisionado. Não havia controle de intensidade, volume ou progressão. A ingestão proteica não foi reportada nem otimizada. Comparar isso com um programa estruturado de treino de força com progressão adequada é como comparar "ir à academia" com "treinar de verdade". São coisas completamente diferentes.

A mensagem de Grannell não é que exercício não funciona. É que exercício de baixa qualidade, mal prescrito e sem supervisão, provavelmente não funciona. E isso, para um personal trainer, deveria ser mais uma validação do que um desalento.

A série de casos que mostra o potencial real

A publicação de Tinsley & Nadolsky (2025) traz três pacientes usando semaglutida ou tirzepatida que priorizaram preservação de massa magra com estratégias bem definidas: treino resistido 3-5 vezes por semana, exercício aeróbio complementar 4-7 vezes por semana, e ingestão proteica de 1,6-2,3 g/kg/dia relativa à massa livre de gordura.

Os resultados contrastam brutalmente com os ensaios clínicos sem exercício estruturado. O paciente 1, usando tirzepatida por 88 semanas, perdeu 33% do peso corporal, mas apenas 8,7% dessa perda foi de tecido magro. Nos trials de tirzepatida sem exercício estruturado, esse valor gira em torno de 25% (Look et al. 2025). Os pacientes 2 e 3, usando semaglutida, na verdade ganharam massa magra (+2,5% e +5,8%) enquanto perdiam peso. É uma série de casos, com todas as limitações inerentes a esse desenho. Mas mostra o que é possível quando a prescrição de exercício é feita com intenção e qualidade.

O que as revisões sistemáticas concluem

A meta-análise em rede de Karakasis et al. (2025), com 22 ECRs e 2.258 participantes, mostrou que agonistas de GLP-1 reduzem em média 3,55 kg de peso total, sendo 2,95 kg de gordura e 0,86 kg de massa magra. A massa magra representa aproximadamente 25% da perda total. Semaglutida 2,4 mg e tirzepatida 15 mg são os mais eficazes para perda de gordura, mas também os menos eficazes para preservar massa magra. Liraglutida foi o único agonista que reduziu peso sem reduzir significativamente a massa magra.

A revisão narrativa de Locatelli et al. (2024), publicada no Diabetes Care, formalizou a proposta de que treino resistido supervisionado deveria ser recomendado como adjuvante à terapia com incretinas, argumentando que intervenções com duração superior a 10 semanas produzem ganhos médios de 3 kg de massa magra e 25% de aumento na força. Os autores reconheceram que, até aquele momento, nenhum ECR havia testado essa combinação específica.

Neeland et al. (2024) trouxeram uma perspectiva mais nuançada: a heterogeneidade nos relatos de perda de massa magra (15-60% do peso total perdido) reflete diferenças de população, droga utilizada, método de medição e comorbidades. Os autores argumentam que, com base nos dados de RM disponíveis, as mudanças musculares parecem ser adaptativas e proporcionais à perda de peso, não patológicas.

A lacuna crítica: o que ainda não foi testado

Aqui está o fato que precisa ser dito com clareza: até o momento da publicação deste artigo (fevereiro de 2026), nenhum ECR completado e não retratado testou treino de força estruturado combinado com semaglutida 2,4 mg ou tirzepatida, tendo composição corporal como desfecho primário. Nenhum.

O estudo mais importante em andamento é o LEAN Mass Preservation Trial (NCT06885736), que combina semaglutida ou tirzepatida com um desenho fatorial de quatro braços: treino resistido isolado, proteína otimizada (1,6 g/kg/dia + 3 g de leucina/refeição), treino + proteína, ou cuidados padrão. Os resultados são esperados para 2027-2028 e devem finalmente preencher essa lacuna.

O que isso significa para a sua prática

A evidência direta é escassa, mas a direção é consistente. Quando combinamos o que sabemos dos ECRs disponíveis, das revisões sistemáticas, da série de casos e da fisiologia do exercício, algumas conclusões práticas se impõem.

Exercício e medicação são mais eficazes juntos do que isoladamente. Isso vale tanto para a magnitude da perda de peso e gordura quanto para a melhora metabólica e inflamatória. A qualidade do exercício prescrito importa mais do que sua mera presença. Exercício autorrelatado e sem controle de intensidade e progressão não demonstrou efeito protetor sobre a massa magra. Exercício supervisionado, com treino resistido estruturado e ingestão proteica adequada, produziu resultados radicalmente diferentes. O exercício protege contra o reganho após a descontinuação da medicação, um efeito que a farmacoterapia isolada não produz. Para mulheres de 30 a 60 anos usando essas medicações, a prescrição de treino de força se torna ainda mais relevante, considerando o risco acumulado de perda muscular associado à menopausa.

A recomendação que emerge do consenso atual dos especialistas é: treino resistido pelo menos 2-3 vezes por semana com sobrecarga progressiva, combinado com ingestão proteica de pelo menos 1,2-1,6 g/kg/dia, durante toda a terapia com agonistas de GLP-1. Essa recomendação se baseia em raciocínio fisiológico sólido, consenso de especialistas e evidência direta promissora mas ainda de baixo nível. Os ECRs que confirmarão (ou não) essa abordagem estão em andamento.

O personal trainer que entende essa ciência e sabe prescrever com qualidade para essa população está posicionado de forma única. A medicação resolve parte do problema. A prescrição inteligente de exercício resolve o resto.

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