Canetas Emagrecedoras e Saúde Óssea: o efeito colateral que quase ninguém discute

Perder peso com agonistas de GLP-1 pode custar densidade óssea no quadril e na coluna. Mas existe uma intervenção que protege o osso mesmo durante perdas de peso expressivas — e é exatamente o que você já deveria estar prescrevendo.

por Rafa Lund11 min de leitura
Canetas Emagrecedoras e Saúde Óssea: o efeito colateral que quase ninguém discute
Sumario

Este artigo faz parte da nossa série sobre medicamentos agonistas de receptores de GLP-1 e exercício. Nos anteriores, cobrimos a farmacologia básica dessas medicações, o problema do reganho de peso após a descontinuação, a questão da perda de massa muscular, as evidências sobre combinar exercício com essas medicações, o protocolo de descontinuação e a diferença entre resultados de estudos e mundo real. Agora vamos ao tema que pode ser o mais negligenciado de todos: o que acontece com os ossos.

Por que perder peso pode enfraquecer o esqueleto

Existe um paradoxo pouco intuitivo na relação entre peso corporal e saúde óssea. O excesso de peso, apesar de todos os seus riscos metabólicos, exerce uma função mecânica sobre o esqueleto: a carga constante estimula a formação óssea. Quando essa carga diminui — ou seja, quando a pessoa perde peso — o osso perde parte do estímulo que o mantinha.

Isso não é especulação. A meta-análise de Zibellini et al. (2015) reuniu dados de múltiplos ensaios clínicos e confirmou que a perda de peso induzida por dieta está associada a redução da densidade mineral óssea (DMO) em adultos com sobrepeso e obesidade. A revisão de Paccou & Compston (2024), publicada no Lancet Diabetes & Endocrinology, reforçou que essa perda óssea acontece independentemente do método de emagrecimento — dieta, cirurgia bariátrica ou medicação — e que os sítios mais afetados são justamente os de maior relevância clínica: quadril e coluna lombar.

Para entender por que isso importa, pense no osso como uma estrutura viva que se adapta às demandas mecânicas do corpo. Quando você pesa 110 kg, seus fêmures e vértebras estão constantemente sob carga. Isso sinaliza para as células ósseas (os osteoblastos) que aquela estrutura precisa ser mantida forte. Quando o peso cai para 95 kg, a demanda mecânica diminui — e o osso responde reduzindo sua densidade. É a mesma lógica da adaptação muscular: sem estímulo, não há razão para manter.

O problema é que, diferentemente do músculo, o osso responde muito mais lentamente e as consequências da perda podem ser silenciosas por anos — até que uma fratura aconteça.

O estudo que mudou a conversa: exercício, liraglutida e osso

Em 2024, o grupo de pesquisadores liderado por Jensen et al. publicou no JAMA Network Open uma análise secundária pré-definida de um ensaio clínico randomizado que investigou exatamente o que precisávamos saber: como diferentes estratégias de manutenção de peso afetam a saúde óssea em sítios clinicamente relevantes.

O desenho do estudo é elegante. Primeiro, 195 adultos com obesidade (IMC médio de 37, idade média de 43 anos, 64% mulheres) passaram por 8 semanas de dieta hipocalórica de 800 kcal/dia, perdendo em média 13 kg. Depois, foram randomizados em 4 grupos para uma intervenção de 1 ano: exercício + placebo, liraglutida 3.0 mg/dia + sedentarismo, exercício + liraglutida, ou placebo puro. A DMO foi medida por DXA no quadril, coluna lombar e antebraço distal.

Os resultados de perda de peso total (dieta + intervenção) mostram o que já esperávamos: o grupo combinado (exercício + liraglutida) perdeu mais peso (16,9 kg), seguido pela liraglutida isolada (13,7 kg), exercício isolado (11,2 kg) e placebo (7,0 kg).

Mas o que aconteceu com os ossos é onde a história fica interessante.

Liraglutida isolada: mais peso perdido, mais osso perdido

O grupo que usou liraglutida sem exercício apresentou redução significativa da DMO no quadril e na coluna lombar em comparação tanto com o grupo placebo quanto com o grupo exercício. Estamos falando de uma queda de 0,026 g/cm² no quadril e 0,020 g/cm² na coluna — números que, para quem não está acostumado com densitometria, representam uma perda clinicamente relevante em apenas 1 ano.

O dado mais revelador é a comparação direta entre liraglutida isolada e exercício isolado. Os dois grupos perderam quantidades semelhantes de peso — cerca de 11-14 kg no total. Mas a liraglutida reduziu a DMO no quadril (diferença de -0,013 g/cm², p=0,03) e na coluna (diferença de -0,016 g/cm², p=0,04) em relação ao exercício. Mesma perda de peso, desfechos ósseos opostos.

O que explica essa diferença? Composição corporal. O grupo exercício perdeu gordura mas ganhou massa magra. O grupo liraglutida perdeu gordura mas também perdeu massa magra. E a relação entre massa magra e massa óssea é mais forte do que a relação entre massa corporal total e massa óssea — como demonstrado em estudos epidemiológicos de grande escala. Traduzindo: não é o peso total que protege o osso, é o músculo.

Se você acompanha nosso blog, já explicamos no artigo sobre perda muscular com canetas emagrecedoras que aproximadamente 25-40% do peso perdido com GLP-1 sem exercício vem de massa magra. Agora vemos que esse custo muscular tem uma consequência óssea direta.

A combinação exercício + GLP-1: protegendo o osso apesar de perder mais peso

O achado mais importante do estudo: o grupo que combinou exercício com liraglutida perdeu significativamente mais peso (16,9 kg vs 7,0 kg do placebo) e mesmo assim manteve a DMO preservada no quadril, coluna e antebraço em comparação com o placebo. Nenhuma diferença significativa entre os dois grupos em nenhum dos sítios avaliados.

Pare para absorver isso. Uma perda de quase 17 kg — compatível com o que vemos nos ensaios do STEP e do SURMOUNT com semaglutida e tirzepatida — sem comprometimento ósseo detectável. A chave foi o exercício.

O protocolo de exercício, vale destacar, não era nenhum programa exótico. Consistia em 2 sessões supervisionadas por semana (30 minutos de ciclismo intervalado + 15 minutos de circuito com exercícios de força) e 2 sessões individuais por semana de intensidade moderada a vigorosa. O volume médio foi de 111 minutos por semana a 79% da frequência cardíaca máxima. É um programa que qualquer personal trainer consegue prescrever e supervisionar.

O marcador que conta a história por baixo dos números

Além da DMO, os pesquisadores mediram marcadores de turnover ósseo: CTX (marcador de reabsorção) e P1NP (marcador de formação). Esses marcadores funcionam como um "exame de sangue do osso" — eles mostram o que está acontecendo no metabolismo ósseo antes mesmo de as mudanças aparecerem na densitometria.

Durante a dieta hipocalórica de 800 kcal/dia, o CTX (reabsorção) aumentou 27% e o P1NP (formação) apenas 7%. Isso confirma que a restrição calórica severa acelera a reabsorção óssea sem aumentar proporcionalmente a formação — um desequilíbrio que, se mantido, leva à perda de massa óssea.

Um dado importante: nenhum dos tratamentos ativos (exercício, liraglutida ou combinação) suprimiu a formação óssea em relação ao placebo. Isso sugere que o problema principal da liraglutida isolada não é inibir a construção de osso novo, mas falhar em compensar a reabsorção que acompanha a perda de peso — algo que o exercício faz por meio do estímulo mecânico direto.

A semaglutida conta uma história parecida

O estudo de Jensen et al. usou liraglutida — a "primeira geração" das canetas. E quanto à semaglutida, que hoje é a mais utilizada?

O ensaio clínico de Hansen et al. (2024), publicado no EClinicalMedicine, testou semaglutida 1,0 mg semanal vs. placebo por 52 semanas em 64 adultos com risco aumentado de fratura (T-score < -1,0 e/ou fratura prévia por fragilidade). Os resultados foram consistentes: a semaglutida não aumentou a formação óssea (P1NP inalterado), mas aumentou significativamente a reabsorção (CTX mais alto no grupo semaglutida, p=0,021). Além disso, a DMO da coluna lombar e do quadril total foi menor no grupo semaglutida após 52 semanas.

Esse estudo é particularmente preocupante porque os participantes já tinham massa óssea comprometida — exatamente o perfil de muitas mulheres na perimenopausa e pós-menopausa que estão usando canetas emagrecedoras sem supervisão adequada.

Uma meta-análise recente de Tan et al. (2025), que reuniu 25 estudos, encontrou que o uso de GLP-1 RAs em pacientes com diabetes tipo 2 não se associou a aumento significativo no risco de fraturas. Porém, essa meta-análise incluiu majoritariamente estudos com populações diabéticas (onde o GLP-1 pode ter efeitos protetores independentes) e com perdas de peso modestas. Os dados com perdas de peso mais expressivas — como as obtidas com doses aprovadas para obesidade — apontam em outra direção.

Por que isso importa especialmente para mulheres de 30 a 60 anos

Se você atende mulheres nessa faixa etária — e especialmente se atende mulheres na perimenopausa ou pós-menopausa — a questão óssea deveria estar no topo da sua lista de preocupações quando uma aluna chega usando canetas emagrecedoras.

Como discutimos no artigo sobre osteopenia na perimenopausa, a perda óssea mais acelerada acontece nos 3 anos ao redor da última menstruação, com reduções de até 2,5% ao ano na coluna lombar. Agora some a isso uma perda de peso farmacológica de 15-20% do peso corporal sem exercício adequado. O resultado potencial é um acúmulo de dois fatores de perda óssea simultâneos — a deficiência estrogênica e a redução da carga mecânica — num momento em que a mulher já está vulnerável.

No artigo sobre exercício e osteoporose, mostramos as evidências de que o treino com cargas altas (acima de 85% de 1RM) não apenas é seguro mas é a intervenção mais eficaz para preservar e até aumentar a DMO nessa população. O estudo LIFTMOR demonstrou ganhos de 2,9% na coluna lombar com apenas 30 minutos de treino de alta intensidade, duas vezes por semana. Agora temos mais uma razão para prescrever esse tipo de treino: ele protege o osso durante o uso de medicações que promovem perda de peso.

O que tudo isso significa na prática

A mensagem central é direta: o exercício não é opcional quando se usa canetas emagrecedoras. Ele é parte obrigatória do tratamento.

O estudo de Jensen et al. demonstra que a combinação de exercício e GLP-1 é a estratégia mais eficaz — máxima perda de peso com preservação da saúde óssea. A liraglutida isolada, apesar de eficaz para o peso, custou DMO no quadril e na coluna. O exercício isolado protegeu o osso. E a combinação preservou o osso apesar de uma perda de peso ainda maior.

Para o personal trainer que atende alunos usando essas medicações, algumas implicações práticas se destacam.

Primeiro, pergunte sobre densitometria. Se sua aluna tem mais de 40 anos e está usando canetas emagrecedoras, uma densitometria recente deveria fazer parte da avaliação. Se já existe osteopenia, a urgência do treino de força adequado é ainda maior.

Segundo, priorize exercícios que gerem carga mecânica nos sítios de maior risco. O protocolo do estudo incluía ciclismo intervalado e circuito de força — mas se o objetivo é proteção óssea, os achados do LIFTMOR sugerem que exercícios compostos pesados (agachamento, levantamento terra, desenvolvimento) com cargas acima de 80% de 1RM são os que mais entregam resultados para a DMO do quadril e coluna.

Terceiro, não espere. O ciclo de remodelação óssea leva 3-4 meses para se completar, e mudanças detectáveis na densitometria raramente aparecem antes de 6-8 meses. Se a aluna começou a caneta antes de começar o treino de força, cada mês sem estímulo mecânico adequado é um mês de perda óssea potencial não compensada.

A conta que ninguém está fazendo

A narrativa popular sobre as canetas emagrecedoras foca quase exclusivamente no peso perdido. Os efeitos sobre massa muscular já começam a entrar na conversa — em parte por causa do trabalho que temos feito aqui e em outros canais. Mas o efeito sobre o osso permanece praticamente invisível para a maioria dos profissionais e pacientes.

E não deveria. Fraturas de quadril e coluna vertebral estão entre as principais causas de perda de independência e aumento de mortalidade em idosos. Uma fratura de quadril em uma mulher de 70 anos tem taxa de mortalidade de aproximadamente 20% no primeiro ano. Não estamos falando de estética ou performance — estamos falando de sobrevivência e qualidade de vida décadas à frente.

Quando um paciente perde 15-20% do peso corporal com uma caneta emagrecedora sem treinar, ele está potencialmente trocando risco metabólico presente por risco esquelético futuro. Quando ele combina a medicação com treino de força bem prescrito, ele reduz os dois riscos simultaneamente.

O exercício não é o complemento do tratamento farmacológico. É parte indissociável dele.


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