Resumo para profissionais
- O exercício abdominal não deve ser tratado como proibido por padrão em mulheres com diástase. Ensaios clínicos randomizados recentes mostram que programas com curl-up no pós-parto não pioram a distância entre os retos e ainda aumentam força e espessura muscular.
- Na gestação, treinar abdome e assoalho pélvico não aumenta a diástase de forma relevante. O afastamento cresce porque a barriga cresce, treinando ou não.
- O que define a conduta não é o exercício no papel, e sim a resposta do tecido na execução: se há protrusão, afundamento, dor, escape ou perda de controle sob carga.
- A proibição absoluta empobrece a prescrição e gera medo. A avaliação individual da resposta ao exercício é o que permite progredir com segurança.
- Sinais como dor persistente, sensação de peso pélvico, escapes, suspeita de hérnia ou protrusão muito acentuada pedem cautela e trabalho conjunto com fisioterapia pélvica e avaliação médica.
No primeiro texto desta série, falamos sobre por que a diástase não deveria ser avaliada apenas pela distância entre os retos, e por que o objetivo do trabalho nunca foi simplesmente "fechar o gap". Se você ainda não leu, vale começar por ele, porque ele estabelece a base de tudo que vem agora.
Neste segundo texto, quero atacar de frente um dos maiores fantasmas que cercam o tema: a ideia de que mulher com diástase não pode fazer abdominal. Essa é provavelmente a crença mais repetida e a que mais limita a prescrição na prática.
E é uma crença que está ficando cada vez mais difícil de sustentar diante da evidência.
A lógica do medo e por que ela falha
Durante muito tempo, a orientação para mulheres com diástase foi construída sobre uma lista de proibições. Não faça abdominal, não faça prancha, não agache pesado, não faça leg press, não faça nada que aumente a pressão intra-abdominal.
À primeira vista parece prudente. Mas quando você olha de perto, essa lógica tem um furo grande. Todo movimento relevante do corpo gera algum grau de pressão intra-abdominal e exige transferência de força pela parede abdominal. Levantar da cama, pegar o bebê no colo, tossir, subir escada, carregar sacola, correr. A parede abdominal trabalha em tudo isso.
Ou seja, não existe vida sem pressão intra-abdominal. Se a presença de pressão fosse o critério de perigo, a aluna não poderia fazer praticamente nada.
Por isso a pergunta certa não é se um exercício gera pressão. A pergunta é se aquela mulher consegue gerar e controlar essa pressão sem que a linha alba perca a capacidade de sustentar carga. É uma mudança de pergunta que muda toda a conduta, e é exatamente aí que os estudos mais recentes deixam a discussão muito mais interessante.
Curl-up no pós-parto: o estudo que contraria a regra
O exemplo mais direto vem de um ensaio clínico randomizado de Gluppe et al. (2023), publicado no Journal of Physiotherapy, premiado em congresso internacional e conduzido pelo grupo da pesquisadora Kari Bø, na Noruega.
O desenho é robusto, com alocação ocultada, avaliador cego e análise por intenção de tratar, o que dá confiança no resultado. Participaram 70 mulheres com diagnóstico de diástase entre 6 e 12 meses pós-parto. O grupo intervenção seguiu um programa domiciliar de 12 semanas com head lifts, curl-ups e curl-ups com rotação, cinco vezes por semana. O grupo controle não fez intervenção específica.

Repare no detalhe: o protocolo era recheado justamente dos exercícios que a regra tradicional manda evitar. E o resultado vai direto contra essa regra.
O programa não piorou a distância entre os retos. A diferença média ficou em torno de 1 mm acima do umbigo, com intervalo de confiança cruzando o zero, ou seja, sem mudança relevante. Ao mesmo tempo, o programa aumentou a força abdominal em cerca de 9 Nm e a espessura do reto abdominal em cerca de 0,7 mm. E não piorou sintomas de assoalho pélvico, dor lombar, dor na cintura pélvica nem dor abdominal.

Um programa de 12 semanas baseado em head lifts e curl-ups não alargou a diástase. A distância entre os retos não mudou de forma relevante, e força e espessura muscular aumentaram.
Agora, atenção a um ponto importante, porque é onde muita gente erra na leitura. Isso não significa que toda mulher com diástase deva sair fazendo curl-up. Essa não é a mensagem.
A mensagem é melhor que isso. O curl-up, por si só, não merece o rótulo de proibido ou perigoso. O que precisa ser avaliado é como aquela aluna executa, como a linha alba responde, se existem sintomas, se há protrusão importante e se ela tolera a carga proposta. O problema nunca foi o curl-up existir. O problema é prescrever qualquer coisa sem avaliar.
E durante a gestação? Treinar abdome aumenta a diástase?
Outro medo comum é o de que treinar abdome na gravidez vai "rasgar" a linha alba ou acelerar a diástase. Aqui também temos evidência direta.
Um ensaio clínico randomizado de Theodorsen et al. (2024), também publicado no Journal of Physiotherapy, avaliou gestantes com diástase em um programa de 12 semanas com exercícios abdominais e de assoalho pélvico durante a gravidez. As mulheres foram avaliadas logo após a intervenção e novamente cerca de seis semanas após o parto.
O resultado foi bem prático. A distância entre os retos aumentou nos dois grupos ao longo da gestação e diminuiu no pós-parto, e o efeito do treinamento sobre essa distância foi considerado desprezível. Em outras palavras, treinar abdome e assoalho pélvico durante a gravidez não aumentou a diástase de forma relevante.
Isso faz todo sentido quando você entende o mecanismo. A diástase aumenta na gestação principalmente porque o útero cresce e os tecidos da parede abdominal precisam se adaptar a esse volume. Esse processo acontece treinando ou não treinando. Atribuir ao abdominal um afastamento que é, na verdade, uma adaptação fisiológica ao crescimento da barriga é confundir causa com coincidência.
Isso não quer dizer que se prescreve qualquer coisa para qualquer gestante. A prescrição na gravidez precisa respeitar trimestre, sintomas, histórico, conforto, técnica, contraindicações e a orientação da equipe de saúde. Mas a ideia de que exercício abdominal bem conduzido é, por si só, um vilão da linha alba não se sustenta.
Vale registrar um detalhe mecânico que conversa com o primeiro texto da série. Estudos que mediram o comportamento da linha alba durante diferentes exercícios mostram que a manobra de "encolher a barriga", tão recomendada por aí, tende a aumentar a distância entre os retos no momento da execução, enquanto o head-lift e o curl-up tendem a diminuir. Ou seja, os exercícios "proibidos" são justamente os que aproximam os retos durante o movimento. Isso reforça que a regra simplista de "respiração é boa, abdominal é ruim" não descreve bem o que acontece no tecido.

Medições durante a execução em gestantes: a contração do assoalho pélvico e o "encolher a barriga" aumentam a distância entre os retos, enquanto head-lift, curl-up e curl-up diagonal a diminuem.
"Mas então o exercício fecha a diástase?"
Essa é a pergunta que toda aluna faz, e a resposta honesta é: às vezes ajuda, mas essa não é a melhor pergunta.
As revisões mais recentes sugerem que exercícios abdominais podem reduzir a distância entre os retos em alguns contextos, principalmente no pós-parto. A grande revisão sistemática de Beamish et al. (2025), no British Journal of Sports Medicine, encontrou evidência de baixa certeza de que o treino abdominal no primeiro ano pós-parto reduz a distância entre os retos em repouso e durante o head-lift.
Mas existem três motivos para não transformar isso em promessa. Primeiro, a certeza da evidência ainda é baixa para esse desfecho específico. Segundo, os estudos usam protocolos, medidas, pontos de avaliação e populações diferentes, o que dificulta uma receita única. Terceiro, e mais importante, reduzir a distância não é o único resultado que importa, como discutimos no primeiro texto.
A revisão de Weingerl, Kozinc e Šarabon (2022) reforça esse ponto. Os exercícios abdominais parecem ser uma parte importante do tratamento conservador, mas ainda não existe uma combinação ótima e universal de exercícios que sirva para todas as mulheres.
Então a discussão madura não cabe em "esse exercício fecha diástase" nem em "esse exercício é proibido para todo mundo". Ela mora em outra pergunta: qual exercício, para qual mulher, em qual momento, com qual progressão e com qual resposta do tecido.
O abdome não trabalha sozinho
Quando o assunto é diástase, é comum a conversa ficar presa ao abdome. Mas no pós-parto, pensar a parede abdominal de forma isolada é um erro.
A parede abdominal, o diafragma, o assoalho pélvico e a coluna funcionam de forma integrada para lidar com respiração, pressão intra-abdominal, estabilidade e movimento. São partes de um mesmo sistema de gestão de pressão.
A mesma revisão de Beamish et al. (2025) mostrou evidência de certeza moderada de que o treino do assoalho pélvico no primeiro ano pós-parto reduz as chances de incontinência urinária e de prolapso de órgãos pélvicos. Isso não faz do treino de assoalho pélvico a "cura" da diástase, mas reforça que a reabilitação e o retorno ao treino no pós-parto precisam olhar o sistema inteiro.
Na prática, isso aparece o tempo todo. A aluna chega preocupada com o tamanho do gap, mas no meio da conversa relata escapes de urina, sensação de peso pélvico, medo de carregar peso ou insegurança para voltar a correr. Se o profissional olha só para o abdome, perde informação que muda a conduta.
O que avaliar e como prescrever na prática
Uma boa avaliação precisa sair do "quanto abriu?" e ir para "como funciona?". A distância entre os retos é uma parte da avaliação, não a avaliação inteira.
Junto com a distância, observe a linha alba em repouso e sob carga. Ela consegue gerar tensão? Deforma muito quando a aluna faz força? Aparece protrusão no esforço, aquele abaulamento que sobe no meio da barriga? Aparece afundamento? A mulher controla a pressão, respira bem, tem dor, tem medo, está tolerando progressão de carga?
Isso importa porque duas mulheres com a mesma distância entre os retos podem ter respostas completamente diferentes. Uma treina sem sintomas, com boa tensão e bom controle. A outra tem desconforto, protrusão importante e insegurança em tarefas simples. A medida pode ser parecida, mas a conduta não pode ser a mesma.
A prescrição, então, começa pelo contexto. Quanto tempo de pós-parto? Parto vaginal ou cesárea? Houve complicações? Está amamentando? Dorme pouco? Tem dor ou sintomas de assoalho pélvico? Já treinava antes? Qual o objetivo dela, voltar a correr, voltar à musculação, melhorar a estética, recuperar força, reduzir o medo?
Depois vem a resposta ao exercício, que é o filtro decisivo. Um exercício não é bom ou ruim no papel, ele precisa ser observado na execução. Se a aluna consegue executar sem prender demais a respiração, controla a parede abdominal, a linha alba não deforma demais, não aparece protrusão relevante e não há dor nem escape, o exercício pode ser mantido e progredido.
Se a resposta é ruim, isso não significa que o exercício está proibido para sempre. Significa que talvez seja cedo demais, pesado demais, mal executado ou inadequado para aquele momento. Essa é uma diferença enorme. A proibição permanente empobrece a prescrição. A leitura da resposta, ajustando carga, amplitude e progressão, é o que faz a aluna evoluir.
O que eu evitaria dizer para uma aluna com diástase
Na prática, eu evitaria frases como "você nunca mais pode fazer abdominal", "você não pode agachar", "prancha é proibida" ou "se fizer força, vai abrir mais". Esse tipo de comunicação costuma nascer de uma intenção de cuidado, mas o que ela produz na maioria das vezes é medo, insegurança e uma relação ruim da mulher com o próprio corpo.
Ao mesmo tempo, eu evitaria o extremo oposto, que é fingir que nada importa. O fato de o medo ser exagerado não elimina a necessidade de avaliação. Existem mulheres com sintomas relevantes, protrusão importante, dor, alterações de assoalho pélvico, hérnias associadas ou dificuldade real de controle sob carga. Nesses casos, a progressão precisa ser mais cuidadosa e, em alguns cenários, o trabalho conjunto com fisioterapia pélvica e avaliação médica é fundamental.
O caminho não é terrorismo, mas também não é negligência. O caminho é critério.
Quando ter mais cautela e quando encaminhar
Alguns sinais pedem mais atenção e, muitas vezes, avaliação especializada. Dor persistente, sensação de peso pélvico, escapes urinários ou fecais, sensação de bola na vagina, piora importante dos sintomas com esforço, suspeita de hérnia, protrusão muito acentuada e difícil de controlar, ou insegurança grande para tarefas simples do dia a dia.
Encaminhar não significa parar tudo. Significa montar uma estratégia melhor. Em muitos casos, personal trainer, fisioterapeuta pélvico, obstetra e, em alguns cenários, cirurgião, precisam conversar. A diástase pode ser predominantemente funcional, estética, sintomática, cirúrgica, ou uma mistura disso tudo. Por isso a conduta não deveria nascer de regra de internet. Deveria nascer de avaliação.
A mensagem final
A discussão sobre diástase está amadurecendo. Por muito tempo o foco foi quase todo em fechar o espaço entre os retos e em proibir tudo que parecia arriscado. Hoje a conversa é mais inteligente: a distância importa, mas tensão, deformação, controle, sintomas e função importam tanto quanto.
O exercício abdominal não é milagre, mas também não é ameaça automática. Programas com curl-up no pós-parto não pioram a diástase e melhoram força. Na gestação, treinar abdome e assoalho pélvico não aumenta o afastamento de forma relevante. Isso não libera qualquer coisa para qualquer pessoa. Libera o profissional para pensar melhor.
Treinar uma mulher com diástase não deveria ser uma luta contra centímetros. Deveria ser um trabalho de reconstrução de função, suporte e confiança. A pergunta que importa não é só "fechou?". É "ela está funcionando melhor?".
Perguntas frequentes
Mulher com diástase pode fazer abdominal?
Na maioria dos casos, sim, desde que haja avaliação. Um ensaio clínico randomizado de Gluppe et al. (2023) mostrou que um programa de 12 semanas com head lifts e curl-ups no pós-parto não piorou a distância entre os retos e aumentou força e espessura muscular. O que precisa ser observado é a resposta da linha alba na execução, não a proibição do exercício em si.
Fazer abdominal na gestação aumenta a diástase?
A evidência disponível indica que não de forma relevante. No estudo de Theodorsen et al. (2024), treinar abdome e assoalho pélvico durante a gravidez teve efeito desprezível sobre a distância entre os retos. O afastamento aumenta na gestação porque a barriga cresce e os tecidos se adaptam, e isso acontece independentemente do treino.
O exercício fecha a diástase?
Em alguns contextos, sobretudo no pós-parto, o treino abdominal pode reduzir a distância entre os retos, mas com baixa certeza de evidência e sem uma fórmula universal. Mais importante que reduzir centímetros é recuperar a função e o controle da parede abdominal. Reduzir a distância é só um dos resultados possíveis, não o objetivo único.
Prancha e agachamento são proibidos para quem tem diástase?
Não existe exercício automaticamente proibido. Todo movimento gera algum grau de pressão intra-abdominal, inclusive tarefas do dia a dia. O que define se um exercício é adequado é a resposta da aluna: se há controle, se a linha alba não deforma demais, se não aparece protrusão relevante, dor ou escape. A partir daí, ajusta-se carga e progressão.
Por que tanta gente diz que abdominal piora a diástase?
Porque essa orientação se baseia mais em uma lógica de medo do que na melhor evidência disponível. Os ensaios clínicos randomizados mais recentes mostram que programas com curl-up não pioram a distância entre os retos. Como discutimos no primeiro texto desta série, várias recomendações tradicionais vêm de consensos baseados em opinião, que têm nível de evidência mais baixo que os ensaios clínicos.
Treinar só o assoalho pélvico resolve a diástase?
Não isoladamente. O treino do assoalho pélvico no pós-parto tem evidência de certeza moderada para reduzir incontinência urinária e prolapso, segundo a revisão de Beamish et al. (2025), mas não é a solução da diástase em si. A parede abdominal, o diafragma e o assoalho pélvico funcionam como um sistema integrado, e a reabilitação precisa considerar esse conjunto.
Quando devo encaminhar uma aluna com diástase para avaliação especializada?
Diante de sinais como dor persistente, sensação de peso pélvico, escapes urinários ou fecais, suspeita de hérnia, protrusão muito acentuada e difícil de controlar, ou insegurança grande para tarefas simples. Encaminhar não significa interromper o trabalho, e sim somar fisioterapia pélvica e avaliação médica para montar uma estratégia mais segura.
Como o Treino AI entra nessa discussão
A prescrição de treino no pós-parto exige mais do que uma lista de exercícios permitidos e proibidos. Exige raciocínio. O profissional precisa considerar contexto, sintomas, nível de treino, resposta ao exercício, progressão de carga e objetivo da aluna. É exatamente esse tipo de raciocínio clínico que estrutura toda a lógica do Método Lund.
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Rafa Lund / Mestre em Ciências do Desporto | Fundador Grupo LUND
Última atualização: junho de 2026
Referências
Lee D, Hodges PW. Behavior of the Linea Alba During a Curl-up Task in Diastasis Rectus Abdominis: An Observational Study. J Orthop Sports Phys Ther. 2016;46(7):580-589. PubMed
Gluppe S, Ellström Engh M, Bø K. Curl-up exercises improve abdominal muscle strength without worsening inter-recti distance in women with diastasis recti abdominis postpartum: a randomised controlled trial. J Physiother. 2023;69(3):160-167. PubMed
Theodorsen NM, Bø K, Fersum KV, Haukenes I, Moe-Nilssen R. Pregnant women may exercise both abdominal and pelvic floor muscles during pregnancy without increasing the diastasis recti abdominis: a randomised trial. J Physiother. 2024;70(2):142-148. PubMed
Beamish NF, Davenport MH, Ali MU, Gervais MJ, Sjwed TN, Bains G, Sivak A, et al. Impact of postpartum exercise on pelvic floor disorders and diastasis recti abdominis: a systematic review and meta-analysis. Br J Sports Med. 2025;59(8):562-575. PubMed
Weingerl I, Kozinc Ž, Šarabon N. The Effects of Conservative Interventions for Treating Diastasis Recti Abdominis in Postpartum Women: A Review with Meta-analysis. SN Compr Clin Med. 2022;5(1):10. PubMed
